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O romantismo da morte

Não é parar que é morrer, é ir andando. Lê-se num dos mais conhecidos livros do autor Pedro Chagas Freitas, em Prometo Falhar. Parei nesta frase vezes sem conta, só por querer esbarrar-me nela, como que uma necessidade de aumentar a minha fome para melhor raciocinar sobre ela.

Será, então, o quê a Morte? E morrer, está assim tão perto do conceito de morte, como vulgarmente se julga?

Há dias passei os olhos nuns desenhos animados tão irritantes, que me pregaram por segundos. E, como nada acontece ao acaso, ou pelo menos o meu raciocino assim o entende, daí a segundos entrou uma personagem de cabeça quadrada e corpo de gente. A sua deixa resumiu-se a contar a sua vida a um amigo, repetidamente e inflexivelmente igual: acordo, tomo banho, vou trabalhar, trabalho o dia todo, volto para casa, vou dormir; acordo…. Dei-me conta de perguntas dentro de mim aos trambolhões. Vivemos dias, realmente, quadrados, com rostos quadrados, de pessoas quadradas, com roupas quadradas, ideais quadrados e cubicamente seguidoras de padrões e imposições.

Estaremos a viver, de facto? Ou estaremos a morrer a cada segundo que ‘quadradamos’?

Na verdade, a morte é um poema. Todos nascemos poetas no primeiro suspiro. Todos esticamos os dedos, as pernas, os braços, os pulmões como extensão de nós mesmos para abarcar todos os segundos que se sigam de vida, nesta Terra. Depois, parece não haver espaço suficiente para a dimensão de uma nova vida e vamos recolhendo, aos poucos e poucos, tudo aquilo que espreguiçamos no primeiro segundo. Os dias correm, somos iguais ao vizinho do lado, de cima, da frente, da retaguarda. Que importância tem o momento da morte, se numa vida se desiste assim de viver?

Existem duas formas de encarar a morte: penosa e feliz. A diferença existe apenas na forma como a vida é vivida e sentida.

Na Cimeira BBC Future’s World-Changing Ideas, Ezekiel J. Emanuel afirmou que nos focamos em demasia em juntar anos em rankings, havendo já tempo de mudar a nossa perpectiva sobre a morte. Assim, será a vida a colecção de dias, anos, décadas, ou será a vida a colecção de momentos, de sorrisos, de partilhas?

Voltando à frase de Pedro Chagas Freitas, encontramos a resposta e vemos que tantas vidas se anunciam na morte lenta, dramática, corrosiva, enfadonha. O mais interessante é que essas muitas mortes ao longo da vida acontecem no interior do ser, bem junto ao coração.

Mais que viver muito, é saber viver. Mais que morre-se na morte, a morte acontecer ao longo da vida.

O romantismo da morte acontece, quando na vida vivemos mais vezes do que as que morremos.

E a morte torna-se romântica.

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Ana Cláudia Domingos

Talvez por ter nascido na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, vivo com a cabeça nas nuvens (quase) a tempo inteiro. Para quem vive na cabeça nas nuvens, só isso, não chega. Falta o charme de exprimir emoções e sensações. Enquanto escolha, foi na saúde a minha aposta de vida. Na escrita e outras artes, como na música, encontro aconchego e pó mágico para esta vida. Longe de ser perfeita, enfim.... sou eu!

2 Comments

  1. Um artigo fenomenal! Talvez o melhor desta escritora! Recomendo a sua leitura e partilha. Numa época de inflexão de valores (quero crer que depois teremos a sua redescoberta), estas palavras dão que pensar… Obrigado por esta visão optimista da vida… 🙂

  2. Um artigo fenomenal! Talvez o melhor desta escritora! Recomendo a sua leitura e partilha. Numa época de inflexão de valores (quero crer que depois teremos a sua redescoberta), estas palavras dão que pensar… Obrigado por esta visão optimista da vida. 🙂

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