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ContosCultura

O resto – Parte 2

Voltou a olhar para o papel. Tanta coisa que uma pequenina folha pode encerrar! Tudo tinha acontecido tão rápido que parecia uma situação surreal. Suspirou. Colocou a folha de lado e olhou para o monte lateral. Encheu-se de coragem, afastou tudo o que tinha na mesa e abriu o monte.

Ui! Saltaram novamente aquelas memórias que estavam fechadas na mala que, um dia , ia ser arrumada. Aquele era o dia. Colocou-as lado a lado e sorriu levemente. Eram os apontamentos que ela lhe tinha dado. Ali estavam, com a sua letra redonda, muito certinha, muito feminina e todos alinhados.

No canto da primeira folha, uma frase escrita com lápis de cor. “Gosto muito de tu!”. Ai como era bom relembrar aquela época em que as cerejas crescem nas árvores, livremente, emparelhando conforme lhes apetece. Ao lado estava um coração dissecado e os respectivos nomes. Na altura pareciam-lhe tão engraçados, mas, quando lhe começou a doer a sério, no verdadeiro, aquela nomenclatura desapareceu.

A seguir os nomes dos ossos e dos músculos. Tantos e todos interessantes. Ela tinha o hábito de desenhar pequenos corações por cima dos is, fazendo com que as palavras se apaixonassem. “Olha estas parvas! Estão apaixonadas! Parecem alguém que eu conheço! Sabes quem?” Ria imenso e ele não lhe resistia.

Aqueles beijos quentes e prolongados tinham deixado uma marca profunda. Levou a mão aos lábios e o calor inicial regressou. Que disparate, pensava ele. Estou a delirar. Levantou-se e foi buscar um cigarro. Tinha deixado de fumar havia muito, mas tinha um maço de reserva, para o que desse e viesse.

Abriu a janela e fumou o cigarro. Num instante regressou à biblioteca, à véspera do exame e àquela sensação que nunca esqueceria. As mãos dela tocavam-no com sabedoria e percorriam caminhos que ele desconhecia. A cada toque dela, subia a uma altura tão grande que se sentia tonto.

Fechou os olhos e ela estava ali. Sentiu-lhe o hálito e o calor que vinha do seu corpo desinibido. Ele encolhia-se, mas não queria resistir à novidade que se lhe deparava. Fumou o cigarro até ao fim. Fechou a janela e olhou para a mesa. Palerma. Como foste capaz de ser tão estúpido?

No dia do exame estava tão nervoso e tão excitado que tudo parecia que ia correr mal. Não tinha conseguido dormir. O seu pensamento era para ela e não para o exame. Ele queria passar, seguir em frente e ter a porta aberta para o futuro que desejava. Ela era, naquele momento, prioritária.

Nem a viu apesar de espreitar e esticar o pescoço até ao máximo. Tinha a certeza que estava ali, sentia-a, mas não a via. Começou a suar e as mãos pareciam escorregar. Olha agora. Para o que me havia de dar. Tenho que me concentrar que vai correr tudo bem. Eu estudei o suficiente para não ter surpresas. Esfregava as mãos nas calças e estas ficavam azuis.

Respondeu a tudo, mas ficou com a sensação que podia fazer muito melhor. Continuava a sentir o seu odor, mas seria, no mínimo, uma partida do seu cérebro. Terminou o exame e entregou-o. Reparou que já quase não havia ninguém no anfiteatro. Ela não estava ali. Onde estaria?

Cá fora o ar estava mais fresco. Os joelhos tremeram e quase que caiu. “Que lindo! É assim que te vais mostrar aos teus doentes? Abre a pestana!”. Abraçou-o. “Correu bem? Saíste-me cá um totó!”

De mãos dadas atravessaram o edifício e pararam junto ao jardim. Ela sorriu. “Sabes o que me apetece? Repetir o jogo de ontem. Que me dizes? Alinhas?”

Beijou-o retirando-lhe o último fôlego e desarmando-o com os seus actos. “Não digas nada. Deixa-me ver-te.” E o olhar penetrou na sua alma dele, lendo-a tão profundamente que ele se sentiu quase a desfalecer. Caramba! Como a amava!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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