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O ser humano é um ser político?

Política. Uma palavra que muitos repudiam ou, simplesmente, ignoram. Em Portugal, geralmente, falar-se em política é associá-la, de imediato, a corrupção: “os políticos são todos corruptos”. A abstenção representa esse desprezo, bastando, para tal, ver que 66,2% dos portugueses não votaram nas últimas eleições europeias de 2014. Podem ser europeias, mas não deve o cidadão exercer a cidadania e, neste caso, exercer o seu direito de voto? Afinal, o que se pretende com a política? Tentarei fazer uma análise de objectivos concretos sobre participar em política.

Epistemologicamente falando, da palavra ‘política’ podemos retirar as mais diversas interpretações. No inglês, ‘polite’ significa ‘educar’, pelo que a política pode ser (e deveria) ser um objecto de educação para a cidadania. Recorrendo ao grego, atingimos ‘polis’ que significava, na Antiguidade Grega, cidade-estado; aliás, é daí que vem a democracia e vêm muitos dos valores contemporâneos dos actuais regimes democráticos. Ainda pelas raízes helénicas, podemos destacar o ‘poli’, prefixo que indica diversificação e pluralidade, o que se pode traduzir numa concepção abrangente da política.

Daqui, podemos partir para três pontos explicativos da participação nos circuitos políticos, que funcionam como possíveis três grandes objectivos: o ponto de vista da educação, o ponto de vista da administração pública e o ponto de vista da diversidade.

Em primeiro lugar, analise-se o ponto de vista da educação. Na semana passada, a propósito das mais recentes eleições do Reino Unido, ocorridas esta semana, passava no canal televisivo ‘Euronews’ uma reportagem sobre a abordagem política em contexto académico. Tendo em conta o mesmo objecto jornalístico, verifica-se que os alunos têm por norma uma orientação no sentido de olharem para o sistema político e conseguirem, chegando, inclusive, a realizar debates. Na mesma reportagem, uma das alunas entrevistadas chegava mesmo a questionar por que não implementar a possibilidade de voto aos 16 anos. Agora, surge a questão: não se conseguirá, assim, promover o espírito crítico e criar cidadãos verdadeiramente voltados para a cidadania? Sabendo que a política é que gere o Estado e toda a sua estrutura orgânica, devemos entender que domar uma orientação ajuda a contribuir para um maior desempenho perceptivo em sociedade. Deste modo, conferem-se mais forças no sentido de intervir e agir, sabendo identificar os erros, mas também os bons feitos, algo que no Reino Unido acontece e em Portugal não. E isso, claramente, repercute-se no panorama social. Wright Mills introduz, na Sociologia, o conceito de “Imaginação Sociológica”, precisamente, com o intuito de qualquer um de nós saber pensar o nosso problema à escala societal.

Em segundo lugar, analise-se o ponto de vista da administração pública. Saber gerir a dinâmica de uma freguesia, de uma autarquia ou mesmo de um país envolve toda uma ciência, no sentido em que existem leis a tomar em conta, ora institucionalmente estabelecidas ora culturalmente entranhadas, desenvolvidas em ordens sociais. Acima de tudo, uma arte, pois nem todos os políticos, apesar de parecer, governam de igual forma, pois há sempre um cunho pessoal, indispensável à administração de qualquer tipo de estrutura, porque, senão, para que serviriam as percepções? Construir uma visão e aplica-la é parte do ser humano. E faz parte do cidadão, porque a cidadania é de todos os cidadãos, que habitam uma determinada zona geográfica circunscrita. Porque foi diferente o governo de Pedro Passos Coelho e o governo de Pedro Santana Lopes, mesmo candidatos pelo mesmo partido? Ou porque foi diferente o governo de António Guterres e o governo de José Sócrates, também candidatos pelo mesmo partido? Porque há diferentes formas de ver, diferentes circunstâncias, diferentes ideias, diferentes equipas. A política é, sobretudo, uma arte, tal como a comunicação, seguindo o pensamento de Lee Thayer. E é preciso saber comunicá-la também, pois, muitas vezes, a descrença daqueles que dela usufruem reside precisamente na ausência de informação concreta sobre o que se faz no Governo e de que forma tudo acontece.

Em terceiro lugar, analise-se o ponto de vista da diversidade. Entender a política é entender diferentes percepções, pontos de vista, perspectivas. Entender a política é consolidar conhecimentos, experiências, contactos. Entender a política é atingir novos níveis de proximidade com pessoas, realidades, questiúnculas que nos ficam na mente e vamos vendo esclarecidas (ou não). Trata-se de alargar os horizontes, reflectir sobre outras temáticas e problematizar situações do dia-a-dia, numa forma de pensar como soluciona-las segundo o que pessoalmente se pensa. Ter uma ideologia é saber ganhar raciocínio, oratória, argumentação. Porém, com os obstáculos de estar no meio político, há que saber como preservar os traços distintivos de cada um e há que saber tê-los em consideração. Com efeito, consegue-se ter, dentro do mesmo partido, políticos que convergem mais ou que divergem mais em relação à base ideológica do mesmo. Inclusive militantes: todos eles a pensar por si, indo a ideia partilhada dentro de uma determinada esfera partidária ao encontro da sua ou não. Além disso, a diversidade está presente (ou deveria estar) nos traços caracterizadores de cada um de nós (que, apesar de tudo, somos indivíduos, indivisíveis): na sua religião, cor, etnia, nacionalidade, nos seus costumes, hábitos, nas suas tradições… E isso deve transparecer para o exterior e para a sociedade civil em geral. Esta é uma visão democrática, é certo, porém, são todos os partidos que conseguem conservar isso? Em sociedades autoritárias, como foram os tempos hitlerianos na Alemanha, nem todos concordavam com o regimento de Hitler e contraordenavam-no, como fez Oscar Schindler, que desviou muitos judeus dos campos de concentração. Ou Aristides de Sousa Mendes, em Bordéus (França), na mesma altura, também com judeus. Apesar de tudo, trata-se de uma “construção social da realidade”, como diriam Berger e Luckmann, resultante, do quotidiano, da interação entre os indivíduos (que não podem ser divididos, reforce-se).

Depois desta análise, devo terminar com uma frase de Aristóteles: “o homem é por natureza um animal político”. Se Charles Peirce, nos seus Collected Papers afirma que tudo é semiótico, que todos os objectos podem ser interpretáveis, representáveis, alvos de descodificação, a política encontra-se, igualmente, nas mesmas circunstâncias. O ser humano olha para tudo, cria pensamentos sobre tudo. E a cidadania faz parte de todos os cidadãos. Não se trata de algo ligado a um grupo minoritário e privado. Como conseguir mantê-la? Com a política, de nós, para todos nós. Por estas razões, podemos responder afirmativamente ao que o título questiona: o ser humano é um ser político.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal ‘ComUM’, no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal ‘Académico’, juntamente com a sua participação semanal no ‘Repórter Sombra’, onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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