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HistóriaSociedade

O que Aprendemos com a Primeira Guerra Mundial?

G. Wells chamou-lhe “a Guerra para terminar com todas as Guerras”, algo que não veio a acontecer. Woodrow Wilson disse que esta guerra iria “tornar o mundo mais seguro para a democracia”, o que não se tornou realidade. E o que Wells chamou de “Mesquinha Paz que se seguiu” não conseguiu trazer uma nova ordem mundial que fosse capaz de preservar a paz. A Primeira Grande Guerra, que comemorou em 2014 os 100 anos do seu início, terminou à 11ª hora do 11º dia do 11º mês de 1918 e foi o evento geopolítico mais destrutivo do século XX.

O mundo, actualmente, também tem o seu conjunto de problemas, conflitos e crises, com várias tentativas de resolução a serem tentadas em vários pontos do globo. As conversações para terminar com a guerra na Síria não têm demonstrado resultados alguns e as tentativas de exterminar o programa nuclear do Irão também não têm seguido um caminho favorável. Vivemos tempos em que a diplomacia tem um papel activo, mas não é necessariamente efectiva. Existe muito para aprender, se estudarmos a história da Primeira Guerra Mundial, já que muitas das questões internacionais que vivemos hoje em dia são consequência das acções tomadas (e não tomadas) depois dessa fatídica 11ª hora, que terminou com a Grande Guerra que decorreu de 1914 a 1918.

O que teria acontecido, se a Conferência de Paz de Paris que se seguiu à guerra tivesse lidado com o que sobrou do Império Otomano deforma diferente, não dando a Síria aos franceses e a Palestina aos britânicos? O que teria acontecido, se o Sionismo e o nacionalismo árabe tivessem sido tratados de forma diferente, antes de se tornarem num problema à escala planetária? O que teria acontecido, se a Grã-Bretanha e a Rússia não tivessem dividido o Irão em duas esférias ideológicas diferentes? E o que teria acontecido se os povos colonizados em África e na Ásia tivessem começado os seus processos de independência em 1919, em vez de continuarem, durante grande parte do século XX, presos ao colonialismo e a várias guerras pela liberdade?

Como a historiadora Margaret MacMillian disse, a Primeira Guerra Mundial “derrubou governos, tornou humildes os poderosos e virou de pernas para o ar sociedade inteiras. Na Rússia, as revoluções de 1917 substituíram o Czarismo com algo que ninguém conhecia. No fim da guerra, a Áustria-Hungria tinha desaparecido, deixando um vazio no centro da Europa. O Império Otomano, com as suas várias colónias no Médio Oriente e algumas influências na Europa, ficou desmembrado. A Alemanha imperial tornou-se numa República. Velhas nações, como a Polónia, a Lituânia, a Estónia e a Letónia, sobreviveram aos combates e novas nações, como a Jugoslávia e a Checoslováquia, lutaram para ganhar o seu direito a nascerem.” O poder económico abandonou o velho continente e mudou-se para o outro lado do Atlântico, para os Estados Unidos da América.

A Segunda Guerra Mundial pode ter revelado uma maldade superior, morto mais pessoas e ter causado mais devastação em mais territórios, mas, com algumas excepções, as fronteiras nacionais mantiveram-se as mesmas, quando terminou. Os Aliados tiveram a preocupação de fazer com que os perdedores fossem capazes de recuperar a sua saúde económica, em vez de imporem condições incapacitantes, como havia sido feito na Grande Guerra. Contrariamente a esta situação, a Primeira Guerra Mundial terminou com reis e impérios antigos e desafiou as fundações da civilização do Ocidente.

Então, o que aprendemos com a Primeira Guerra Mundial?

Nas semanas que antecederam a declaração de guerra britânica, em Agosto de 1914, os exércitos das potências europeias começaram a colocar-se nas fronteiras com os seus vizinhos mais próximos, num complexo jogo de paciência. Alianças e tratados foram desafiados, graves insultos foram disparados, até que chegou a terrível decisão. O Times of London pautou a declaração de guerra com a gravidade que merecia: “a Europa está a preparar-se para ser o cenário da pior guerra que já viu, desde a queda do Império Romano. As vidas que se irão perder e a riqueza de séculos que irá desaparecer que este confronto de egos irá envolver é demasiado assustador para se conseguir pensar correctamente.”

As mortes que resultaram de quatro anos de confrontos ainda são demasiado assustadores para serem contemplados. Mais de 8.5 milhões de soldados morreram e a morte de civis foi ainda maior. O número de feridos é duas vezes esse número. Muitas gerações depois, as cicatrizes físicas e psicológicas ainda estão vivas. A guerra que muitos achavam que ia terminar com todas as guerras evoluiu de tal forma que se tornou numa das maiores tragédias da humanidade. Conseguiu resolver alguns problemas e abriu muitas mais.

O que é que se pode aprender com esta carnificina? O que é que os países podem ganhar como nações? Porque é que este ano se comemorou o início da guerra e não se esperou pela comemoração do seu fim, que é algo bem mais merecedor? Acredito que se devem comemorar as duas datas. A Paz é algo que deve ser claramente celebrada e a assinatura de tratados de paz é algo que deve ser honrado, mas o aniversário do início de uma guerra deve desafiar-nos a considerar profundamente as motivações e os raciocínios que estiveram na sua base. É uma oportunidade de nos perguntarmos sobre as razões que nos levam a iniciarmos guerras e sobre as formas como podemos evitá-las.

É também uma excelente oportunidade para constatar o longo caminho que as relações internacionais já percorreram, desde então, principalmente no que toca à exortação das nações para o desarmamento. Algo que ocorre através de negociações trilaterais, ou com base em pressões realizadas nas Nações Unidas. A comunidade mundial também desenvolveu várias leis e convenções internacionais para ajudar a proteger os civis em cenários de guerra e para impedir qualquer tipo de abuso por parte de soldados. Existem regras de conduta no que toca ao comportamento militar e existem precedentes que ajudam a constituir o que é considerado de crime de guerra.

Porém, as nações continuam a criar guerras e as convenções, assim como as regras, são sempre subvertidas. Israel continua a bombardear Gaza e o Hamas continua a enviar rockets para Israel. A Rússia invadiu a Península da Crimeia, que pertencia à Ucrânia. O Sudão do Norte continua em guerra com o Sudão do Sul.

Há 100 anos, a revista The Age afirmou que a causa da Grã-Bretanha era justa: “Quando a História das últimas quatro semanas for escrita numa correcta perspectiva, os historiadores de todas as nações irão confessar que a Inglaterra trabalhou com honestidade e com todo o coração até ao último momento possível para manter a paz e que manteve a sua espada guardada até que não foi mais possível.” Será que somos capazes de um comportamento melhor hoje em dia? Será que compreendemos realmente o que nos move e o que move os nossos possíveis adversários, de forma a conseguirmos impedir que a espada seja embainhada? Estas são as questões que, 100 anos depois, devem estar no centro da nossa reflexão.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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