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O Santhara, como libertar a alma a jejuar até morrer?

O nosso planeta é, sempre foi e sempre será um lugar espectacular. Nele, existe uma variedade incrível de fascinantes culturas e costumes que são transmitidas de geração em geração nas mais variadas regiões geográficas. Algumas culturas parecem-se à nossa. Outras não são minimamente parecidas, pelo que muitas vezes, ao conhecê-las, os seus costumes parecem-nos estranhos e até incompreensíveis.

O Jainismo é uma das mais antigas religiões da Índia e estima-se que tenha cerca de 5 milhões de fiéis. Fundado por Vardhamana Mahavira (549 a.C.- 477 a.C.), comparte tradições com o hinduísmo e o budismo. Apesar de rejeitarem o sistema de castas e a autoridade dos textos Vedas, a base gira em torno de certas práticas encaminhadas à libertação do espirito e à não-violência, sendo a mais sagrada de todas as suas práticas a morte voluntária por jejum absoluto.

O jejum é uma actividade muito comum entre os jainistas. Há cerca de 40 datas estabelecidas para praticar o jejum ao longo do ano, o qual, segundo esta religião, é a forma mais elevada de prática espiritual e representa uma forma de purificação, castidade e moralidade, sendo inclusive superior ao culto nos templos. Há vários tipos de jejum, que variam desde não comer, nem beber, durante um dia inteiro, até jejuar durante vários dias no ano, em períodos sucessivos, ao longo de sete, dez, ou quinze anos. A forma mais extrema de jejuar, é o chamado Santhara, no qual o jejum ocorre até à morte.

Tanto jejum nesta religião ocorre, porque os fiéis acreditam que a fome os conduz ao estado conhecido como Moksha, que nada mais é do que a libertação da alma. Anualmente, para praticarem o Santhara, milhares de fiéis fazem o juramento de fome, o qual é mais comum entre as mulheres, com 60% de participação. Entre os participantes do juramento, encontram-se pessoas muito doentes que estão prestes a morrer, além de fiéis saudáveis que escolhem morrer de fome.

MG_osantharacomoliberaraalmajejuandoatemorrer_1Esta morte voluntária significa para os jainistas morrer com a consciência clara, sem que a senilidade, ou outra doença afectem involuntariamente e fatalmente os seus votos e obrigações religiosas, para que assim os seus momentos finais, sejam de meditação pura e serena. A monja Sadvhi Charan Pragyaji, de 60 anos, foi a pessoa que conseguiu aguentar mais dias sem comer, morrendo após 87 dias em jejum absoluto.

Há todo um ritual por detrás deste jejum tão extremo, que deve seguir recomendações preestabelecidas há milénios. Por exemplo, deve realizar-se num templo, num lugar sagrado, ou no lar da pessoa, tudo com consentimento da família e a supervisão de um monge, o qual comprova que o aspirante está qualificado para realizar este ritual tão árduo e doloroso. O jejum começa sempre de forma gradual. Primeiro deixam-se de consumir os alimentos sólidos e seguidamente os líquidos, tudo unido a muita meditação e ao sussurro de mantras sagrados. Nenhum desejo de alcançar os céus superiores, de ganhar mérito religioso, ou de ter uma morte rápida deve vir à mente da pessoa, pois esses pensamentos representam apegos e ambições, e, portanto, o acto deixa de ser um sacrifício e passa a ser considerado suicídio.

Como se deve imaginar, esta prática religiosa, começou a ser questionada há alguns anos, especialmente por organizações de direitos humanos, que afirmam que o Santhara é comparável ao suicídio e à eutanásia e que deveria ser proibido. Os fiéis argumentam que sacrifício é diferente a suicídio, pois, afinal, as pessoas têm a liberdade de desistir do sacrifício de jejuar e continuar a viver, para além de que esta prática é protegida pela Constituição da Índia, onde consta que “cada secção de cidadãos de cultura diferente tem o direito de conservá-la”. No entanto, ainda que a Constituição permita a liberdade religiosa, ela também é muito clara em relação ao suicídio, o qual é considerado um crime, e em relação à eutanásia, que é proibida, pelo que em torno deste assunto há sempre grandes controvérsias. Ao longo dos anos, alguns membros das autoridades, por quererem limpar a imagem de negligencia e de omissão em relação aos jainistas praticantes do Santhara, chegaram inclusive a obrigá-los a comer.

Também poderia questionar-se, com a nossa mentalidade occidental, qual é o tipo de deus que exige que os seus fiéis morram de fome? O Jainismo é uma religião sem deus criador, onde se acredita apenas em alguns santos. Os jainistas acreditam somente no destino, no facto de que as pessoas são as únicas responsáveis por ele e que o nascimento e a morte nada mais são do que portais que são atravessados pela alma, durante a peregrinação de uma existência a outra.

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Maria J Gutierrez

Bióloga de profissão, amante da natureza e de todas as suas formas de vida, desde os seres mais gigantes até aos mais pequeninos. Não há nada como estar com a família, descobrir o mundo, aprender, ler um bom livro e cervejinhas com os amigos.

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