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O som dos Beatles

John Lennon, Paul McCartney, George Harrinson e Ringo Starr formaram aquela que é, provavelmente, a banda mais aclamada de sempre da história da música. Não só da música Pop, não só da música Rock, mas de todos os géneros, de toda e qualquer espécie de sonoridade, de qualquer tipificação rítmica e melódica.

Formaram-se em 1960 e, hoje, continuamos a falar deles. Os nossos avós falam deles como “aqueles rapazes de penteado igual que deixavam os jovens loucos”, os nossos pais falam com saudade e com a eterna citação “na nossa altura é que se fazia boa música”. Já a geração actual nunca os viu ao vivo, nem presenciou o fulgor do seu mediatismo, mas continua a consumir a sua música, divertindo-se com o facto de encontrar nas bandas contemporâneas, claras referências e influências retiradas da mítica banda de Liverpool.

Os Beatles não se definem num só estilo. Os Beatles são simplesmente cultura, tanto musical, como social. Marcaram, mudaram e redefiniram o destino do Rock and Roll, mas também abraçaram o Folk, também se experimentaram no Rock Psicadélico e até se aventuraram em elementos da Música Clássica. Aquilo a que a imprensa britânica aclamou de “Beatlemania”, era o conjugar do génio da guitarra e voz de Lennon e Harrinson, da delicadeza do baixo e da voz de McCartney e da energia da bateria de Ringo.

Tudo se encetou com vários pequenos concertos pelos pubs de Liverpool. Foi esse o ambiente que fermentou a popularidade que não tardaria a chegar. Brian Epstein, como manager, e, George Martin, como produtor, também têm grande quota naquilo que acabou por ser um sucesso imediato, impulsionado pelo primeiro single da banda, o tema Love Me Do.

Prémios e recordes, que até hoje continuam intangíveis, acabam por ser algo banal, quando se fala dos Beatles. São eles a banda que teve mais álbuns no primeiro posto dos tops do Reino Unido e, segundo a Recording Industry Association of America, também são eles que, nos Estados Unidos da América, venderam mais álbuns do que qualquer outra banda, ou artista. Ainda fazem parte da sua vitrina oito prémios Grammy e 15 Ivor Novello Awards – prémio atribuído pela British Academy of Songwriters, Composers and Authors. Como se não bastasse, os Beatles foram, como colectivo, inseridos no top 100 de pessoas mais influentes do século XX, pela revista Time.

Os Beatles eram especiais. Pura e simplesmente especiais. E a singularidade que os demarcava não se ficava pela música, já que o seu legado não se ficou só nessa área, mas, antes de mais, vamos começar por aí. O single She Loves You é a ilustração perfeita (e talvez a primeira) da revolução musical protagonizada pela banda.

A inovação está presente nos acordes, mais do que nas letras. E não, os Beatles não foram originais ao ponto de inventar novos instrumentos, ou novas formas de fazer música. A banda britânica foi original ao conseguir harmonizar técnicas Jazz na música Rock, em evoluir o estilo, em reinventar e asseverar novos sons, aqueles que se juntaram num só para se desenvolver o único e inconfundível, som dos Beatles.

Lembram-se de ouvir a expressão “Yeah” antes desta música ter sido editada? Pois… Agora já sabem a quem agradecer o uso desse som que se tornou tão trivial na música Rock – e não só – dos dias de hoje. Uma marca registada que se deveu à mente brilhante de John Lennon.

E o feedback? Sim, utilizado por quase todas as bandas contemporâneas. Explorado pelos Muse, reproduzido pelos Artic Monkeys, replicado pelos U2 e tantos, tantos outros. Esse mesmo, também o feedback teve de ser descoberto e foi, por eles, os Beatles. Para quem quiser comprovar, só precisa de ouvir a música I Feel Fine.

Ainda há o Heavy Metal. Pois é, surpreendidos novamente? Apesar de não ser unânime, também se pode atribuir a McCartney, Lennon, Harrinson e Ringo a primeira composição completa do género. Experimentem ouvir o tema Helter Skelter e saberão do que estou a falar.

Para além da música, transformaram, também, toda a restante cultura popular. A capa do álbum Abbey Road é um marco cultural. Já desfrutou de versões da autoria de outras bandas e continua, hoje em dia, a ser um ponto turístico obrigatório para quem visita Londres. Caminhar naquela passadeira, imitando os Beatles, é uma pose fotográfica que nos habituámos a contemplar um pouco por toda a Internet, tornou-se legitima, não causa estranheza a ninguém. Até nos desenhos animados, especialmente os americanos, as representações da banda se multiplicaram. Os Simpsons são, provavelmente, o melhor exemplo do supracitado, tendo em conta toda a mediatização que também adquiriram ao longo dos anos.

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Conclui-se, portanto, que a banda foi pioneira nos mais variados sentidos. Faltou ainda dizer que foram eles os primeiros a dar um concerto em estádios ao ar livre – foi no Shea Stadium, em Nova Iorque -, foram eles uns dos protagonistas da primeira transmissão mundial via satélite, onde cantaram All You Need is Love ao vivo e, foram também eles, os primeiros a produzir um disco conceptual daquilo a que nós chamamos Rock.

O álbum é denominado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, é de 1967 e granjeia da nossa particular atenção, tal a extensão que atingiu na indústria musical. O jornal The Times descreveu-o como “um momento decisivo na história da civilização ocidental”. Outras publicações vêem neste trabalho o melhor de sempre dos Beatles, uma obra-prima que marcou a década de 60, que circunscreveu o século XX e que continua a ser dos melhores trabalhos de originais que se produziram até ao momento. Aliás, é difícil cogitar um mundo onde este álbum deixe de ser uma referência passada, presente e futura.

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band foi o primeiro disco de Rock a ter a honra de vencer o Grammy para melhor Álbum do Ano. Isto para além de ter arrecadado as distinções de Melhor Capa, Melhor Engenharia de Som e Melhor Álbum Contemporâneo. A capa merece um destaque especial, é uma das capas mais famosas do mundo, acabando por servir de inspiração para muitos artistas ao longo dos anos posteriores ao seu lançamento. Pop Art em toda a sua essência e espírito, Beatles em todo o seu esplendor.

Porém, como tudo o que começa tem um fim, temos de falar nele. Faz parte da vida, mas, ao mesmo tempo, pode ser o início de um legado imortal. Foi o que aconteceu, neste caso.

Foi no dia 10 de Abril de 1970 que Paul McCartney anunciou a dissolução da banda. O motivo nunca foi translúcido, talvez porque não se deva apenas a uma única razão, mas, sim, a uma série de acontecimentos que se desenrolaram. Alguns evitáveis, outros são apenas parte do destino da banda britânica:

  1. O falecimento do manager, Brian Epstein, não foi fácil de digerir. É de conhecimento público que era ele que mediava todos os eventuais conflitos que os elementos da banda pudessem ter entre si. Além do mais, foi Epstein um dos grandes responsáveis pela imagem pública dos Beatles, garantindo-lhes uma gestão da popularidade que lhes foi fundamental para lidar com o sucesso e com os fãs. Consequentemente, o seu desaparecimento foi um passo largo para o equilíbrio da banda se dissipar.
  2. Os egos. Como todas as bandas que conhecemos, nem todos os elementos acabam por ter o mesmo nível de atenção e de mediatismo. Com os Beatles não foi diferente, foi, somente, a primeira vez que assistimos ao processo. Neste caso, Paul McCartney começava a ter uma agenda assente nos seus gostos e qualidade individuais, diminuindo a motivação dos restantes elementos.
  3. Afinal, Harrinson também era compositor. Essa descoberta e reconhecimento tardio, levou a que George quisesse um papel mais activo no processo de composição, que era mais delegado a McCartney e Lennon. Mais uma vez, não foi fácil conjugar gostos e tendências distintas numa harmónica unificação como grupo.

Destaco estes três pontos, mas, certamente, existiram mais. Ironicamente, os Beatles foram pioneiros até na separação. Os egos das estrelas de Rock nunca foram simples ou lineares, os egos de quatro provavelmente não conseguem coexistir, durante muito tempo. Para eles, foi uma década. Depois disso, seguiram projectos divergentes, ou a solo, ou com outros músicos. No entanto, nunca igualaram, nem se aproximaram, de nada do que alcançaram nesses dez anos.

Em dez anos, mudaram um século. Em dez anos, inovaram o mundo e conferiram um novo e admirável caminho à música. Tudo, com o seu som.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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