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O peso da Educação, da Felicidade e do Dinheiro nos dias de hoje

Educação, Felicidade e Dinheiro, três conceitos à primeira vista distintos, mas, uma vez inseridos numa sociedade capitalista, ganham forma e criam entre si laços profundos, que acabam de uma forma ou de outra, por influenciar as escolhas de vida de cada um de nós. Se para os indígenas, a relação harmónica que mantêm com a Natureza é sinal de paz, harmonia e felicidade, para nós, cidadãos da cultura ocidental, o lucro, os bens materiais e uma educação “cara”, são patamares essenciais a atingir para o sucesso, para a felicidade. Nuno Crato, Ministro da Educação, aquando a Universidade de Verão do PSD, evidenciou precisamente esse pensamento ao afirmar, que “estudar vale a pena para poder ganhar mais dinheiro”, ideia contrária a de Sigmundo Freud, que defendia que “a nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”. Mas, afinal, o que é a felicidade? Será que a felicidade se educa? E o dinheiro? É essencial para sermos felizes?

Mutável e efémero, é esse estado que invocamos sem cessar – a felicidade. Segundo os dicionários de Português,  é o estado de “quem é feliz; ventura, bem-aventurança; bem-estar; contentamento”. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles argumenta que todas as nossas acções têm um fim, esse fim é a eudaimonía, a felicidade. Para este filósofo da antiguidade clássica, a felicidade não se mede em termos materiais, como a quantidade de comida, número de mulheres, riqueza, mas, antes, na busca da virtude e da excelência. Todavia, se pensarmos nos valores que imperam hoje em dia, rapidamente verificamos que a moral é muitas das vezes colocada para segundo plano, quando se trata de um bom emprego, do desejado status e de uma conta bancária recheada.

Pesquisas realizadas recentemente apontam para a existência de uma relação entre o aumento dos rendimentos e da satisfação pessoal, mas, apenas, até um certo ponto. É o exemplo de um estudo conduzido pelo economista Angus Deaton, do Centro para Saúde e Bem-estar da Universidade de Princeton, e pelo Prémio Nobel Daniel Kahneman, que conclui que, quanto mais baixo for o rendimento de uma pessoa, mais infeliz ela se sente. No caso americano, o valor mínimo para a felicidade é de 75 mil dólares por ano, atingindo esse nível, a felicidade está garantida para a maioria dos americanos, acima dele, é irrelevante.

Se Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, ainda estivesse vivo, certamente diria: “o dinheiro é uma felicidade humana abstracta, por isso, aquele que já não é capaz de apreciar a verdadeira felicidade humana, dedica-se completamente a ele”. O problema é que o actual mercado de consumo não tem limites morais. Cria comportamentos, influência as pessoas e impõe normas. “Vivemos numa época em que quase tudo pode ser comprado e vendido. Tudo é uma questão de quanto se quer pagar para obter determinada coisa”. Quem o diz é Michael J. Sandel, filósofo americano, autor do livro O que o dinheiro não compra. Torna-se difícil não concordar. Nas últimas semanas, os órgãos de comunicação social noticiaram o caso de uma jovem brasileira, que leiloou a sua própria virgindade a um indivíduo de nacionalidade japonesa por 600 mil euros, alegando que vai doar 90% do valor adquirido no leilão a instituições de caridade.

Na sociedade capitalista, o dinheiro estabeleceu um novo modelo normativo. O lema de vida  passou a ser algo como: “o dinheiro não compra a felicidade, mas compra algo bem-parecido”. Apesar de tudo, todos concordamos que o dinheiro é importante, mas será que ainda existe algo que o dinheiro não compra? Michael J. Sandel, diz que sim.“A cultura e a educação cívica de um cidadão. O amor e a amizade estão entre os mais preciosos bens humanos que o dinheiro ainda não compra. Apesar de já comprar expressões de afecto, como brindes de casamento e pedidos de desculpa”.

Por outro lado, há quem acredite que a educação tem influência na felicidade de cada um de nós. Um dos argumentos vai de encontro ao que se passa hoje em dia, com as gerações mais novas, em Portugal. Sentem-se perdidas, tudo porque nunca imaginaram encontrar um mercado de trabalho completamente desestruturado, após anos e anos de estudos. Mais do que educar, é importante preparar as pessoas para enfrentarem os problemas. Ninguém está preparado para o pior, porque ninguém nos ensinou. Kant era da mesma opinião, afirmando que é importante a pessoa “sentir logo a inevitável resistência da sociedade, para que aprenda a conhecer o quanto é difícil bastar-se a si mesmo, tolerar as privações e adquirir o que é necessário para tornar-se independente”.

A escola e o núcleo familiar encaminham o indivíduo a conquistar um determinado status no seio da sociedade, tanto ao nível financeiro como profissional, como se essa condição fosse imprescindível para ser feliz. Paulo Freire, na obra Pedagogia do Oprimido, classifica esta atitude de “educação bancária”, como uma forma de “naturalizar as formas de opressão, abdicando do potencial transformador da educação e contribuindo para a reprodução do modo de vida capitalista”. Para este filósofo brasileiro, as nossas bases educacionais assentam na ideia de êxito individual, na competição entre os sujeitos, sendo precisamente esta competição, uma das formas que temos para interagir. Somos uma espécie de perdedores e de ganhadores, o que na prática, “é o acúmulo de vantagens para uma parcela da sociedade e o acumulo de desvantagens para outra parcela”, afirma Paul Singer, em Introdução à Economia Solidária.

Uma educação para a felicidade, não é aquela que se concentra apenas em ensinar a obter, a conquistar e a possuir certas condições e coisas que proporcionam, momentaneamente, alegria e felicidade. Não se pode dizer que isso não é importante, contudo, é preciso compreender que a rotina do quotidiano também acarreta medos, frustrações e tristezas, para os quais temos que estar preparados. Quando entendemos isto, deixamos de ser prisioneiros de uma felicidade utópica, afinal, o fim maior da educação é tornar possível a realização do ser humano.

Vivemos uma época em que cada pessoa parece ser um parafuso numa máquina, sabendo que emprego seguir e o que estudar, para fazer mais dinheiro. Isto é tudo pelo que nos esforçamos, esquecendo-nos muitas vezes do mais importante – de viver.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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