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O Preço da Guerra que é uma Vingança

A terceira temporada de Revenge fez a sua vénia final no passado mês de Maio, num episódio repleto de momentos chocantes, mas também de situações muito previsíveis. Enquanto se assistia a este episódio, é difícil de acreditar que só se passaram 22 episódios desde que esta temporada se iniciou, com o regresso de Daniel e Emily aos Hamptons, para prepararem o seu casamento. Depois da montanha russa, cheia de altos e baixos, que Revenge teve no seu terceiro tomo, parece que os anos foram passando à mesma velocidade que o conto de fadas que foi central nos primeiros episódios se foi desvanecendo e que culminou com o momento em que o noivo dispara contra a sua noiva e fica a vê-la cair borda fora.

Uma das grandes falhas que a série sempre demonstrou ter foi a incapacidade de manter por 22 episódios os momentos que constrói. Se analisássemos a evolução da serie ao longo dos seus três anos de existência, através de um gráfico, todos iriam mostrar as mesmas tendências. Todas as estreias de temporada começariam com excelentes episódios, sendo que a qualidade começaria a diminuir por volta do quarto episódio e voltaria a aumentar perto da pausa de fim de ano, no episódio 10, ou 11. Depois, os episódios com a capacidade de prender os espectadores ao ecrã só voltariam perto do episódio 18, quando a tensão dos acontecimentos aumentaria, para permitir a criação de um episódio final de tirar o fôlego. Este é o padrão dos acontecimentos em todas as temporadas de Revenge e, pessoalmente, é um pouco irritante que os produtores não aparentem querer terminar com este ciclo repetitivo.

Fiel ao formato usado nos finais de temporada, “Execution” esteve repleto de acontecimentos importantes, que se sucediam uns atrás dos outros, de forma a manter o espectador preso ao ecrã e perplexo com o que ia acontecendo. Infelizmente, muitos dos twists que foram apresentados não passaram de ilusões para enganar quem seguia o episódio. As mudanças de poder nos Hamptons começam a parecer-se com a guerra pelo trono em Game of Thrones, com a diferença de que, em Revenge, neste momento, quem está no poder é totalmente irrelevante. Qual é a diferença que faz, ao fim de três anos, quem é a pessoa com mais poder naquela terra?

No penúltimo episódio, Conrad Grayson, o malvado génio que comandou esta história desde o início, confessou os seus pecados a Charlotte, a única pessoa que amou verdadeiramente, fazendo do seu ego o ponto fraco que o derrubou. Com esta confissão, a investigação ao atentado terrorista ao avião volta a ser aberta e David Clarke é ilibado de todas as acusações de que foi alvo. Foi um momento de conquista para Emily, que observou todo o julgamento do fundo da sala, enquanto Conrad era preso pelos seus crimes. Foi um momento pelo qual tanto a personagem principal da série, como qualquer espectador esperou muito tempo para assistir e é espantoso que, ao fim de tanto tempo, o nome de David Clarke seja finalmente limpo. Porém, como a série não terminou aqui, é necessário dar a Emily mais motivos para odiar a família Grayson.

É neste ponto que entra Victoria, que se encontra desfeita por ter perdido o seu verdadeiro amor, Pascal (convenhamos que esta personagem tem muitos “verdadeiros amores”, desde David Clarke, passando por um pintor e pelo seu guarda-costas, a lista já vai longa). Sedenta de sangue, decide retirar a Emily o seu grande amor, para que esta possa sentir a mesma dor que ela está a sentir. Era do conhecimento público que uma das personagens principais iria morrer neste episódio, mas confesso que não estava à espera que fosse Aiden a acabar por falecer pelas mãos de Victoria, quando esta o sufoca, colocando depois o seu corpo no sofá de Emily, para que esta o encontrasse, quando chegasse a casa. Depois de chorar a morte do seu grande amor nos braços de Nolan, a nossa vingadora favorita decide confrontar a sua arqui-inimiga com o que ela havia feito, mas Victoria já a esperava pronta para ripostar com a sua mais recente descoberta, de que Emily é na realidade Amanda Clarke.

Este final, escrito por Sunil Nayar e co-produzido por Joe Fazzio, realizou um twist que há muito se esperava que acontecesse, com a revelação de que David Clarke, afinal, não está morto e que tem estado escondido ao longo de 20 anos. Ao fim de três temporadas, esta personagem ressurge para, aparentemente, assassinar Conrad, terminando, assim, com a especulação que existia desde o início sobre a sua morte. Uma vez que ninguém, nem mesmo Emily, sabe que David Clarke está vivo, vai ser interessante acompanhar, na próxima temporada, a forma como este arco narrativo se irá desenvolver e como irá a personagem principal reagir, quando descobrir a verdade sobre o seu pai. Paralelamente a estes desenvolvimentos, será também interessante acompanhar a forma como os vários confrontos entre Emily e Victoria se irão desenrolar, principalmente depois desta última ter sido internada numa clínica psiquiátrica, como vingança por ter morto Aiden. Contudo, nem tudo serão rosas (narrativas) no próximo ano, já que Daniel Grayson e Charlotte Clarke continuam a ser duas das piores personagens na série, a quem são atribuídas, constantemente, histórias desinteressantes. Enquanto que Daniel terá de resolver a questão de ter acordado ao lado de uma prostituta morta, Charlotte, que ainda não conseguiu descobrir que Emily é sua irmã (sabe Deus como), terá de viver com as consequências de ter enviado Jack para a prisão, depois de o ter reconhecido (através do seu toque) como o responsável pelo seu rapto.

Como é possível ver, a próxima viagem pelos Hamptons irá ser cheia de actividades. Porém, é preciso ressalvar que Revenge tem-se tornado, progressivamente, numa série menos divertida, porque as linhas narrativas repetidas em que está presa retiraram espaço às interpretações das personagens. Onde antes Madeleine Stowe encontrava vários níveis no narcisismo e nas mentiras de Victoria, agora só é possível assistir a uma personagem que é simplesmente má, sendo o mesmo aplicado a Emily VanCamp, cuja personagem deixou de ser humana e tornou-se apenas em alguém puramente obcecada com o seu objectivo. O modo como a trama está construída não permite às personagens mudarem de uma forma significativa, o que os leva quase a tornarem-se numa paródia de si mesmos (como é a amostra de vilão que é Daniel). Juntando a isto, Revenge não conseguiu aumentar o seu universo de personagens de uma forma eficaz, apesar de se esforçar por envolver os espectadores nas histórias da família LeMarchal, maioritariamente representada por Margaux, cujo pai, que se envolveu com Victoria, foi morto por Conrad.

Resumindo, foi um final confuso para uma série confusa. Emily conseguiu atingir a sua tão desejada vingança, mas perdeu o seu grande amor. Victoria perdeu tudo o que amava. Charlotte e Daniel continuam a ser o pior que esta série tem. Conrad pode, ou não estar morto e David Clarke tem estado vivo, durante este tempo todo, enquanto a sua filha tem sofrido com a sua suposta morte. Revenge dificilmente irá regressar para uma quinta temporada, tendo em conta a sua constante descida nas audiências, mas espero que o próximo ano consiga dar um fim digno a esta série, já que, por enquanto, ainda consegue ser uma obra televisiva digna de acompanhar, mas, infelizmente, encontra-se também no bom caminho para se tornar numa sombra do que outrora foi.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim…

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2 thoughts on “O Preço da Guerra que é uma Vingança”

  1. Ai ai, muitos spoilers neste artigo. Mas suspeito que quem gosta desta série não deve ter perdido o último episódio. Sempre achei a série muito inverosímil e previsível, no início nem ligava muito mas depois já estava “viciado” sem perder um episódio. Revenge faz-me muito lembrar Dinastia e Dallas, séries que acompanhava com muito entusiasmo. Grande reviravolta no final. Nunca suspeitei que David Clarke não estivesse morto. Como será agora no futuro?

    1. Sim, foi o que pensei. Tenho normalmente cuidado com os spoilers, mas como já foi há tanto tempo e foi tão bombástico o final, que não ia conseguir não falar do que aconteceu. Acho que o próximo ano vai ser o último de Revenge, porque uma vingança tem de ter fim e não existem outras histórias que nos cativem tanto como as que estão relacionadas com as da vingança. Espero que o próximo ano seja melhor desenvolvido do que este ano foi. Que consigam desenvolver bem a novela e que consigam dar um final digno à série.

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