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O resto – Parte 1

Estava a arrumar a mala velha onde colocava, sem método, tudo o que precisava de ser arrumado. Quando tiver tempo, dizia invariavelmente. Ali estavam as memórias de uma vida, as testemunhas de tudo o que se tinha passado. Ele não gostava de deitar nada fora e aquela mala era muito especial.

Sentado numa cadeira, com a mala aberta, colocada em cima da mesa, voltava a olhar para o interior. Ainda não é hoje. Sabia que havia lixo mais do que suficiente, mas, para ele, eram pequenos tesouros e custava-lhe apartar-se deles.

Respirou fundo. Posso sempre pegar num monte e fazer a selecção. Agarrou num monte de papéis e colocou-os no colo. Teve uma sensação tão estranha! Pareciam emanar calor. Pegou neles e colocou-os na mesa. Nada. Tinha sido impressão sua.

Afastou a mala, para um canto, da mesa enorme que ocupava o centro da sala e estendeu as folhas que estavam ao lado. Torceu o nariz. Se calhar não era boa ideia, pensou um pouco indeciso. Havia trabalho para muito tempo e a tarefa avizinhava-se complicada. Não. Já tinha começado e ia levá-la até ao fim.

Num dos papéis estava rascunhado um desenho. Olhou muito sério e o seu olhar, automaticamente, parou naquele tempo. Estavam sentados, frente a frente a tentar estudar. Os exames estavam à porta e queriam sucesso na sua tarefa. Ela estava distraída, sem vontade, mas ele estava concentrado.

Ela tocou-lhe na mão, falou baixinho e disse: estou tão farta disto. Queres ir fumar um cigarro? Ele levantou os olhos e sorriu. Estava apaixonado por ela, desde o primeiro dia, mas sentia-se inseguro. Era um menino que estava em frente a uma mulher tão inteligente e radical. Ele seguia-a por todo o lado, parvamente, sem conseguir falar.

Levantaram-se e foram para o terraço. O fumo do cigarro dela subia no ar deixando-o ainda mais perturbado. Tinha decidido que ia abrir o jogo e dizer-lhe o que sentia por ela. Ali estava a oportunidade. Não a podia desperdiçar. Era o momento.

Tenho uma coisa para te dizer. Tens? Diz lá que temos que voltar para dentro. O que é que não percebeste? Sempre tão racional que o desarmava. Sabes? E a voz secou-se-lhe na garganta. Então? O gato comeu-te a língua? E ria a bandeiras despregadas! Ele baixou os olhos e assim ficou. Deixa. Não é nada, disse quase em surdina.

Voltaram ao estudo. Anatomia geral. Numa das páginas estava uma foto que o fez corar. És mesmo parvo! Que raio de médico é que vais ser se coras ao ver umas mamas? Olha para mim. Queres ver as minhas? Ia morrendo! Ela era espectacular! Tocou-lhe na mão. Aí é a mão. O que procuras é noutro local.

Sempre a desafiá-lo, a picar aquela cabeça que ficava toda desregulada quando a via. Será que ela não percebia ou estava a gozar com ele? Sentiu um calor tão forte que pensou que rebentava. Desculpa, tenho que ir à casa de banho.

Lavou a cara, mas não passava. Que doideira que sentia por ela. Tinha que lhe dizer caso contrário rebentava! Como? Não era capaz! Parvalhão! Estúpido! Tão esperto para umas coisas e tão atadinho para outras!

Alguém tinha entrado na casa de banho. Levantou os olhos e pelo espelho viu-a entrar. Ficou sem fala. Ela aproximou-se e abraçou-o. Sentiu o coração a saltar do peito. As mãos dela percorriam o seu corpo com sapiência e ele estava imóvel. O que se estava a passar?

O momento que se seguiu foi inimaginável, mas real. Num instante as calças estavam abertas e ela, à sua frente, qual deusa perfeita, tomava as rédeas da acção levando-o a um local que ainda não conhecia: o paraíso. Não a conseguia largar. Tinha sido apanhado de surpresa. Beijou-a e sentiu faíscas a saltarem.

Pára de corar! Faz-te um homem! Para a próxima será melhor. Percebeste o que são as mamas? E ele sem palavras e sem reacção. Anda que temos que estudar. Tenho que fazer tudo? Soltou uma gargalhada e saiu. Ele pensou que tinha sido um sonho.

Quando deu acordo de si voltou para a biblioteca. Ela estava a estudar. Ele sentou-se, à sua frente e ela sorriu. Então? Doeu muito? Tonto! Rasgou parte da folha do caderno, desenhou um coração e escreveu: I love you! Depois disse: nunca mais me dizias nada. Tenho que ser sempre eu!

O estudo foi retomado e tudo voltou ao normal. Bem, nem tudo, porque ele teve muita dificuldade em concentrar-se e em parar de sentir aquela sensação maravilhosa que não o largava. No dia seguinte era o exame.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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