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O sol e ela

Encontrou-a.

Encontrou-a hoje como a encontra todos os dias, mesmo naqueles em que ela não aparece. Nos dias de nuvens, de frio respirar e almas cinzentas de sorriso difícil. Mesmo nesses dias ela se assoma em astuto esconderijo, invisível aos olhos e propositadamente presente. Sabe que ela está a iluminar de ouro os mantos de cinza que cobrem os dias invernosos. Ele sabe e ele ama-a. Mas não a pode tocar. Neste limbo seguem os passos inseguros da sua vida.

Acordou e abriu as cortinas. Sentiu o abraço do sol no rosto convidando-o para o dia. Foi uma injecção de alegria que o catapultou para a sempre adiada procura. Coragem retemperada e saiu de casa ansioso. Só lhe faltava saber que caminho trilhar. Havia apenas um, o seu, e nele seguiu olhando o tempo em frente, correndo, desejando ultrapassá-lo.

Percorreu a cidade, uma rua a seguir a cada rua. Avenidas, alamedas, largos, praças, lugares cheios da vida que era a sua. O local para onde seguia era como o espaço onde vivia, irregular como irregulares são as experiências, frio como frias são as longas noites só, acolhedor como acolhedoras são as memórias dela que queimam de paixão a sua alma. Alma perdida ali onde procurava o rosto dela. Mas em lado nenhum testemunhou as suas feições perfeitas de humanidade.

Não a encontrou naquela cidade nem nos arrabaldes para onde se deixou ir. Por vezes parava e permitia-se respirar. Sentia os odores das palavras que preparou para quando ela o ouvir e deixava-se apanhar pelo tempo que já ultrapassara na corrida desenfreada contra o fim da idade. O acumular de horas do dia estranhamente não lhe pesou no corpo e mesmo que parasse ali num descanso consciente, sabia que não se vestia de desistência. Desistir era um crime horrendo perante o seu sentir. Que faria então com tanto sentimento, onde o libertaria? Não, precisava de correr, urgir para pegar na ponta dos últimos raios do sol.

A claridade gritava esmorecer quando se descalçou e deixou a areia fina ser elixir nos seus pés cansados. Passos lentos trouxeram o som das ondas salgadas para junto de si. Sentou-se e observou-a. Observou o sol que era ela. Mergulhava no horizonte longínquo para permanecer perto no outro lado. Um até já vestido de cor. Torrou a claridade pintando o céu de laranja, o mar tomou tons de rosa subjugado à sua beleza, o negro esculpiu a solidão dos pescadores. E ele sentado na areia, viu o sol desaparecer, o sol que com ele esteve todo o dia como ela no seu pensamento. O sol que estava com ele todos os dias porque o seu amor não tinha fim. O sol que se escondia nos dias cinzentos porque também ela precisava de chorar para recordar como era bom voltar a sorrir.

Voltar a sorrir era no que ele já pensava quando regressava a casa no escuro. Voltar a sorrir porque se há quem tenha a vida mais terrena e por isso a melhor, ele sorria porque amava uma deusa e isso preenchia-o. Sentia-a em todo o tempo que vivia, sabia que ela estava lá, sempre presente, solidária e afectuosa, voz amiga de beleza incomensurável. E intocável, como intocável é o sol.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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