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O silêncio dos inocentes

Venho falar da Guerra. A Guerra de que não me lembro. Sou de um país sem Guerra na minha memória, mas não noutras memórias mais antigas. A Guerra é um bicho feio. Esta entre as pessoas é uma fera selvática feíssima. A Guerra contínua em que vivemos, que nos faz mal todos os dias. A Guerra de todas as Guerras a pior é a que mata, a que está a matar neste preciso momento. A outra, a que mata aos bocadinhos, também não é muito melhor. A que matou, ainda importa saber, para não repetir.

A Guerra e a maldade em todas as suas multíplices formas deveriam ser erradicadas da terra, consideradas mal maior e castigadas com castigos de trabalhar a terra.

A Guerra entre os adultos para as crianças é incontornável e perfeitamente incompreensível. Por isso, no Afeganistão as crianças saem de casa no meio do medo e muitas vezes, cumprimentam os soldados, levantando devagar as suas mãos em direcção às deles. São só crianças a tentar comunicar, o medo, que não querem mais viver no medo e que muito gostariam se tivessem a educação de se irem embora, porque todos estão tristes e não entendem porquê, os seus olhos perpassam-no e suplicam.

A Guerra entra-nos pela casa adentro, pelas telenovelas, cada uma com a sua e pelos noticiários, com a ideia mentirosa subliminar de que a Guerra é lá longe. Entranha-se e não se estranha. Ideia perigosíssima.

Do outro lado da Guerra, faz-me sempre lembrar a espectacular paródia dita por Raúl Solnado algures há trinta anos, andava eu na primária e em casa de uma amiga era costume nosso ouvir discos antigos como este. Nele não havia Guerra às Terças, Quintas e Sábados, também se emprestavam coisas ao inimigo e pediam-se outras. Eu aprendi um pouco da ironia do que poderia ser a Guerra. Por outro lado, faz-me lembrar a boa crónica de guerra, tantas vezes feita reportagem, tantas vezes, contados os sentimentos e as desgraças diversas vilipendiadas.

A Guerra não é noutro planeta, nem é coisa de outro planeta, Ela é nossa, feita por nós, com as nossas mãos, todos os dias a tornamos mais nossa, polui todos os dias, a água, o ar e a terra, enquanto a houver, a Guerra é aqui e agora. É no mundo a iminência da ameaça que nos afasta uns dos outros, o medo, o ódio dos povos que nem se tentaram conhecer e aceitar, compreender, ver as diferenças, deixá-las estar, tirar delas o que há de melhor, porque as diferenças são o que nos torna humanos e criativos, o que nos torna inteligentes, o que nos torna seres individuais, parte de uma grande equipa, a Humanidade. Se todos aceitamos que nem todos temos que gostar do Amarelo, porque nem todos aceitamos que cada um pode ter o seu Deus ou, as suas crenças e respeitar ao outro como um ateu respeita a quem tem Deus, porque nem todos aceitamos que a Terra Sagrada deveria ser património da Humanidade e onde fossem proibidas quaisquer guerras? Na Síria, na semana passada morreram mais noventa crianças em ataques com mísseis a zonas residenciais. Talvez, porque não nos deixem ver e aceitar, não nos deixem pensar que viveríamos mais e melhor sem Guerra.

Continua…

A guerra3

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Filipa Mar

Neste sítio vindo do nada e do aqui constroem-se sonhos, distraem-se sensações mais fortes, dizem-se no som do búzio ao ouvido, as coisas jamais ditas por vós.

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