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O que é isso do bom e barato?

Amigos e conhecidos perguntam-me insistentemente acerca de vinhos bons e baratos. Tenho sempre muitíssima dificuldade em dizer, porque bom e barato são ambos relativos. Por várias razões: porque se confunde comummente caro com “volume” de dinheiro, porque o bom e mau é compreensivelmente confundível com gosto pessoal, porque as algibeiras são diferentes, porque as disponibilidades mentais para gastar uma soma variam, porque a dimensão do prazer que se pode retirar dum vinho, ou de outra coisa, é individual.

Em 2013, visitei a fábrica da Bentley, em Crewe, entre Manchester e Liverpool. Saí de lá com vontade de ter um. Tudo se pode, desde que um comprador anterior tenha pago o exclusivo por uma cor – há 155 base à escolha, mas criam novas a pedido – ou dum padrão de lacado, etc.Um Bentley não tem preço, pois depende da personalização. O topo de gama de “série” é o Mulsanne, um carrito de 3,2 toneladas, que se guia melhor do que um Smart. Perguntei o preço e o Sir embaixador da marca falou-me em 410.000 euros. Um valor convertido directamente de libras esterlinas, sem qualquer adaptação a Portugal. Tentei e não consegui apurar quanto podia esta banheira – piscina – custar em Portugal, sendo que seria mais, ou muito mais.

Partindo dos 410.000 euros, comprar um Bentley Mulsanne, com quilometragem insignificante, por 300.000 euros é caro, ou barato? A questão talvez não esteja no valor do automóvel, mas na disponibilidade financeira para o guardar e sustentar.

Quanto a mim, a equação do bom e barato é absolutamente pessoal e deriva das questões colocadas no primeiro parágrafo. Ainda assim, podem sempre dar-se algumas indicações. Todavia, uma questão prévia: Quanto queres gastar?

Se me dizem dois, três, ou quatro euros, respondo que desconheço algum vinho que a esse preço possa ter “qualidade”. Antes dos cinco euros, nem comento. Acrescento que 80% do vinho vendido em Portugal fica-se pelos três euros. Até aos cinco são 90%. Estes preços são indicativos, embora distorcidos, pois contabilizam vinho de pacote Tetra Pak, usados normalmente para tempero. Ainda assim, não deverá ir muito além dos cinco euros.

A gama média-baixa pode colocar-se nos oito euros – há tabelas que fixam estas “prateleiras” de preço, mas cito em abstracto. Para a maioria, oito euros é mais do que têm no bolso, ou do que pensam ser justo pagar.Os portugueses têm a mania que percebem de vinho. Um fundamento assente no facto de toda a vida terem convivido com este produto alimentar e terem um parente que faz, ou fazia, vinho.

Ora, a escolha do vinho pelo lado direito da lista pode ser feita de cima para baixo como de baixo para cima. Um tuga janta com um amigo e escolhe o mais barato, de baixo para cima. Se for para brindar com a nova namorada, escolhe de cima para baixo. O mesmo se aplica ao agradecimento ao médico que operou o pai, o que se leva à apresentação ao futuro sogro – escrevo no masculino, porque a regra, se existe, julgo que é coisa de homens, embora não encontre qualquer razão racional que o justifique, mas posso, muito bem, estar errado.

Mais certo do que a sabedoria de vinho é o valor percepcionado. O vinho faz parte de Portugal, pelo que já referi, e, embora o elogiemos muito, o facto é que lhe damos muito pouco valor. Sim, refiro-me aos cinco euros. A algibeira só por si não explica. Vejamos:

  1. Uma água sem gás, de marca, custa à volta de 1,30 euros, numa grande superfície. Uma água engarrafadaBB_oqueeissodobomebarato_1 implica uma fonte, cuja concessão é paga, análises regulares, linha de engarrafamento, linha de embalamento e transporte, energia… Somam-se custos com pessoal, impostos, Segurança Social… Um vinho implica podas, monda ou mondas, tratamentos fitossanitários da vinha, consultoria de engenheiro agrónomo, enólogo (residente ou enólogo consultor ou os dois, adegueiro, material de enologia, depósitos (inox e/ou barricas e/ou cimento, etc.), análises regulares, linha de enchimento (pode ser alugada), linha de embalamento, transporte, energia, presença em feiras, despesas de avião, deslocações regulares a clientes, certificação de origem (paga à unidade). É certo que um produtor médio emprega menos gente, mas todos os restantes encargos burocráticos são idênticos. Se não me esqueci de nada. Não contabilizando o valor do activo terra, porque, regra geral, é herdada e não entra nas contas, mas se foi comprada ou arrendada é mais uma linha a somar.
  2. Veja-se outro exemplo, o café. O café é produzido em países de mão-de-obra barata, muitas vezes sem qualquer protecção social e com baixos impostos. Há, com certeza, tratamentos a fazer. Já quanto ao embalamento é rápido, fácil e barato: sacas. Vai mais ou menos a monte para um porto de expedição, é desembarcado, BB_oqueeissodobomebarato_2torrefactado (julgo que existe a palavra, se não, a certa é torrado), embalado e expedido. Uma bica ou cimbalino custa ao senhor do café à volta de 12 cêntimos, na categoria superior. Na melhor das hipóteses, é vendido a 50 cêntimos. Pense-se nos «normais» 60 cêntimos, meça-se a quantidade servida e realize-se uma conta de três-simples com os habituais 0,75 litros… O vinho, ao preço do café, custa 15 euros.

Não vou criar uma carta com os vinhos que considero apresentar uma boa relação entre a qualidade e o preço. Ou seria exaustiva ou seria injusta, além do que já expliquei acima. Cito um caso concreto, anonimamente. O vinho topo de gama, dum dos melhores vitivinicultores portugueses, custa em garrafeira entre os 65 e os 70 euros. A segunda marca encontra-se entre os dez e os doze euros. É um vinho da chamada gama média, com uma qualidade superior a muitos de 20 e mais euros.Quando disse, a esse produtor, que se existe um vinho com boa relação entre a qualidade e o preço, respondeu-me: “Toda a gente me diz isso. Há alguma coisa errada; ou o vinho ou o preço”.

O local de escolha é outro factor a ter em conta. As grandes superfícies vendem as marcas de grande reconhecimento por parte do público. Nem sempre é justo, mas é assim, negócio, preço, espaço de exposição e rotação de produto. Há mais vinhos, tão bons ou melhores e a preço cordato, mas os hiper não vendem. Só tenho a dizer uma coisa: não compro livros, nem pijamas numa grande superfície, compro em lojas da especialidade.

Remato com os dizeres que vi num cafezinho que frequentei: “Bom e barato não é fácil.Barato e fácil não é bom.Bom e fácil não é barato”.

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João Barbosa

Comecei no Diário Económico em 1990 e isso só é importante porque me apaixonei pela profissão e porque aprendi a escrever – a explicação seria longa.

Informar que escrevi um livro sobre vinho (Grande Reserva – Oficina do Livro) não diz nada acerca de quem sou. Revelar que sou co-autor de um programa de história na televisão (Estórias da História – RTP 2) já soma qualquer coisa. Para se ter um retrato mais próximo digo que vejo o vinho como quem bebe cinema. Interessa-me a alma das artes, os fundamentos das coisas, as explicações dos factos e os resultados finais.

Olha-se para o meu perfil e vê-se um vampiro, com o rosto do actor Max Schreck. Porquê? Não porque o vinho é o sangue de Cristo, bebida sagrada dos judeus e promessa celestial dos muçulmanos. É um vampiro porque sou trágico e romântico.

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