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ContosCultura

O Relógio lá em cima

Não havia nada mais em que pensar. Era hora de agir. Tudo o que visualizava na mente não eram mais do que imagens fictícias produzidas por si próprio para se desculpar por não agir. Tinha que desaparecer por uns dias. Não justificar a sua ausência a quem quer que fosse. Negar compromissos mundanos que nem eram assim tão importantes. Nunca antes ousara desaparecer assim. Iria fazê-lo agora porque tinha uma razão para o fazer. Ela existia.

Ela existia, ele sempre o soube. Mas a cobardia sentimental prendia-o às suas rotinas. Negava expectativas para não se desiludir. Finalmente sentiu ser hora de se colocar sob um manto de coragem, desafiar-se ao conforto do que simplesmente já tem, e partir ao encontro dela. Ela estava longe mas qualquer distância era-lhe facilmente ultrapassável. Era-o porque ele tinha um segredo. E era algo tão simples que o aterrorizou por muito tempo. O segredo é que ele sabia quem ela para a sua vida.

Um par de horas passadas e já se sentia numa outra realidade. Deixou muito para trás mas tinha muito mais à sua frente. Andou por ruas que desconhecia e olhou para todo um mundo que antes só vira em páginas de livros e imagens de fundo do seu computador. Enquanto andava, olhava para cima e fixava por momentos o olhar no relógio. Controlava o tempo. Como que com ele brincando parava-o e recordava o que ali fazia. Cada vez que o fazia admirava-se por constatar o peso inacreditável que ela tinha na sua vida. De alguma estranha forma, cada decisão que tomara nos últimos tempos fora por ela influenciada, quando não por ela tomada. Sorria ao se aperceber como algo banal que ela por vezes lhe dizia, resultava invariavelmente em algo que o fazia crescer. Por vezes só mais tarde se apercebia disso, e sabia que ela não imaginava que lhe era omnipresente assim como o tempo que mesmo controlado não parava.

Tempo era agora o de lhe dizer quem ela era para si. Para quê esperar mais? Cada dia passado longe dela era cinzento e surgia como sendo o adiar de um dia pleno, luminoso, que sabia ser atingível. Esperar mais era deixar-se envelhecer ainda novo. Era desacreditar no sentimento subjacente à sua própria razão para se sentir vivo. Que outro motivo poderia haver quando ela era o ideal de beleza? O epíteto do que é ser mulher? O foco de toda a sua paixão?

Já nada o desarmava enquanto o tempo avançava e a hora aproximava-se. As pessoas corriam cegas à sua volta. Os táxis gritavam protestos. O trânsito começava a tornar as ruas violentas. O sol não gostava e escondia-se timidamente. A luz artificial empurrava-o agora e estava quase a chegar. A hora já espreitava por um canto do futuro próximo. De repente a descontracção do passear transformou-se numa actuação de rock num palco sem plateia. Os passos apressaram-se e tornaram-se irregulares, a respiração ofegante, as mão suadas. O seu olhar parecia não sair dos ponteiros do relógio lá em cima. As recordações dela e os sonhos de magia íntima transformaram-se em ansiedade. As hesitações soube pontapeá-las para longe. Parou numa esquina e comprou sorrisos dela. Quase em cima da hora prostrou-se no passeio em frente à porta de onde ela sairia confiante e cansada após lutas intensas com clientes, colegas e mandões. Qualquer travessia daquela porta era feita com o sentimento do dever cumprido e uma alegria interior por se exceder em deveres e expectativas. Cansada como em todos os fins de dia, saiu do elevador e caminhou para rua. Sentiu a brisa fria da noite que a fez encolher-se em si e sorriu quando olhou em frente. Incrédula nos seus olhos, confusa no que sentir, muda nas palavras. Recebeu as rosas com que ele a recebeu sem aviso e entregou-lhe o seu sorriso. O mais belo e genuíno sorriso. O relógio lá em cima marcava a hora deles.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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