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O Rescaldo

Há já alguns anos que sigo eleições e considero-me um daqueles freaks, ainda resistentes, que acompanha avidamente as noites eleitorais até ao fim, ouvindo tudo, mesmo quando as televisões já estão a repetir o que deram há nem uma hora. Já não é muito fácil um acto eleitoral surpreender, ou trazer grandes novidades, mas creio que, se olharmos atentamente para alguns factores, conseguimos sempre tirar algumas conclusões bastante interessantes. E estas eleições autárquicas não foram excepção:

1. O pré-Eleições é, sem dúvida, um período digno de destaque! De quatro em quatro anos, religiosamente, entre seis meses a um ano antes da data das eleições, os municípios, que até lá, muitas vezes, parecem verdadeiros desertos (não confundir com outras expressões de políticos, para já, reformados), tornam-se um rebuliço de movimento de máquinas. Começo a achar que realmente só existe verba para reparar passeios, tapar buracos nas estradas, substituir placas e sinais, fazer parques, escolas, etc., etc., etc, neste período maravilhoso pré-eleitoral. Se é isto que me surpreende? Não, de todo! O que me surpreende é como ainda tanta gente se deixa iludir.

2. O poder local é algo muito intrínseco a Portugal e à nossa organização administrativa. Considero mesmo que é um dos fortes pilares de construção deste rectângulo com mais de oito séculos de história e que fez com que as nossas fronteiras se mantivessem quase inalteradas numa grande parte deles. No entanto, parece ter-se perdido a sua base, principalmente nos centros urbanos. Os representantes já não estão junto da população, já não conhecem as suas realidades e, sejamos realistas, pouco trabalham para conseguir uma melhoria das condições da freguesia, ou da autarquia. Pelo contrário, estão fechados em gabinetes. Bem, há que ser sincero, é exactamente isso que a classe administrativa tem feito nas últimas dezenas de anos, portanto, também não é de admirar que a população tendencialmente tenha menor confiança em quem a governa.

3. Costuma-se dizer que só temos o que merecemos. Ligado ao ponto anterior, é inevitável referir que é tão verdade o que referi, como o facto de que a própria população não conhece os seus representantes, não conhece os seus programas eleitorais e também se interessa muito. Isto leva-me aos dois verdadeiros vencedores das eleições autárquicas: a abstenção e os independentes. A abstenção, já que, mais uma vez, a população mostra o quão desligada está do seu próprio caminho. Não considero que a abstenção seja protesto, pois protestar significa que eu fui lá e manifestei-me, nomeadamente através do voto em branco, mas não foi isso que aconteceu. O que se verificou foi mais uma vez um “deixa para lá”, “ganham sempre os mesmos” e outros que tais que podem ser traduzidos em “desresponsabilizo-me”. Os outros vencedores (as candidaturas independentes), com destaque para o Porto, mostram que realmente o poder local está relacionado com as pessoas e não com partidos, ainda que estes façam parte do sistema. Mostrou também que o próprio sistema autárquico tem a ganhar com estas candidaturas, pois são elas quem podem ajudar a recredibilizar o próprio funcionamento das instituições.

4. Em vez de pensarem em vencedores e vencidos, os partidos deveriam pensar em como chegar às populações, ouvi-las e agir, ainda que os meios sejam escassos e as dificuldades muitas. Se agissem desta forma, o dinheiro gasto em panfletos, cartazes e carrinhos que por aí andam com a mesma música que se ouvia há 30 anos, que se torna num bolo absurdo de despesa, poderia auxiliar o país a crescer e a desenvolver-se. Se os representantes chegassem próximo do povo, não precisariam disso para ganhar votos, precisavam apenas de se dar a conhecer, não só na semana de campanha, mas todos os dias, cumprindo o seu dever.

5. Uma nota muito importante para uma situação verdadeiramente vergonhosa. Confesso que, às vezes, questiono-me o que se passa na cabeça das pessoas. Oeiras é o concelho com mais licenciados e com uma das melhores condições de vida (ainda que, provavelmente, muitos desses não votem em Oeiras), mas foi capaz de colocar à frente da sua gestão alguém que está preso por corrupção! Perdão, correcção, colocou à frente alguém que está a agir sob a chancela desse outro alguém preso por corrupção. Como se isso não bastasse, um grupo de populares foi, no final da noite, celebrar junto do Instituto Prisional e ver Isaltino Morais a atirar jornais queimados pela janela da cela. Se um povo é capaz disto, não me admira muito o estado em que o País está.

6. Um ponto também importante– Alberto João Jardim, antes que fiques completamente como o Mário Soares, abre os olhos e sai pela porta grande, se ainda for possível.

7. Acima referi os grandes vencedores, mas confesso que esqueci-me de um: a estreia da Casa dos Segredos 4, com um número médio durante a emissão de mais de 1,7 milhões de eleitores!, perdão, de telespectadores, e com um pico máximo de mais de 2 milhões de telespectadores!

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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