LifestyleModa

O que é a beleza?

“A existência estética é essencialmente divertimento e amor à novidade. A fantasia predomina sobre a razão e a vontade. Guiado pela fantasia, o homem estético abraça as riquezas, as honras e os prazeres.”

“Um objecto é belo ou feio em virtude de sentirmos prazer ou desprazer ao observá-lo. A beleza ou fealdade dependem, não das propriedades intrínsecas do objecto, mas dos sentimentos que em nós provoca e desperta.”

Estas são algumas definições que encontramos quando se fala de beleza. O tema tem sido tratado por filósofos de modo delicado e profundo. Viver num mundo sem beleza seria um suplício, mas a própria noção suscita tantas opiniões que são, no mínimo, polémicas e divergentes. Contudo, a paixão que o envolve permite viajar pelo tempo e analisar este conceito tão interessante. O termo fica logo ligado ao lado feminino do mundo e não mais se dissocia.

Na Pré-História, as deusas mãe eram pequenas estátuas que podiam ser transportadas com facilidade e tinham uma função específica. As suas formas generosas significavam fertilidade e abundância. Esta beleza era útil e sobretudo perpetuada através das gerações. Uma mulher tinha um grande peso numa tribo. Era um bem muito valioso.

No Egipto, temos o exemplo de Cleópatra, a excepcional mulher que o governou com pulso de ferro e enfrentou os seus inimigos de frente, cheia de subtileza e inteligência. É descrita como uma mulher de beleza rara, atraente e que suscitava uma química sexual muito forte. Chegam-nos dicas de tratamentos que usava para se manter jovem e bela: banhos em leite de burra, baba de caracol para manter a pele brilhante e alimentação muito particular. Do seu cabelo original pouco se sabe uma vez que havia o hábito de o tirar completamente. A causa era a praga de piolhos que prevaleceu durante anos. Contudo as cabeleiras tinham um efeito milagroso.

Teresa, mãe de Afonso Henriques é-nos apresentada como uma rapariga particularmente sexy: ruiva de olhos verdes, corpo desafiante e carácter determinado. A sua vida sexual foi espiolhada ao pormenor já que se tornou um exemplo de libertação sexual naqueles tempos de obscurantismo. Este mesmo corpo devia-se ao facto de ser uma guerreira, o que significa que o exercício físico era prática corrente. A sua beleza acabou por ser uma arma que soube usar com muito mestria e perícia.

Isabel de Aragão, a Rainha Santa era detentora de uma figura ímpar para os seus tempos. Alta, mais de 1,70m, magra e delicada, não se danificou com os partos e manteve a silhueta até à morte. A acrescer ao aspecto físico temos a considerar a sua inteligência e os seus conhecimentos de medicina, arquitectura e engenharia. Soube mover-se em todos os meios, mas o aspecto estético nunca foi referido. Estratega e culta, soube contornar os obstáculos e vencer. O epíteto de santa está relacionado com o facto do seu corpo não ter envelhecido.

Filipa de Lencastre foi considerada feia por ter os olhos e os cabelos claros. Apesar de ser um território onde existiam morenas, as louras não eram bem vistas. Como os tempos mudaram. Curiosamente esta mulher foi a mentora dos Descobrimentos, a mulher que “obrigou” todos os nobres a saberem ler e escrever, a usar a inteligência aliada ao manejo das armas. Inicialmente foi mal-aceite pelo povo devido ao seu aspecto demasiado pálido. Numa época de crenças e de feitiçarias, ela representava o diferente, o assustador e o desconhecido. Não o belo. A sua marca é indiscutível.

Maria Antonieta representa o ideal de beleza do seu tempo. Mulher que passa horas, com as suas aias, a cuidar de si, a esmerar-se para ser exibida e invejada, quer por homens, quer por mulheres. O rosto demasiado empoado, as cabeleiras e os vestidos com saias rodadas por arames, não permitiam que se pudesse ver aquilo que realmente era. Tempos de falsidade moral e física. No fundo foi uma escrava da sociedade que exultava o belo, o espampanante e o inútil.

Twiggy, símbolo dos anos 60, representa a beleza moderna. Extremamente magra, de pernas anoréticas e aspecto doente, foi o modelo de milhares de mulheres que colocaram a saúde em risco para serem consideradas atraentes e apetecíveis. É toda uma cultura de manipulação sexual da mulher, da sua submissão e, o mais grave, da sua aceitação. Quem se sujeita a estes martírios é porque se quer integrar. É a época das mini-saiais, das pernas à mostra e do corpo desnudo, mas tapado. Parece incoerente, mas não é. Saias curtas, shorts e casacos muito compridos. Anos 60.

Esta ditadura da magreza e da falta de racionalidade tem sido mantida até aos nossos dias. Não é inocente, com toda a certeza. Dinheiro, sempre dinheiro, move o mundo. Empresas que vendem pílulas milagrosas que tornam magros os gordos, os sedentários, dietas que rebentam com o corpo e com o cérebro, aparelhos que fazem milagres e um sem fim de disparates idênticos. Parece o regresso à Idade das Trevas, à prática da bruxaria e das poções mágicas.

Por outro lado, cultiva-se o corpo. Este culto não é no sentido que os Gregos incitaram, mente sã em corpo são, mas sim a exibição de uns músculos falsos, aditivados, sabe-se lá com o quê, mas que fazem inveja a muitos. Um homem pode ter um corpo disforme, dividido em dois, em que a parte inferior seja ridícula e a superior exagerada, que é idolatrado. Um Popeye!

Uma mulher deve ser harmoniosa. Nada de gorduras, nada de músculos a serem notados, nada fora do sítio. Para desfilar na passerelle tem de ser anorética, presa por arames e morta de fome. Isso sim, é um must! São corpos manipulados e não reais. Uma mulher para ser bela tem de ser saudável e sentir-se bem consigo própria. Acima de tudo tem de gostar de si e ter uma boa auto-estima. Ser mulher é assumir-se como tal, é sentir-se bem na sua pele, é viver em pleno.

Deixemo-nos de parvoíces. Ser modelo é uma profissão de desgaste rápido. A juventude desaparece, a “fama” é efémera e a saúde pode danificar-se. Há que pensar em grande, em termos de futuro e manter a única variante que não se altera nesta equação: a saúde. Olhando para uma revista, que continua a moldar as mentes pequenas e ridículas, o que se vê são personagens e não pessoas verdadeiras. Elas são todas jovens e deslumbrantes. Mas um dia vão deixar de o seu. E depois?

O tempo é agora e o amanhã é esquecido. Que lhes acontecerá? Serão lembradas? Querem sê-lo? A visão machista da sociedade continua a imperar e está longe o dia em que desapareça. Viver o momento é a adrenalina dos nossos dias, a droga que move montanhas e que também as faz cair. O corpo é somente uma ferramenta, mas o que lá está dentro não conta? Daí se associar o louro às mulheres burras, a beleza à estupidez e a falta de juízo às cidadãs.

Uma sociedade justa não é aquela que faz a apologia da utopia, é a que promove boas práticas para todos os seus membros. Não deve, de modo algum fomentar ideias erradas e muito menos promovê-las. Mas não acontece assim. Voltamos ao dinheiro, o vil mago que manipula tudo e todos e que arrasta multidões. Se todos fossem saudáveis, tivessem hábitos correctos, como seria possível impingir banhas da cobra que resultam em felicidade temporária?

Haverá um ideal de beleza ou somos, novamente, meras marionetas numa sociedade em que nos robotizamos porque torna a nossa vida mais simples? Porque se insiste em ocultar aquilo que nos torna únicos, as particularidades, as imperfeições, o nosso carisma? Que diferença faz uns quilos ou uns pêlos? Em que altera aquilo que cada pessoa é? Penso que é boa altura para se reflectir sobre o que realmente é importante. É tudo uma questão de valores, ou ausência deles.

Tags
Show More

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Check Also

Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: