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O Poder de ter Poder

Como diz sabiamente Heidi Klum, em Project Runway, “in fashion, sometimes you are in and sometimes you are out“. O mesmo é aplicado ao mundo que nos rodeia. No meio de tanta informação, há que saber separar o trigo do joio, o importante do acessório e o interessante do que deveria nem ter sido notícia. É disso que viveu este espaço semanal, que surgiu de uma ideia que estava a ser usada para o Facebook, onde todas as sextas-feiras eram colocados dois posts – um referente ao Destaque da Semana e outro à Fava da Semana. Acima de tudo, pretendi construir um espaço de discussão, onde o objectivo era também incentivar o Leitor a dar uso ao teclado e deixar a sua opinião sobre os vários temas abordados fluir.

Há umas semanas essa dinâmica sofreu uma pequena alteração, porque, tal como dois posts de Facebook evoluíram para uma crónica, também esta crónica, em 2015, irá sofrer uma alteração que a seu devido tempo irá ser revelada. Por essa razão, decidi escolher 5 temas que me apaixonam como pessoa e cidadão atento ao que me rodeia para desenvolver nas últimas 5 crónicas d’A Voz do Editor, acrescentando sempre, como não podia deixar de ser, algumas curiosidades no fim.

Para dar continuidade a estes temas finais, decidi falar sobre o Poder que o Poder Traz na nossa sociedade e no indivíduo em particular…

Temadasemana

Os jornais (e a História) estão repletos de notícias sobre homens poderosos a abusarem do poder que têm. É um espectáculo um pouco deprimente, mas igualmente previsível que pessoas colocadas em posição de poder recorram a esse facto para se ajudarem a si mesmo. Elas gritam com os seus subalternos e têm encontros sexuais com as suas secretárias. Elas agridam empregadas de limpeza nos hóteis (ou pelo menos são acusadas de o fazer) e envolvem-se com as amas dos filhos. A questão impõe-se: O que motiva estes comportamentos? Porque é que o Poder corrompe?

Os psicólogos chamam a estes comportamentos o Paradoxo do Poder. Os traços que ajudaram os líderes a alcançarem a posição de poder que desejavam acabam sempre por desaparecere assim que o poder é conquistado. Em vez de continuarem a ser educados, honestos e extrovertidos, tornam-se impulsivos, sem escrúpulos e rudez. Segundo os estudos realizados, um dos grandes problemas que surge, quando alguém ocupa um cargo de poder, é fazer com que a pessoa sinta menos compaixão para com os problemas e as emoções dos outros. Por exemplo, é normal que as pessoas em posições autoritárias tenham mais tendência a tomar decisões baseando-se em estereótipos e generalizações, quando estão a julgar os outros. Também é comum que façam menos contacto visual com alguém que não tenha o mesmo tipo (ou mais) de poder que elas.

Uma experiência levada a cabo por Adam Galinsky, em 2009, um psicólogo da Universidade de Northwestern, em que perguntou aos sujeitos a serem estudados para descreverem um momento em que tiveram muito poder, ou em que se sentiram sem qualquer tipo de poder. Depois, o psicólogo pediu aos sujeitos para escreverem a letra E nas suas testas e aqueles que sentiam que tinham uma posição de poder tinham mais a propensão a desenhar a letra de pernas para o ar, tendo em conta a perspectiva de outra pessoa. O estudo concluiu que isto acontecia, porque essas pessoas não se importavam com a perspectiva que os outros pudessem ter. Afinal de contas, quem é que se importa com aquilo que as empregadas de limpeza pensam?

No entanto, quando alguém tem o poder para si, é natural que pense que se importa com os outros, pelo menos a um nível abstracto. No estudo de 2009 em que os sujeitos tiveram de pensar em situações em que tiveram, ou não tiveram poder, eles foram divididos em dois grupos. Ao primeiro grupo foi pedido que avaliassem, numa escala de nove níveis, as implicações morais de fazer um relatório de despesas de uma viagem de trabalho, incluindo despesas pessoais. O segundo grupo teve te participar num jogo de dados, em que o número que aparecia nos dados iria determinar o número de boletins da lotaria que cada um iria receber. No fim, teriam de dizer o número que lhe saiu nos dados para poderem receber o mesmo número de boletins.

Os participantes que se encontravam no primeiro grupo, em que a noção de poder era mais elevada, consideravam que adulterar as despesas das viagens de trabalho não era uma ofensa muito grande para com a empresa em que trabalham. Contudo, o jogo dos dados teve resultados completamente contraditórios. Por exemplo, as pessoas numa posição de poder diziam obter números que eram, na sua grande maioria, estatisticamente improváveis, enquanto que o grupo de pessoas sem qualquer poder afirmava sempre ter alcançado valores elevados. Algo que sugere fortemente que eles estavam a mentir no que tocava aos números obtidos, de forma a conseguirem ter uns boletins extra.

Apesar de todos saberem distinguir entre o certo e o errado, sendo o mais errado a mentira, a sua noção de poder permite-lhes racionalizar com mais facilidade com que a ética é negligenciada. Os mesmos sujeitos com uma posição elevada na escala de poder no trabalho afirmaram que quem conduz acima dos limites estabelecidos por lei, por estarem atrasados para um compromisso profissional, mas, caso fossem eles os condutores, a moralidade da situação já não era a mesma. Por outras palavras, a sensação de que são pessoas importantes, com compromissos importantes, justificava as suas acções, sendo que as restantes pessoas deveriam seguir as regras de trânsito.

É possível que não acredites que os estudos realizados sobre este assunto não se apliquem tão bem à realidade. Deixa-me só acrescentar um dos meus estudos favoritos sobre este tema e que foi realizado por Deborah Gruenfeld, uma psicóloga da Stanford Business Scholl interessada em perceber na forma como as posições de poder alteravam a capacidade de raciocínio. Depois de analisar mais de mil decisões tomadas pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América, entre 1953 e 1993, a cientista descobriu que, à medida que os juízes iam ganhando mais importância, ou faziam parte de alguma coligação maioritária, as suas opiniões escritas iam-se tornando cada vez menos complexas e com menos nuances. Eles consideravam cada vez menos perspectivas e possíveis finais. O problema neste caso é que a opinião da maioria é que define as leis no país.

O que se pode concluir destes estudos é que Foucault tinha razão, quando afirmava que a dinâmica do Poder pode influenciar profundamente a forma como cada um de nós pensa. Quando subimos a escada do status profissional e/ou social, as nossas questões éticas vão desaparecendo e a nossa simpatia natural para com os outros vai deixando de existir. Em vez de pensarmos nas nossas acções antes, simplesmente agimos perante as situações, porque merecemos ter o que queremos. E ninguém se oponha a esse desejo. Será que eles não sabem quem somos?

Momento

Um apresentador de televisão australiano afirma que vestiu o mesmo fato no programa, durante um ano, e que ninguém reparou nisso.

Karl Stefanovic vestiu, deliberadamente, um fato da Burberry azul, todas as manhãs durante um ano (com a excepção dos dias de limpeza), no programa da manhã, do Canal 9, para provar que os homens não são tão julgados pela sua aparência. O apresentador de 40 anos disse em directo que “ninguém reparou na sua roupa, ninguém se importou com o que eu tinha vestido, mas, se eu fosse uma mulher e tivesse a usar uma vestido com a cor errada, todos teriam notado.” A razão que o levou a fazer esta experiência em directo foi o facto da sua co-apresentadora, Lisa Wilkinson, atrair constantemente comentários negativos sobre a sua aparência e sobre as roupas que escolhe.

Ele começou por usar em directo o mesmo fato por dois dias seguidos e depois avançou para três. Ao fim de um mês e de reparar que ninguém notou, decidiu começar a usar a mesma roupa (com a excepção da gravata e da camisa), por um ano. “Eu sou julgado pelas minahs entrevistas, ou pelos meus comentários humorísticos – basicamente, pela forma como faço o meu trabalho. As mulheres, pelo seu lado, são muito julgadas não só pelo seu trabalho, mas também pela roupa que estão a usar, ou pela forma como estão penteadas… foi isso que quis testar com esta experiência.” Lisa Wilkinson concordou com as afirmações do colega e acrescentou que a maioria das críticas que recebe são feitas por mulheres. “Quando recebo críticas, são quase sempre de outras mulheres  e isto deve-se a uma falta de apoio entre o sexo feminino”, concluiu.

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Miguel Arranhado

licenciado em ciências da linguagem, pela faculdade de letras da universidade de lisboa. editor no repórter sombra. amante das artes e da cultura. politólogo de sofá. curioso por natureza. fascinado pelas pessoas e pelo mundo. crítico. perfeccionista. maníaco por informação. criativo. e assim assim...

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