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Crónicas

O sótão não é um caixote de lixo

Era sexta feira. À tarde. E não havia mais espaço nas assoalhadas para pôr documentos que pertencessem ao tão conhecido arquivo morto.

Estava cansada e sem vontade nenhuma de ir bater com a cabeça no teto triangular a que chamam sótão. Mas fui. Era pó por todo lado. Caixas, caixinhas e caixotes. Sacos de cama. Fundos de piscinas com cheiro a cloro e memórias afundadas.

O calor abrasador era quase impossível de aguentar, mas tinha a certeza que seria uma lufada de ar fresco a ideia de recordar alguns momentos e guardar outros.

Numa linha reta, direita e com quase dois metros, tinha à minha mercê todas as gargalhadas parvas que tinha dado nos últimos anos escolares. Livros empilhados, um a um. E o à-vontade para dizer que tinha sido tão feliz quanto o número de aranhas que subiam livremente as paredes.

Encontrei malas que já haviam ter carregado muito peso emocional e muitos outros sacos cheios de nada. Restos de camas onde alguns sonhos não foram concretizados e outras tantas com o desejo imenso da sua utilização ser eterna.

Podia ter montado uma tenda lá dentro e tinha pernoitado lá. Mas não. Arrumei o que tinha a arrumar e, quando me ia a despedir, com mais uma batida de cabeça no teto não preparado para alguém com 1 metro e setenta, arquivando os documentos mortos de outros elementos do jardim zoológico a que chamam família, deparei-me com uma surpresa.

Ao fundo, quase como uma luz. Vi uma que se destacava. Sempre esteve lá, mas nunca lhe tinha dado a atenção que merecia. Naquele dia, achei que havia de alterar isso. Abri. E para minha surpresa o espaço que até então era quente, tinha ficado ameno. À temperatura ideal para aproveitar aquele momento que
seria enriquecedor.

Havia música a sair de lá de dentro. Bilhetes de concertos. Cartas e bilhetes. Inúmeras declarações de amor e frases que conjugadas entre si dariam para escrever um livro. No momento em que pensava que a minha visita de médico estava terminada, dou por mim num estúdio de arte composto por diversos quadros que tinha
feito enquanto via o Art Atack e me sentia poderosa, porque tinha a cola branca tão falada.

Mais à frente exposto como uma ourivesaria, tinha relógios. A maioria sem pilha, mas todos com o desejo que a velocidade do tempo abrandasse. Eram todos do meu pai que se tinha responsabilizado por não deixar nenhum em estado próprio para consumo.

E, como todos os bolos, tem a cereja no topo, não era meu espanto, quando dei por mim com a roupa 0 anos ainda a cheirar a Mustela do Barbelas.

Se invadi a privacidade deles? Não. Vi só até onde podia.

Nesse momento, percebo que a minha mãe é uma popular líder, com um gosto incrível para rapazes difíceis. Tem um gosto musical pelicular e imagens a preto e branco que já tinham proporcionado muita cor à sua vida. Que o meu pai tem uma paciência de santo para aguentar a rapidez a que levo a vida e, por consequência disso, destrói os ponteiros todos.

E, por último, que enquanto o Afonso cresceu eu estive presa na mala que a mãe tinha levado para a maternidade com a chucha ainda na boca, que só seria tirada, quando tivesse o mano nos braços.

Desejei com muita força ter também uma caixa daquelas. Bem grandes. Cheias de memórias e vida. Onde, mais tarde, percebesse que tinha sido igualmente feliz. Com relógios partidos. Roupa que não me servirá, mas que isso também não me preocupa.

O sótão deixou de ser aquele sítio desagradável onde empilhamos o que não queremos deitar fora, mas também não queremos ver todos os dias.

O topo da casa passou a ser isso mesmo. O cume da montanha que é a minha vida. Com neve, sol, calor e muitos papéis escritos à presa. Porque na verdade o sótão não serve só para pôr trampa.

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