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O Robin Hood da Cidade chamado Arrow

Tal como muitas séries estreantes, Arrow sofreu em termos criativos para conseguir construir a sua primeira temporada. Os primeiros episódios sofreram de alguma falta de qualidade, com actuações pouco inspiradas e um voice-over um pouco irritante a dominarem a narrativa. O que fez com que a série não se conseguisse desligar das suas inspirações óbvias, já que, mesmo quando utilizava os seus melhores atributos, Arrow não era mais do que a fusão entre o Batman de Christopher Nolan e o Homem-Aranha de Sam Raimi. No entanto, na segunda temporada, a história amadureceu e soube largar as suas influências cinematográficas, dando a Oliver Queen um conflito interno que soube ligar todos os episódios e que permitiu fazê-lo crescer como herói.

Logo no primeiro episódio da última temporada, “City of Heroes”, foi cimentado o tom que a segunda temporada iria ter. Encontrámos um Oliver completamente desanimado e ainda a recuperar da morte do seu melhor amigo, Tommy, tendo-se refugiado na ilha, num auto-imposto exílio. Apesar da personagem de Colin Donnel não ter aparecido em muitos episódios, a sua presença fez-se sentir constantemente, tornando-se, ao longo do ano, na força que motiva muitas das acções de Laurel e do Arqueiro e chegando a tornar-se no motivo que levou a uma nova missão por parte do protagonista – “Para honrar a memória do meu amigo, não posso ser o assassino que outrora fui.” Não foram os confrontos com Slade Wilson, Sebastian Blood, ou Isabel Rochev que protagonizaram o grande conflito da temporada, mas sim este embate interior. É muito fácil lutar contra criminosos, se a única coisa a fazer para os deter é dar-lhes um tiro, mas teria Ollie a força e a coragem para não matar, mesmo que isso significasse colocar-se a si, à sua família e à sua cidade em perigo? Foi uma grande luta interna, que, aquando do último episódio, se tornou no elemento mais satisfatório de toda a temporada, com o justiceiro de Starling City a saber responder correctamente a esta questão e a tornar-se num melhor herói.

A segunda temporada serviu para demonstrar as capacidades representativas de Stephen Amell. Os seus pontos fracos ficavam sempre expostos nas cenas em que tinha de demonstrar o lado mais descomprometido e de engatatão de Oliver, uma vez que a sua forma metódica e intensa de actuar não tinham a capacidade de demonstrar esses aspectos da sua personalidade. Felizmente, este não foi um elemento muito explorado ao longo deste ano. Houve mais sofrimento, do que sucessos e é nesses aspectos da personalidade da personagem principal permitem a Amell brilhar como actor. Foi impressionante assistir à forma como sobe apresentar a mesma personagem em períodos distintos da sua vida, com a vida na ilha a ser revisitada constantemente em flashbacks e a apresentar-nos um Oliver Queen, que depois de passar um ano a lutar contra Edward Fyers e Billy Wintergreen, se encontra mais próximo da pessoa que é actualmente. Mais do que as mudanças no corte de cabelo, foram as mudanças na entoação da sua voz e na linguagem corporal que o actor soube implementar que conseguiram convencer-nos da transformação do menino mimado em vigilante da cidade.

Tendo-se estabelecido como um dos actores secundários mais proeminentes, durante a primeira temporada, Manu Bennett passou a ocupar um lugar na ribalta e tornou-se no último grande antagonista de Arrow. Foi crucial que a série tivesse apostado, durante duas temporadas, na construção da irmandade entre Oliver e Slade. Era necessário sentir a dor da sua separação. Era necessário seguir a transformação de Slade num vilão, cujo o único objectivo é vingar-se através da destruição da vida do seu ex-amigo. Slade é um homem enlouquecido pelo desgosto da perda da mulher que amava e por causa da injecção de um sérum que lhe conferiu uma força sobre-humana. Contudo, mesmo no meio de tantas manobras vingativas, é de louvar que a coragem dos argumentistas de não justificar a fúria de Slade com a injecção de Mirakuru e que, no fim, o tenham mantido como um verdadeiro perigo para Ollie e companhia, apesar de já não ter a sua super-força e de estar exilado na ilha.

Uma das maiores falhas que a primeira temporada teve foi a forma como os vilões eram pouco explorados e mal aproveitados. A segunda temporada não conseguiu ultrapassar este problema por inteiro, mas fez avanços significativos com Sebastian Blood e Isabel Rochev, os dois subordinados de Slade. Por um lado, o charme desarmante que Kevin Alejandro soube colocar em Sebastian Blood criou um constaste hipnotizante entre o candidato a Mayor e o vilão que raptava drogados e arruaceiros da rua para transformá-los em super-soldados. No fundo, Blood foi um género de vilão que escolheu percorrer um caminho errado pelas razões certas. Apenas tinha o genuíno desejo de tornar Starling City num lugar melhor e, quando se apercebeu que Slade não tinha intenção de deixar a cidade de pé, decide tomar a atitude correcta e juntar-se à equipa de Arrow. Por outro lado, a Isabel Rochev de Summer Glau não foi tão bem sucedida. O principal problema com esta personagem foi a forma como foi descartada da narrativa, durante muitos episódios, até ser revelado que fazia parte do grupo de vilões. O seu papel de executiva implacável e sem escrúpulos tornavam-na demasiado unidimensional, mas a revelação das suas verdadeiras motivações para o ódio que tinha pela família Queen permitiram-lhe crescer e explorar aspectos desta personagem muito mais interessantes do que a ganância. Foi interessante ver Isabel erguer-se dos mortos e, basicamente, tornar-se na filha pródiga do Deathstroke. Foi pena que a sua rápida morte no último episódio tenha destruído todo o potencial encontrado entretanto.

A maior parte do grande elenco secundário teve direito a várias oportunidades para poder brilhar ao longo da segunda temporada. Apesar de ter tido um papel menos preponderante (com a excepção do seu papel proeminente no Esquadrão Suicida), Diggle teve de ceder algum do seu espaço a Sara Lance, que, depois de regressar dos mortos, se juntou à equipa de vigilantes de Oliver. O Flecha tinha, assim, encontrado o seu Canário. As lutas internas de Sara no que tocava ao uso de força letal e o processo de regresso a uma vida normal junto da sua família permitiram criar momentos de drama com que facilmente nos relacionávamos. No entanto, foi outro membro da equipa de Arrow que conseguiu roubar a ribalta constantemente e essa personagem tem o nome de Felicity Smoak, a quem era dado, na maioria das vezes, o melhor material do enredo. Na primeira temporada, a sua imagem de génio da tecnologia tornavam-na um pouco cansativa ao fim de alguns episódios, mas as linhas narrativas em que esteve envolvida esta temporada permitiram que Emily Bett Rickards conseguisse desenvolver a personagem em vários ângulos – no amor não retribuído por Oliver, no seu electrizante relacionamento com Barry Allen e no seu desejo de demonstrar aos seus colegas de equipa que também pode ser uma mais-valia nas lutas mais físicas. Tudo isto contribuiu para que, nos últimos três episódios, a sua presença se fizesse notar e se tivesse transformado no coração da série.

Enquanto Roy Harper teve direito a algum tempo de antena e alcançou o seu objectivo de se tornar num herói na equipa de Arrow, as restantes mulheres na vida de Oliver Queen não tiveram a mesma sorte. Moira percorreu um caminho interessante, começando a segunda temporada a lutar pela sua vida em tribunal, depois de ter confessado o seu papel na destruição do The Glades. Seguiu-se uma alteração de percurso inesperada, quando se candidatou para o lugar de Mayor da cidade e acabou, finalmente, por morrer às mãos de Slade. Foi um fabuloso final para Moira, permitindo-lhe provar que todas as opções que tomou ao longo do seu percurso, independentemente de terem sido as mais correctas ou não, só tinham como objectivo garantir o melhor para os seus filhos. Com tanto a acontecer, Thea acabou por ser pouca utilizada, mesmo que na recta final tenha recebido mais atenção, ao descobrir que a verdade sobre os seus pais, e Laurel teve um arco narrativo muito confuso e demasiado disperso. Caindo nas mãos do vício em drogas e no álcool, Laurel perdeu o seu emprego, chegou ao fundo do poço e reergueu-se ainda a tempo de ter um papel importante na luta para salvar Starling City. O seu problema encontra-se no modo como Katie Cassidy a representou, sendo que, por vezes, conseguiu torná-la insuportável e não conseguindo demonstrar o sofrimento que a personagem sentia. Porém, mais próximo do fim da temporada, já foi possível vislumbrar a possibilidade de torna-la numa heroína, caso os produtores decidam ir nessa direcção.

O grande desafio da segunda temporada não se centrou apenas no ultrapassar das falhas recorrentes da temporada de estreia, mas também no recuperar da ênfase no realismo da série, de forma a conseguir estabelecê-la num universo DC, em que seres com super-poderes existem. Foi um grande desafio a que os criadores da série se propuseram e que permitiu um resultado muito satisfatório, utilizando o Mirakuru como um método pseudo-científico e credível de introduzir as capacidades sobrenaturais e de transformar Slade no mortífero Deathstroke. Quando chegou o episódio de apresentação do Flash, Barry Allen nunca foi construído como uma personagem que destoava das restantes personagens sem poderes e servindo um propósito claro, para o qual não necessitou dos seus poderes.

Efectivamente, este último ano de Arrow abriu as portas para que mais personagens e elementos pertencentes à propriedade da DC fossem incorporados na trama. Foi possível ver mais desenvolvimentos com Amanda Waller e o Esquadrão Suicida da A.R.G.U.S., provando que, com o devido desenvolvimento, seria possível criar um spinoff baseada nesta equipa. Nos flashbacks, o Professor Ivo, juntamente com uma versão diferente de Amazo, tornaram-se nos vilões na história decorrente na ilha e, numa bem recebida reviravolta, a série expandiu o seu raio de acção, incorporando elementos normalmente associados a outra personagem da DC – o Batman. Em ambas as temporadas, é descoberto que tanto Sara Lance, como Malcolm Merlyn têm uma ligação à Liga de Assassinos. Nyssa al Ghul apareceu em alguns episódios desta última temporada e referiu que o seu pai, Ra’s al Ghul, era o líder de uma organização de assassinos que tinha como quartel-geral a cidade escondida de Nanda Parbat. De certeza que Starling City nunca será visitada por Bruce Wayne, ou pelo Batman, mas é positivo saber que não existem limitações à forma como o universo de Arrow pode ser desenvolvido.

Para além da introdução de novos elementos, o escopo de Arrow também aumentou. As cenas de acção tornaram-se maiores e melhor coreografadas. A escala dos conflitos aumentou. Não interessa se o orçamento de produção aumentou no segundo ano, ou se isto foi resultado de um bom planeamento e da experiência acumulada durante o ano de estreia, porque a verdade é que Arrow melhorou e transformou-se numa série televisiva com os melhores elementos cinematográficos da actualidade. A construção da narrativa também seguiu as mesmas linhas evolutivas, atingindo uma melhor execução do que a temporada anterior. A divisão da atenção da história entre Sebastian e Slade permitiu que o arco central não fosse interrompido, tal como aconteceu com os planos de Malcolm Merlyn para o The Glades, ou o envolvimento de Moira nesse projecto. Os episódios solitários, centrados num único vilão, continuam a ser, por vezes, bem-sucedidos e, noutras vezes, um obstáculo a ser derrubado, sendo necessário melhorar a forma como estes são geridos ao longo da próxima temporada.

O que me leva ao meu desejo final para a terceira temporada: uma grande vilã. Segundo os eventos que ocorreram em “Unthinkable”, é certo que Malcolm Merlyn irá ter um papel recorrente na nova temporada e a Thea poderá trilhar um caminho de vilã, mas, depois de dois vilões homens, cujas motivações estão assentes na perda da mulher que amaram, gostaria de ter uma mulher com os seus próprios objectivos e um plano que a equipa de Arrow teria de descobrir, para a poderem parar. Duas temporadas com homens levados ao extremo por causa de uma mulher já é o suficiente. Agora é tempo de apresentar uma mulher que não tenha medo de recorrer a métodos extremos para atingir o que pretende.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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