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PolíticaPortugal

O Salazar era jeitoso

Nunca tinha conversado com alguém que tivesse conhecido Salazar. Até àquele dia.

Cozinhei muitas vezes para ele, menina. Comeu muito da minha comidinha”, lançou com indisfarçável orgulho.

Conhecemo-nos no Jardim do Torel em Lisboa, num dos primeiros dias de Primavera.  86 anos inteiros num corpo franzino e sofrido. Um problema numa anca, alguns suspiros de cansaço entre as palavras, o luto carregado nas vestes a confirmar a solidão. Reconheci-lhe na pupila a inquietação de quem carrega estórias e histórias. Porque gosto de pessoas com vidas cheias, ouvi-a atentamente.

Primeiro o filho, um apenas, “não é mau filho, mas…”. Depois os netos onde se demorou mais tempo e adoçou as palavras com um sorriso, “só tenho pena de os ver tão pouco, moram longe, quer dizer, nem é assim tão longe, mas têm a vida deles, sabe como é…”. Não sei mas aceno que sim. “O meu neto é enfermeiro”, disse-me ao ouvido, segredando-me o nome e o hospital onde exerce. “Se um dia precisar de lá ir mande-o chamar e diga-lhe que me conhece”. Agradeci e sorri.

Foi sobre esse sorriso que me sentei ao seu lado no banco do jardim e pude escutar com maior nitidez os suspiros de dor que acompanhavam o discurso. A anca, a medicação que já não surtia efeito, mas “com esta idade” a cirurgia não era opção. Tinha pena que as dores lhe impedissem de alcançar o cimo do jardim para espreitar a cidade do alto como fazia na juventude. Queixou-se do Presidente da Junta que, na sua opinião, pouco fazia pela melhoria das acessibilidades. “Estes políticos não pensam nos velhos!

Tinha vindo para Lisboa ainda menina para ‘servir’ na casa do “Senhor General” e sua esposa, a “Senhora Dona Maria de Lourdes”. O “Senhor General” era Adolfo do Amaral Abranches Pinto, um distinto militar português que, entre outros cargos, foi Ministro do Exército entre 1950 e 1954, em pleno Estado Novo. Falou com gosto dos antigos patrões e respectivos filhos, “os meninos e as meninas”.

O Salazar ia lá muitas vezes. Era muito amigo do General”, soltou. “Vinha sempre sozinho e adorava a minha comidinha”. Interessei-me. “E como é que ele era?

Vou-lhe dizer a verdade menina, ele era jeitoso!

Descobri-lhe nesse momento um brilho novo no olhar, e através dele a menina que nela morava ainda. O meu espanto empolgou-a. “Só tinha um problema menina, não ligava nenhuma aos pobres. Este que lá está agora também é jeitoso, só espero que olhe um pouquinho mais por nós”.

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Telma Santos

Licenciada em Direito e apaixonada pela comunicação. Entendo que o olhar para o mundo e para a actualidade deve ser feito, sempre que possível, por dentro.

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