Bem-EstarLifestyle

O que é ser jovem?

Há um bom par de anos, ser jovem poderia significar saltar à fogueira, andar à pendura do elétrico, ir tocar na campainha dos amigos, gritar pelo nome deles até virem à janela. Ser jovem era jogar à bola na rua, chegar a casa completamente suados, sujos, com sorriso de orelha a orelha pelos pedaços de bons momentos vividos. Ser jovens era juntarmo-nos todos depois do jantar em grandes tertúlias e brincadeiras fosse na rua ou em casa de alguém.  Era jogar ao berlinde, era jogar às escondidas, era jogar à apanhada. Era ainda o início dos primeiros jogos do Comodore Amiga, do Spectrum 48k e 128k, das primeiras consolas que iam aparecendo, como a MegaDrive, Sega Saturno, entre outras.

Os tempos eram outros, sem dúvida, assim como os tempos eram outros para os nossos pais ou avós. Os homens, esses, faziam-se tanto como se fazem hoje. O acesso a informação era deveras bem mais limitado do que aquele que existe hoje em dia. Hoje moramos à escala global, nessa gigantesca rede de acesso a informação que temos ao nosso dispor.

Ser jovem hoje em dia não deve ser subentendido, com a denominação de alguém mais limitado na arte de se dar, na arte de uma interação que já não se compadece com tempos de outrora. Não deve, mas ainda assim muitas vezes é.

Afinal que grandes diferenças existem entre o ser jovem ontem e ser jovem hoje? Ontem eu tocava à porta para chamar um amigo, para saber como ele estava, se podia sair, se podia ou desejava intensificar a sua vida, com pura vivência, com o sentido necessário que requer a dedução não do que é ser jovem, mas das cores e sabores intensos que personificavam o pulsar da vida.  Hoje envia-se uma mensagem de Whatsapp ou Messenger, de forma rápida e certeira para convidar um amigo, para partilhar uma história rápida, para combinar um encontro, para terminar um namoro, para uma informação momentânea. Hoje vive-se vivendo-se o que ontem se vivia sentindo-se.

Ontem eu partilhava jogos de apanhada e esconde-esconde, jogos de tabuleiro, entre tantos outros. Entre família, amigos, conhecidos. A utilização destas novas tecnologias ao dispor de miúdos e graúdos, mas principalmente dos jovens veio, trazer uma outra forma de interação. Ontem eu ouvia U2, Radiohead, Scorpions, Queens, entre tantos outros. Hoje as bandas são outras, os sons passam por ter uma sonoridade diferente. O que já por si é natural, pela própria evolução também da música em vários sentidos. Será que somos nós a ficar velhos demais e eles ausentes de uma realidade que já não condiz com os mesmos?

Ontem eu ficava feliz com um livro, com uma peça de roupa nova, com uma mesada de final de semana, na ansiedade de poder sair, para uma matiné, uma discoteca (saudades das eternas tardes no 2001 no Estoril). Hoje eles travam-se de lutas por aquele que tem o melhor smartphone, a roupa de marca, a melhor música de kisomba. Ontem as aulas eram suportáveis. Hoje elas tornaram-se insustentáveis. Horas e horas numa sala de aula, intervalos rápidos de 10 minutos, onde os mesmos se perdem rapidamente na interação com as suas tecnologias, com as suas mensagens, com as selfies de uns e outros. E onde nunca ou raramente se encontram na sua condição humana que não seja a classificada como robotizada. Não se culpem na verdade os mesmos. Não existe uma culpa formal a apontar ao jovem.

Existe sim uma culpa formal a apontar às sociedades que de repente se viram expostas a uma explosão tecnológica ao que os pais aderiram pensando tratar-se de formas de babysiting mais confortáveis para os seus filhos. Trocaram-se jantares, almoços, tardes em família, por jogos online, por horas e horas passadas entre likes e não likes.

Há de certa forma uma pobreza interior de verdadeira capacidade de interação que não os conecta à aldeia global de interação verdadeiramente humana. E não nos podemos dissociar, apesar da riqueza tecnológica ao dispor, da facilidade com que entre uns e outros  se vão criando coneções que nem sempre são e padecem da realidade que se deseja. Vive-se na verdade nesta aldeia global com um sentido de ilusão que pode ser tremendamente dececionante.

Ter ao dispor a rapidez de um app, de uma tecla, de um emoji, de esta nova forma de trabalhar seres humanos é também ridicularizar a arte de educar, ainda que se deduza que com tamanha informação tão intensa, a mesma ainda se revela como uma faca de dois gumes. A tecnologia de informação substituiu muitos pais. Telemóveis, ipads, entre outros funcionam hoje como como janelas abertas de extrema informação e diversificada que tanto podem conduzir ao sucesso como a tremendos erros de laboratório.

Ser jovem hoje em dia é estar atento ao mundo global do qual fazem e fazemos todos parte, como é também aprender a estruturar a arte de robotizar e a arte de humanizar. Uma e outra podem perfeitamente evoluir cada vez mais rumo ao sucesso. Rumo ao desenvolvimento de cada um. No entanto, para isso, para que este mundo tecnológico que abarca cada vez mais jovens, é necessário um fio condutor que sirva de pleno equilíbrio na manutenção do ser humano. Aquele ser humano que se desenvolve na base de pressupostos morais, aquele ser humano que vibra com a intensidade de ser para sentir, de auscultar o mundo ao seu redor, de estruturar a condição de acompanhamento das sociedades tendo como ponto de partida o conceito de família, de união, de partilha humana.

Que ninguém  corra o risco de desaprender a arte do que é sentir-se vivo.

Show More

Bruno Fernandes

Nascido a 29 de Dezembro de 1975, natural de Lisboa, Bruno Fernandes, bloggler ativo há já alguns anos, dedica-se essencialmente à luta pela mudança interior e novas formas de entender o ser humano através da sua experiência de vida. Cinéfilo ativo e leitor assíduo.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: