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O que é Gotham sem um Batman?

Se procuras uma série policial bem produzida, que tenha como pano de fundo um mundo parecido com o de Blade Runner, mas com mais corrupção à mistura, Gotham é a resposta à tua procura. Criada por Bruno Heller, o pai de The Mentalist, esta série é, com toda a certeza, um dos programas de televisão com mais cuidado a nível fotográfico que está no ar actualmente, com as imagens da cidade a serem quase tão boas como as que são apresentadas no cinema.

É demasiado simplista, conveniente e, sendo muito sincero, demasiado injusto afirmar que a estreante Gotham poderá enfrentar os mesmos problemas que a retornada Agents of SHIELD teve no seu ano de estreia. Contudo, ambas estão a ser usadas como exemplo de séries que estão a desenvolver-se sem incorporarem o ingrediente que as audiências tanto querem. No que toca a Agents of SHIELD, a premissa anda à volta dos agentes da organização secreta que dá nome à série e não dos super-heróis que chamaram a atenção para este universo da banda desenhada. Em Gotham, a história desenvolve-se no universo de Batman, mas sem a presença do Cavaleiro Negro.

Apesar disto ser tecnicamente verdade, existe uma grande diferença entre ambas as séries. A primeira passou muitos episódios a tentar encontrar o seu lugar, sendo que só após o filme Captain America: The Winter Soldier é que conseguiu estabelecer uma premissa interessante e criar uma ligação entre os espectadores e os seus personagens. Gotham, por outro lado, chega aos nossos ecrãs como uma entidade solta de comparações com o universo cinematográfico, já que ocorre num local e num tempo diferentes daquele em que os filmes ocorrem, e com um estilo visual muito próprio e cativante. Ao que se deve juntar o facto de que é descrita como sendo “uma história de origens”, que nos irá permitir ver o Batman enquanto criança traumatizada pela morte brutal dos seus pais e os caminhos que levaram à criação de muitas das personagens mais amadas deste universo, como a Catwoman, o Penguin, o Riddler, o Joker, a Poison Ivy e o Two-Faces.

Ou seja, não existem cenas de acção com super-heróis, tal como os filmes estabeleceram no nosso imaginário, mas sem os quais esta série não existiria. A saga começa com uma reinterpretação da morte dos pais de Bruce Wayne e toca em mais alguns aspectos da mitologia da DC Comics, mas, sem contar com estas questões, este enredo desenvolve-se num mundo o mais real possível. Os polícias e os vilões vestem-se com alguma extravagância, mas ninguém anda mascarado a combater o crime. Se não existissem referências directas e explícitas ao facto de que determinadas personagens se irão transformar em determinados vilões, esta poderia ser uma série policial passada num passado indeterminado. Os seus melhores momentos acontecem, quando as cenas são centradas nas interpretações dos actores, mas está sempre presente uma sensação de excesso de confiança por parte dos criadores, ao pensarem que iremos ver qualquer desenvolvimento, se as personagens envolvidas tiverem os mesmos nomes que as personagens da banda desenhada.

Criador, argumentista e produtor executivo, Bruno Heller merece grande parte do mérito pela criação de uma mitologia própria baseada nas histórias que os comics construíram e que abraça, sem qualquer pudor, um mundo sem a existência da Batman. Deixar a cidade ficcional de Gotham arrastar-se diariamente em caos, enquanto as forças do bem lutam para salvá-la, sem terem um milagre a quem possam recorrer constantemente, permite desenvolver vários ângulos narrativos que, sendo bem desenvolvidos, podem criar várias situações inebriantes. Esta é a grande premissa da série, na forma como se combate o crime de elevado nível, num mundo sem super-heróis, em que só existem comuns mortais para tratar destas questões. É tanto sobre esperança e a luta em que os personagens estão envolvidos, como sobre a espera por um salvador. É sobre homens e mulheres e não sobre super-heróis. É isto que me atrai mais na história apresentada até agora.

Sem um Batman alimentado pela necessidade de justiça e de vingança, Gotham centra a sua atenção no novato detective James Gordon, que tem como parceiro o detective veterano Harvey Bullock, que aprendeu a sobreviver nesta cidade repleta de perigos ao estar um pouco (vá, muito) próximo do crime organizado. Os dois acabam por ser o duo perfeito para a série. Ben McKenzie consegue transmitir aquela energia ansiosa de um detective ainda inexperiente, passando, ao mesmo tempo, a mensagem clara de que Gordon não irá deixar que a mais pequena infracção passe despercebida. Um contraponto interessante ao historial de corrupção em que Bullock se envolveu, na tentativa de conseguir um pouco de justiça, apesar de deixar as forças do crime continuarem a crescer sem qualquer objecção. Donal Logue impregna o seu personagem com uma dualidade hipnotizante, tendo tanto um lado obscuro, como um lado simpatizante. Algo que contrabalança na perfeição a noção de vida a preto e branco de Gordon.

Para além destes dois actores, a série conta também com Jada Pinkett Smith no papel da chefe do crime organizado Fish Mooney, Robin Lord Taylor como Oswald Cobblepot (o futuro Penguin) e Sean Pertwee a ser o protector mordomo Alfred. Todos eles roubam a nossa atenção sempre que aparecem em cena. Do lado do elenco infantil, é possível ver David Mazouz no papel de Bruce Wayne, Camren Bicondova como Selina Kyle (ou a futura Catwoman), Cory Michael Smith a ser Edward Nygma (o Riddler) e Clare Foley a desempenhar o papel de Ivy Pepper (que se irá tornar na Poison Ivy). Porém, à medida que os episódios forem passando e alguns arcos narrativos vão sendo fechados, de certeza que muitos mais personagens da banda desenhada irão emergir.

Aliás, “emergir” é a palavra-chave nesta série, porque tudo o que sabemos sobre a mitologia do Batman ainda está por acontecer e, portanto, os produtores têm muitos caminhos para explorar. Seguir o novato detective Gordon à medida que este enfrenta a realidade criminal da sua cidade e, em simultâneo, compreender o que fez com que personagens como a Catwoman se tornem em criminosos é algo bastante interessante de acompanhar. É uma viagem diferente da habitual e é isso que a torna numa série a acompanhar.

Até à sua pausa para a época festiva, Gotham tem sabido demonstrar a sua originalidade e tem sabido entreter, dando-me a esperança de que se consiga estabelecer por si própria, sem ser apenas uma história sobre a origem do Batman, mas sem o Batman.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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