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ContosCultura

O povo no adro

O tema era o mesmo em todas as conversas. Naquela domingo de manhã o adro enchia-se aos poucos à medida que a população se despedia do Sr. Padre com palavras de ocasião. Ninguém arredava pé do adro apesar do frio de outono se fazer sentir com abraços desumanos. O sol procurava dar algum conforto mas sem conseguir se esforçar. As famílias iam-se juntando em pequenos grupos, as conversas de cada uma transportavam-se de grupo para grupo sem se perderam na noção do que eram. O tema era só um, a família Pereira permanecia desaparecida.

Gabriel era jovem da terra e Isabel vinha da aldeia vizinha. Haviam sido escorraçados pelos pais dela com a inquebrável força do restante povo da aldeia. Instalaram-se então ali fazia por estes dias três anos. Logo depois celebraram sós o nascimento da amada filha Letícia. Nos primeiros tempos passaram despercebidos, evitando a rejeição da sua união, ocupando-se com os máximos cuidados à recém nascida. Depois começaram a frequentar a missa naquelas manhãs de domingo. O padre recebeu-os no seu rebanho como sua missão era, mas o povo sempre os olhou de lado. Rejeitaram as conversas deles, depois os simples cumprimentos. Gestos que reflectiam a recusa daquela união, vista como a união de duas aldeias que ninguém queria, que não podia acontecer.

Sem os pais dele, falecidos em trágico acidente anos antes já perdidos na memória, não lograram força para os expulsar do seu lugar como o fizeram as gentes da família dela. Situação tida como uma fraqueza que ninguém queria assumir. Mas eles nunca desistiram e todos os domingos enfrentavam o ensurdecedor silêncio com que o povo os atacava. Em todas as missas, domingo após domingo e dias festivos, eles apareciam com as melhores roupas que tinham, as alianças de ouro de um matrimónio não testemunhado pelo Senhor mas sentido por eles, e a pequena Letícia a segurar pelo braço o seu único amigo, uma pequena boneca de trapos com dois botões de metal negro a mistificarem uma visão profunda.

Após dois anos de luta silenciosa, numa manhã de domingo, eles, Gabriel, Isabel e a pequena Letícia não apareceram. O padre nada disse mas também ele notou a ausência. À saída ninguém comentou o assunto. Passada uma semana ninguém falava de outra coisa no adro. Uma semana sem sinal deles e nova falta à presença do Senhor acabara de acontecer. Na incerteza de sentir a falta deles ou de celebrar a sua partida, o padre surgiu no topo da escada à entrada da igreja e dirigiu-se aos presentes. Contou que ao notar a ausência do casal e filha, enviou o ajudante a casa deles. Apenas o vazio encontrou na casa a par dos seus pertences e memórias. Pediu a todos que aprofundassem a procura e convocou para que ali se juntassem ao início da noite de forma a partilharem o que descobrissem.

Nessa noite o povo juntou-se então no adro em frente à igreja em volta de enorme fogueira que foram alimentando para se aquecerem. A ausência de novidades depressa se percebeu mas de novo ninguém arredou pé. O padre a todos agradeceu e dispensou mas os olhares e as conversas permaneceram hirtas no fogo, como que subjugadas ao encanto que emanava da fogueira com as suas cores vivas e odores de carvão.

Era já noite profunda quando o adro se esvaziou e as chamas extinguiram-se. A memória do casal e da pequena Letícia em breve extinguir-se-iam. O adro ficou vazio e daquela noite apenas restou o carvão queimado e a sua essência a flutuar no ar. Entre o negro no chão jaziam chamuscadas duas alianças e dois botões negros de metal.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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