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PersonalidadesSociedade

O Sorriso Perpétuo de Robin Williams

Pode parecer ridículo que uma geração inteira de pessoas reclame como sua uma personalidade, mas, se existia um herói para aqueles que fazem parte dos Millennials, esse tinha sem qualquer sombra de dúvida o nome de Robin Williams.

Claro que ele não pertence apenas a uma só geração. No auge da sua carreira, milhões de pessoas em todo o mundo iam ao cinema vê-lo, nas estreias dos seus filmes, mas, quando eu era miúdo e existiam poucos filmes que fossem feitos a pensar nos mais pequenos, ele era a estrela de cinema que os Millennials sentiam genuinamente ser sua, o primeiro que conseguia surpreende-los, que sabia como ligar-se a eles, de quem genuinamente gostavam, em vez de, simplesmente, rirem-se dele. Robin Williams tinha um dom muito especial, a habilidade de ser magnificamente dotado e, mesmo assim, conseguir ligar-se a qualquer tipo de público que o fosse ver, de fazer coisas que nenhum cómico humano parecia ser capaz de fazer e de parecer que tudo o que fazia era feito especialmente para cada uma das pessoas que o via.

As notícias que anunciavam a sua morte alastraram pelo mundo inteiro, deixando todos e qualquer um que eram familiarizados com o trabalho do actor em choque. Para muitos jovens que, tal como eu, cresceram nos anos 80 e 90, esta perda ganha um significado ainda mais profundo. A carreira do actor de 63 anos expande-se ao longo de cinco décadas, mas os seus mais bem-sucedidos filmes, muitos direccionados para crianças, foram lançados, quando ainda éramos miúdos. O seu trabalho acabou por se fundir com a nossa infância, influenciando a nossa visão do que é a comédia, a arte, o divórcio e o processo de crescimento. Algo muito visível na onda de carinho que se ergueu, após a sua morte.

Eu nasci em 1986 e, infelizmente, nunca pude ver a popular série que catapultou Robin Williams para o estrelado, Mork and Mindy. Porém, o meu primeiro contacto com a sua genialidade foi ainda mais marcante, ao poder assistir maravilhado, através do meu tenro olhar de 6 anos, ao magnífico Aladino. Na altura, não conhecia suficientemente bem o actor para conseguir reconhecer o seu peculiar estilo de fazer comédia. Tudo o que sabia era que adorava o Génio da Lâmpada e que queria encontrar uma lâmpada mágica para mim. Nos dias seguintes, revi o filme um sem número de vezes e, sempre que podia, usava citações do filme nas minhas conversas. Foi o meu primeiro contacto com Robin Williams, mas não foi o último.

Um ano depois, Mrs. Doubtfire chegou às salas de cinema e nele o meu antigo Génio da Lâmpada tinha-se transformado num pai divorciado, que se mascarava de uma ama idosa, de forma a conseguir passar mais tempo com os seus filhos. Com outro actor no papel principal, este filme teria sido um fracasso, mas Robin Williams abraça o papel na sua totalidade, com uma sinceridade e uma devoção tal, que não é de admirar que esta representação seja considerada uma das melhores prestações da sua carreira. No entanto, o que fez deste filme tão importante para tantos miúdos da minha geração foi a forma como o actor soube transformar a história do filme numa mensagem positiva, mesmo com um enredo exagerado em alguns momentos. Para além das gargalhadas, Mrs. Doubfire foi para todas as crianças que estavam a viver o divórcio difícil dos seus pais um grande conforto emocional, sem nunca explorar excessivamente o lado emocional da história. Foi um filme feito com muito coração e que soube passar uma mensagem importante, sem nunca parecer uma lição de moralidade. Pretendeu garantir a todos os miúdos que, independentemente da forma como um divórcio estava a correr, os seus pais, acima de tudo, só tinham amor para lhes dar. Robin Williams, que nunca é condescendente com as crianças no filme, nem com as crianças que se encontram a ver o filme, parecia compreender a importância dessa mensagem e isso era algo raro no cinema da altura.

Ao longo dos anos 90, o actor aceitou papéis em filmes especialmente feitos para a família e que ficaram para sempre vivos na nossa mente e na nossa cultura: Peter Pan, em Hook; Alan Parrish, em Jumanji; Professor Philip Brainard, em Flubber; e Andrew Martin, em Bicentennial Man. Robin Williams soube dar vida aos papéis em filmes familiares como ninguém e, em troca, nós, os espectadores, abraçámos os seus filmes, como se fossem parte da nossa família. Ainda hoje me lembro de como a sua interpretação em Hook me fez fã do conto de encantar do Peter Pan.

Não foram só os seus filmes mais direccionados para a família que a minha geração aprendeu a amar. Foi no começo do meu percurso no liceu que vi, pela primeira vez, Good Will Hunting de 1997 e Dead Poets Society de 1989. Estava a entrar nos meus anos de incompreensão adolescente e não me apetecia muito aturar mentores idealistas, mesmo que estes fossem interpretados por um actor que adorasse, mas o Dr. Sean Maguire que Robin Williams criou, um conselheiro que se torna numa figura materna para a personagem principal, conseguiu derrubar todos meus preconceitos de adolescente. Ele não era brincalhão. Ele não era pateta. Ele não era nada do que estava habituado a ver no actor, mas o calor da sua personalidade era mais do que reconhecível e isso foi o suficiente para me conquistar.

Depois existe Dead Poets Society, um dos expoentes máximos no que toca aos filmes para adolescentes, mas que a minha geração não teve a sorte de ver nos cinemas, durante a adolescência. Eu tinha apenas 3 anos, quando o filme estreou nos cinemas, e lembro-me dele ter um estatuto de culto entre os jovens dos anos 90. O enredo do filme, que se desenvolve em torno de uma escola conservadora de rapazes, onde um professor revolucionário tenta lutar contra o sistema estudantil imposto para inspirar os seus alunos, não é de todo original. Porém, o zelo e a honestidade com que Robin Williams constrói John Keating eleva sozinho o filme de um cliché a uma genuína inspiração. Todos, quando chegamos à adolescência, sentimo-nos desiludidos com a escola, mas os livros, a vontade de aprender e a sinceridade é algo que conseguem sempre chamar a atenção de qualquer jovem e este professor revolucionário é um excelente exemplo de como isso é verdade. Ou como Robin Williams diz em determinado momento: “But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for.”

Mesmo com uma longa lista cinematográfica a comprová-lo, não me tinha apercebido do tamanho da influência que Robin Williams tinha tido na minha geração. Quando acordei na manhã em que foi noticiada a sua morte, praticamente todas as actualizações no meu Feed do Facebook e os tópicos mais seguidos no Twitter eram relacionados com a sua vida e com a sua morte, num claro indicador da sua importância para uma geração inteira. Cada pessoa parecia ter uma memória muito pessoal sobre determinados filmes seus. Ele foi o professor que todos desejamos ter, a baby-sitter que teríamos adorado, o melhor amigo que sabia como nos fazer rir.

Parece que sempre soube que Robin Williams era um actor genial, mas nunca tinha compreendido o quão genial era na realidade. Olhando para trás e para o seu percurso todo, apercebi-me que os seus melhores papéis não o definiram, mas ajudaram-nos a definir-nos como pessoas.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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