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O ser sócio-humano

Todos os dias, os indivíduos interagem entre si, nos mais diversos contextos sociais. E interagir implica, como o próprio termo sugere, uma acção entre duas, ou mais pessoas. Daqui, foquemo-nos nas relações intersócio-humanas. Qual será a sua verdadeira problemática? É sobre isso que este artigo se debruçará.

Num primeiro ponto, há que entender como se desenvolve a interacção social. Ora, tendo em conta que o social, analisando de um ponto de vista singular, se apresenta uno e único (dado que todos os contextos sociais se diferenciam entre si), o contacto, ora mais directo, ora mais indirecto, revela-se indispensável. Se o indivíduo interage, é porque necessita de se integrar num determinado contexto, ou, mais amplamente falando, numa determinada sociedade. Para tal acontecer, deve haver iniciativa tanto da parte do sujeito em questão, como da parte dos restantes membros desse grupo, ora maior, ora mais pequeno. Por exemplo, se reduzirmos isto a um padrão cultural restrito, podemos verificar que essa dinâmica existe de forma mais comunitária, como é o caso das tribos. No caso de grandes padrões culturais, como é o caso dos EUA, podemos notar que a dinâmica existe, mas é algo mais individualizada.

Porém, quais os motivos para tal acontecer? Primeiro, porque temos um dado conjunto de recursos, a partir dos quais os seus membros devem encontrar uma forma algo pluralizada de utilização para fins adaptativos e, como consequência final, de sobrevivência. Segundo, porque o ser humano é também um ser social, e, mais do que isso, um actor social e a vivência em sociedade apresenta-se-lhe indispensável, uma vez que a necessidade biológica de reprodução e de comunicação são-lhe intrínsecas.

Agora, surge uma questão fulcral: como entender a comunicação? Pelos anos 20 e 30, o primeiro modelo oficial, digamos, da comunicação é definido por vários teóricos, sobre os quais existe pouca informação; trata-se da existência de um emissor (A) que emite uma mensagem (X) para um recetor (B). No final da década de 40, Claude Shannon & Warren Weaver, dois engenheiros norte-americanos concebem a ‘Teoria Matemática da Comunicação’, a partir da qual existe uma fonte (que produz uma mensagem), um transmissor, um sinal, uma fonte de ruído, a receção do sinal e um recetor (que a recebe e faz chegar ao destino), contendo vários meios e canais que o permitam fazer, assim como várias técnicas. Anos mais tarde, George Gerbner lança a sua conceção sobre a perceção, que revoluciona a visão sobre o fenómeno comunicativo: um acontecimento decorre, um indivíduo perceciona; neste processo de perceção, constrói a sua mensagem, de acordo com a sua disponibilidade e os seus meios, passando-a a um novo sujeito, onde o conteúdo poderá ser o mesmo, mas a sua forma mudará por completo. Apontada para 1979, Lee Thayer traz uma nova visão: passa a entender-se existir uma inter-relação entre o transmissor e o destinatário, que, a qualquer momento, podem trocar de posições, sendo, mesmo, o “não-dito”, comunicação.

Após ver todo este conjunto de concepções teóricas sobre a comunicação, é possível depreender que a própria História motivou transformações no entendimento entre pessoas. Tendo em conta que a evolução histórica foi acontecendo, com avanços e recuos, como se sabe, a concepção comunicativa, quer do ponto de vista teórico, quer do ponto de vista prático, foi ganhando um novo volume e modernizando-se, justamente a par da evolução da técnica. De tal modo que esta levou a profundas transformações nas estruturas sociais globais. Alguns sociólogos, como Max Weber, apontam esse ponto de viragem histórico, aquando das primeiras duas Revoluções Industriais (século XVIII-XIX), pois certos investigadores entendem termos passado pela terceira. Na verdade, foi um período de uma mudança paradigmática ao nível da concepção da sociedade: trazem-se valores como o lazer, muito associado ao dinheiro (capitalismo), a importância crescente da família, a distinção entre empregados e empregadores (que vai evoluindo muito lentamente), a melhoria nos cuidados higiénico-sanitários, bem como da saúde em geral. Se analisarmos, verdadeiramente, a essência de uma sociedade, desde então, compreendemos que estes aspectos têm repercussões absolutamente fulcrais na forma de conceptualizar o mundo.

Associado à ideia póstuma, expõe-se-nos uma grande explicação teórica – a intersubjectividade. Afinal, em que consiste este vocábulo evidenciado pelos sociólogos Peter L. Berger e Thomas Luckmann, na segunda metade do século XX? Basicamente, retrata a realidade social quotidiana, em que os seus membros interagem entre si, trocam não só pontos de vista, como também hábitos, costumes, tradições, modos de ser e de estar, comportamentos. Desta forma, constroem o quotidiano, recorrendo às suas vivências. Tudo isto gera a reprodução social, que define as dinâmicas estabelecidas entre os seres sociais. O mesmo autor chega a apresentar situações específicas, pontuando episódios comunicativos concretos, a fim de evidenciar esta teoria. Releve-se, ainda, a importância da intersubjectividade

Regressando ao século XX, o surgimento da Psicologia também ajuda a explicar o porquê da comunicação interpessoal. Graças ao seu aparecimento, foi possível começar a estudar o comportamento humano. E, com a Psicologia Social, o comportamento humano na sociedade. Assim, desde a teoria behavorista (que explica os modos comportamentais pela reacção mecânica por meio de estímulos) à concepção introspectiva e do inconsciente (aliás, tratada e desenvolvida por Sigmund Freud, na psicanálise), consegue-se entender que o Homem é um ser activo, dinâmico, com actos que se reflectem em diversos contextos.

Daquele entendimento parte-se para um ponto de vista mais pessoalizado. Na envolvência socio-humana, que aspectos se destacam nas relações? Um ponto primeiro, o contexto: lugar, data, hora, momento. Um ponto segundo, as pessoas: nível de formalidade, características físicas, afectos, sentimentos (mais duradouros), emoções (mais instantâneas). Com estes dois pontos, os sujeitos dinamizam-se entre si, consoante existe mais ou menos aptidão para desenrolarem-se relações, tendo em conta uma correlação incessante e não esquecendo a comunicação quer verbal, quer não-verbal. A ausência de qualquer tipo de comunicação é impossível, pois, muitos teóricos, dão a entender, ou subentendem que comunicar é a base da vida.

Finalizando, querer mudar o rumo de uma sociedade, passa por saber usar a “imaginação sociológica”, segundo Wright Mills propõe. Ou seja, saber como canalizar o acontecimento pessoal para o contexto social quotidiano e tentar chamar a atenção, identificando outros casos e, com efeito, proceder à mudança pretendida. Acima de tudo, há que entender que, cite-se Lee Thayer, “a comunicação não é uma ciência, mas uma arte”. Por isso, é que comunicar significa interagir, pois cada indivíduo, aliás, ser indivisível, define e gere a sua vida em conformidade com um padrão, pois ele necessite dessa dinâmica, dessa criatividade artística para se moldar, no fundo, para viver. Fechando, o ser sócio-humano produz sociedade, produz cultura, produz comunicação.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal 'ComUM', no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal 'Académico', juntamente com a sua participação semanal no 'Repórter Sombra', onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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