CrónicasLifestyleTelevisão

O Sumo em Orange is the New Black

A maravilhosa segunda temporada de Orange is the New Black consegue ser ambiciosamente ampla e simultaneamente intima. Foi o equivalente televisivo de um quadro pintado a pontilhismo – de perto, cada traço e cada ponto tem a sua identidade e o seu próprio significado, mas, quando visto ao longe, eles fundem-se em algo diferente e dependente de todas as suas partes.

Na sua temporada de estreia, a série de Jenji Kohan soube oferecer uma visão mordaz de um sistema imperfeito, usando a Prisão de Litchfield como a representante dos falhanços da sociedade como um todo. À medida que a temporada progredia e as condições na prisão iam-se tornando cada vez piores – por causa de guardas sem escrúpulos, de esquemas fraudulentos, do uso de força excessiva e de um sentimento generalizado de apatia e de falta de interesse -, tornou-se claro que estas prisioneiras caminhavam por entre as fendas de um sistema prisional em decadência, já que nem os requisitos básicos (manter estas mulheres a salvo e em condições) que um estabelecimento prisional deveria ter se encontram a ser cumpridos.

Episódio atrás de episódio, foi possível ver que a liberdade dos guardas é um paralelismo contrastante com a vida que as prisioneiras têm. Healy, que está preso a um casamento com uma russa a quem pagou para casar, começa a ter sessões de terapia para aprender a lidar com a sua raiva e cria um refugiu para as reclusas poderem desabafar sobre as situações que são obrigadas a viver, talvez, como forma de compensar pela sua ineficácia em ajudá-las. Joe Caputo, o pervertido director do estabelecimento, torna-se numa espécie de herói, ao longo da primeira temporada, até que também ele acaba por ser seduzido pela sede de poder, optando, por vezes, por não fazer o mais correcto, ou por fechar os olhos a determinadas situações. Exemplo disso foi o episódio em que Bennett confessa ter engravidado uma das reclusas, Daya. A verdade, para ele, acaba por se tornar numa inconveniência, algo que deve ser escondido com todas as suas forças. Apesar de se ver como o salvador destas mulheres, a verdade é que as suas escolhas apenas perpetuam o falhanço do sistema que as rodeia. A verdade é que os guardas encontram-se tão presos – seja por fita vermelha, burocracia, desejos pessoais, ou raiva – como as reclusas que dizem proteger.

Na segunda temporada, é possível constatar que a vida em Litchfield tornou-se ainda pior do que já era. Longe vão os dias em que se praticava yoga e haviam bolos grátis. A heroína é a nova rainha da prisão, graças à chegada da sociopata Vee. As casas de banho apodrecem com os excrementos dos esgotos. Uma greve de fome é iniciada como protesto contra o uso abusivo de da Solitária como método de castigo. Jimmy, uma prisioneira senil e idosa, é libertada, sendo abandonada numa paragem de autocarro, uma vez que se tornou num problema que os responsáveis da prisão não pretendiam resolver da forma mais correcta. Onde antes havia um certo sentido de unidade, fracturas começaram-se a desenvolver, não só nas infraestruturas de Litchfield, mas também nas relações entre as personagens. Facções são formadas, dissolvidas e reformadas. As melhores amigas durante a primeira temporada, Taystee e Poussey, estão em guerra aberta uma com a outra. Suzanne desenvolve um lado mais violento sob a tutela de Vee, cujo confronto violento com Pussey só revela a forma como Taystee e as suas amigas estão destruídas, desde a chegada de Vee ao estabelecimento. A relação entre Piper e errante Alex está fragmentada mais uma vez, tal como o romance de Piper com Larry. A “família” que se tinha formado em torno da ex-cozinheira da prisão, Red, desfaz-se por completo, com Nicky e as restantes a virarem as costas à sua antiga protectora. Até Pennsatucky corta laços com os seus companheiros drogados da lavandaria, depois de ver os seus dentes tratados.

Ao longo de todos os episódios, existe a noção de que a prisão é um local que testa a personalidade de cada um, revelando, em última instância, a sua verdadeira essência. Piper é a personagem que melhor dá vida a esta noção, ao afirmar a um casal idoso, no funeral da sua avó, que a prisão não a reduziu como pessoa, mas que lhe revelou a pessoa que ela é verdadeiramente. O mesmo se aplica a Lorna Morello, que foi presa por ser uma stalker lunática, mas que na prisão acaba por demonstrar ser carinhosa e leal para com os seus. O estabelecimento prisional impele as personagens a encararem o que são na essência do seu ser e revelar essa personalidade ao mundo. Piper acaba por descobrir que é mais forte do que pensava. A sua gentileza e ingenuidade foram-lhe sendo retiradas até começar a ver a vida por aquilo que ela é: uma fachada.

Como em qualquer fachada, acidentes que poderiam ser insignificantes acabam por ganhar um significado muito mais abrangente. Por exemplo, o encontro aparentemente inócuo entre Vee e Miss Rosa, uma doente terminal com cancro, que é obrigada a mudar de mesa na cafetaria por causa de Vee. No fim, é esta falta de compaixão que dita o fim trágico da vilã desta temporada, quando esta foge da prisão e tenta parar uma carrinha que passa na estrada, sem saber que esta é conduzida por Rosa, que também havia escapado da prisão. Reconhecendo-a, Rosa, em vez de parar, decide atropela-la, num acto repleto de ironia: a falta de compaixão, tal como o karma, é uma sombra da qual não se consegue fugir. Um encontro furtivo que se torna no fim de uma das intervenientes, com o corpo de Vee a cair no chão e o seu olhar a contar a história do seu fim trágico.

A segunda temporada de Orange is the New Black aparenta estar estruturada em torno da guerra entre Red e Vee, as duas mulheres que representavam os dois polos opostos de uma grande parte da narrativa. Várias personagens vão sendo colocadas e tiradas do foco dos episódios, permitindo, desta forma, que Miss Rosa, a Irmã Ingalls, Morello, Poussey e outras tivessem direito a episódios com flashbacks seus. Paralelamente, Piper, que começa a temporada a ser transportada para outra prisão, é forçada a lidar com novos personagens e novas situações, onde, por exemplo, é demonstrado o contraste da sua ingenuidade com a arrogância de uma nova reclusa, Brook Soso. Apesar de ainda existirem, de vez em quando, momentos que nos relembram de uma Piper que já não existe, a segunda temporada soube construir uma Piper mais forte, que viu as experiências vividas por si mudarem a sua percepção da vida. Aceitou o seu lado criminoso e, principalmente, que a sua passagem pela prisão não é um desvio de percurso, mas que é sim um caminho que necessita de viver.

Se o primeiro ano preocupou-se em construir um mundo em Orange is the New Black, esta nova temporada centrou-se na disrupção desse mesmo mundo, com Vee a destruir a estrutura que havia sido criada em Litchfield. Uma mudança que está muito bem reflectida na forma como a ligação entre Poussey e Taystee é destruída. Contudo, no momento em que decide revelar o lado vil de Vee, Taystee consegue atingir a salvação para a relação com a sua melhor amiga, apesar de se manter apenas a um nível platónico (para grande tristeza de Poussey). A transformação desta amizade numa inimizade foi dos elementos emocionais mais devastadores da segunda temporada, mas a sua reconciliação foi, em simultâneo, um dos seus pontos mais altos. Numa série que lida de uma forma profunda com a dinâmica no feminino, este é um testemunho ao modo como estas personagens são escritas e à qualidade interpretativa que as duas actrizes conseguem ter. Ao ganhar-se mais conhecimento sobre o passado de ambas as personagens, é possível compreender as circunstâncias que as levaram até Litchfield e, com a cena que partilham na biblioteca, é demonstra a beleza da amizade e da compaixão, permitindo perceber que existe sempre a possibilidade de redenção para qualquer pessoa.

O acto de Taystee em escolher Poussey é algo que merece o devido reconhecimento, porque é representativo da relação entre os pequenos e os grandes momentos. Ela prefere escolher a intimidade da amizade à construção da grande família com que sempre sonhou. Vee, aparentemente, é morta por Rosa (corporizando o facto de que uma pequena atitude pode levar a grandes consequências), em vez de falecer como parte dos esquemas todos em que se envolveu. Estes são exemplos de algumas das linhas que, em conjunto, formam a big picture que é a vida destas mulheres na prisão. Em Litchfield, algo tão simples e trivial como um corte de cabelo pode ganhar um significado muito maior do que aquele que tem. Uma família torna-se em algo que é criado através da junção de pessoas que não se conhecem, mas que procuram a noção de pertença que ultrapasse todas as suas necessidades individuais. As paredes com fissuras da prisão, que têm no seu interior um conjunto de beliches e de celas, formam uma espécie de escapatória do mundo. Um local que revela a crueldade e a bondade de um indivíduo em proporções iguais. Um local que corrompe e salva em igual modo. Um local onde preto e branco tanto podem estar em guerra, como unidos num propósito em comum. Por estas razões, Orange is the New Black é maior do que qualquer personagem isolada, é maior do que Piper, Vee, ou Taystee, é, acima de tudo, a sua história colectiva, mas também a nossa que a acompanhamos.

Tags
Show More

Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: