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O primeiro domingo do resto das nossas vidas

Sabia que os ia desiludir. Sabia-o, mas não podia voltar atrás e nem conseguia pensar na única solução que tinha para não os desiludir. Recusava-se. Por isso, tinha de fechar os olhos e evitar que a coragem fugisse pela respiração. Tinha de o fazer, pensava. Olhava para o prato, brincava com o arroz de pato e evitava comer. A avó pedia à cozinheira que fizesse sempre aquele arroz de pato para o almoço familiar mensal. A família adorava o arroz de pato da Dona Chica, especialmente ela e o irmão. Mas naquele momento achava que ia vomitar de tanta ansiedade. Sentia um nó na garganta só de imaginar os olhos tristes da sua família.

O namorado apertou-lhe a mão, sentindo a sua preocupação. Ela apertou-lha de volta e mordeu o lábio para não chorar, agradecendo a calma e a segurança que ele transmitia. Ele, que tinha tantas ou mais razões para se sentir nervoso.

“Então, filha, estás tão calada” ouviu a voz da avó. Olhou para ela. A avó sorria-lhe, uns olhos inteligentes a quererem descobrir o que se passava com a neta.

“Estou grávida.”

No momento em que a verdade lhe cruzou os lábios, arrependeu-se. Arrependeu-se quando viu os olhos surpresos da avó. Arrependeu-se quando sentiu o namorado estremecer. Devia ter preparado tudo antes, não podia só soltar, sem aviso nem cuidado, palavras que mudariam todas aquelas vidas para sempre.

A avó olhou para o pai dela. Ela seguiu o olhar. O pai olhava para o prato, como se não quisesse estar ali, enfrentar a situação da filha e o olhar da mãe. Estava vermelho. De raiva ou de vergonha? A mãe olhava para ela, os olhos muito abertos. O irmão sorria-lhe e, levantando uma sobrancelha, perguntava-se porque é que ela não lhe teria contado primeiro, procurado a sua confiança e o seu apoio, talvez a sua ajuda. Ninguém olhava para o namorado. Ela olhou para ele, ele para ela, com um meio sorriso na cara, orgulhoso de ela ter contado, feliz com o filho que iam receber nos braços. Ela só sentia um incrível amor por ele e um medo paralisante do futuro, da família, dela própria.

A avó levantou-se. Pegou na bengala e saiu, com uma incrível decisão mesmo a coxear. Ela quis impedi-la, mas todos sabiam que ninguém impedia a avó de nada. Olhou para os pais em jeito de súplica. O pai seguiu a avó, numa frente unida, como sempre se tinham orgulhado de ser. A mãe ficou sentada, a olhar para eles. Ela abraçou o namorado a chorar, e sentiu o abraço quente do irmão, a voz dele a assegurar-lhe que ia tudo correr bem.

Ouviu uma cadeira a arrastar e soube que a mãe se tinha levantado. Talvez fosse para a casa de banho chorar porque a filha tinha estragado a sua vida, ou retocar a maquilhagem, ou tivesse ido ver como estava o pai.

“Filha, o que precisares” sentiu a respiração da mãe no seu ouvido. Largou o irmão e o namorado e tentou olhar para a mãe. Não a conseguia ver entre as lágrimas, mas agarrou-se ao calor daquela voz “estamos aqui. E estamos muito felizes por vocês, se vocês também estiverem felizes.”

“Olha para mim” o pai ordenou-lhe.

Ela separou-se da mãe e olhou para o pai, como uma garota pequena à espera de ser castigada. Mas o pai tinha os olhos plantados no namorado dela. Ele olhou para o pai dela, para o sogro, e levantou-se. Pronto para levar um murro, era o que dizia a expressão dele. Pronto para assumir toda e qualquer responsabilidade. O pai cerrou os dentes e esticou-lhe a mão. Ele sorriu a medo, e apertou-a com força e segurança.

“Obrigada” disse-lhe o pai. Simples. Vermelho, de uma qualquer emoção que ela não conseguia identificar. Ela não entendeu, e o namorado também não, mas repetiu as palavras, aliviado e agradecido. O pai abraçou-a e disse-lhe que ela era agora uma mulher. E ela sentiu que ele quis dizer muito mais do que isso, com aquele abraço e com aquelas palavras.

Ela não conseguia fazer mais nada além de chorar. Além de se sentir grata pela família que tinha, além de se sentir feliz. Excepto por um aperto na alma, uma pedra no sapato. A avó não tinha voltado, e ela ainda sentia um arrepio no coração ao pensar que a relação delas nunca mais seria a mesma. Mas deixou-se ficar naquele abraço familiar, deixou-se ficar protegida.

“O que é que estão a fazer?”

Ela limpou as lágrimas. O tom da avó não enganava: estava muito chateada. Ela tremeu, procurou a mão do namorado e enfrentou a avó. Segurava um pequeno baú que parecia pesado demais para ela carregar, com aquela idade, e tinha deixado a bengala em qualquer lado.

“Sinto-me extremamente triste” começou a avó “por sentir que tiveste receio em contar-nos que eu ia ter um bisneto”. Sorriu-lhe. Ela sentiu o coração explodir de alegria e sorriu de volta. O namorado beijou-lhe o cabelo, e ela sentiu-se no céu. “E aqui, neste pequeno baú” a avó estendeu-lhe a caixa de madeira “estão as tuas roupas e as do teu irmão de quando eram bebés. Guardei-as para este dia. Estou muito feliz por ti, filha. Parabéns.”

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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