Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
ContosCultura

O que nos liberta

Estávamos ali, bêbedos de vida.

As mãos pegam em copos para brindar. Conhecemo-las de cor. As mãos que nos seguram quando nos desequilibramos nas danças que vamos aprendendo. As mãos que nos esperam com velas quando nos sentamos nos cantos mais escuros de nós – quando precisamos de os conhecer, de os tocar, de os trepar. As mãos que nos consolam, que nos apertam de felicidade, que nos servem água, álcool, alento. Mãos com cicatrizes de luta, mãos expressivas de amor.

Estávamos ali. Paredes derrubadas, sujos de pecados, cheios de remendos.

Sem muros, entre nós há sempre janelas por onde saímos para subir aos telhados e cantar entre gargalhadas. Estamos imundos da batalha de viver sem fronteiras, mas, se olharmos para o lado e nos soubermos juntos, entendemos que está tudo bem e arreganhamos os dentes para continuar. Temos remendos emocionais cosidos com abraços: já estivemos destruídos vezes suficientes para aprender que o abraço é o primeiro gesto que consegue voltar a unir todas as peças.

Estávamos ali, no limite da alma de cada um, e sabíamos que podíamos entrar.

Olhamo-nos com brilho. Um olhar que é um abrigo. Um olhar que é o aconchego de abrir a porta de casa depois de um dia frio e sentir o cheiro do calor. Um olhar que é família. Deixamos pedaços de nós nos outros para termos sempre outras almas a que voltar, outros corações que nos dão mais horizonte do que o que soubemos ver, outros olhares que nos relembram que existe magia quando a dúvida insiste.

Estamos ali, sem vidros nem espelhos nem fumo, tão nus que temos o peito escancarado. Abre-se uma jaula que costumava prender tudo o que podíamos vir a ser e algo inatingível foge, alforriado. Rodopiamos livres pela noite com a respiração ofegante e eufórica. Damos gargalhadas que extinguem as inquietações, ridículos e sem medo de quem somos. Somos mais. Somos contraditórios. Só podemos ser completos.

Tags

Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

One Comment

  1. Amizades que curam o que parece ser incurável, que sentem a dor e a alegria do momento. Amizades que são um pedaço de nós mesmos. Um brinde a eles ❤ Obrigada pela inspiração que me dás todos os dias com os teus contos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: