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AmbienteCiências e Tecnologia

O Paradoxo da Inatividade

A história de um planeta em agonia

Há tempos cruzei-me com a simples, mas não por isso pouco importante, ideia de que o comportamento do ser humano é pautado por um Paradoxo da Inatividade, que encoraja a nossa letargia. A lógica é simples: não agimos até que sejamos realmente afetados por algo, sendo que isso significa que é tarde demais para o fazer. Isto aplica-se de forma transversal e com consequências semelhantes nas várias experiências de vida, por exemplo: Muitas vezes só sentimos urgência de estudar para um exame quando recebemos uma nota que nos deixa insatisfeitos. Tendencialmente, só refletimos nas consequências das nossas ações, quando estas se consumam e nos afetam. Uma das situações onde este paradoxo é mais preocupante é no plano ambiental.

Neste caso, a razão da nossa inatividade é o contraste entre a informação que recebemos e a experiência que temos diariamente. Quaisquer relatos da escassez ou dificuldade contradizem a abundância da oferta diária a que estamos expostos: Falta de água? Desflorestação? Desertificação? Sou o primeiro a admitir que não sinto as consequências destes fenómenos no meu quotidiano – e com firme segurança me adivinho parte da vasta e expressiva maioria. O problema subjacente é o impacto psicológico deste desfasamento entre informação e experiência, que nos usurpa qualquer sentimento de urgência, uma situação particularmente desesperante, quando o estilo de vida e economia contemporâneos conduzem o sistema terrestre para o abismo.

O último século ficou marcado pela expansão assombrosa da utilização dos combustíveis fósseis, que, deve dizer-se, permitiu grandes avanços na produção agrícola, nas indústrias, nos transportes e, consequentemente, uma evolução positiva na demografia e nos índices socioeconómicos de vários países. Devemos celebrar as oportunidades decorrentes deste progresso, nomeadamente e com particular ênfase a melhoria na qualidade de vida de milhões de pessoas. No entanto, é absolutamente fundamental manter presente que a intervenção do ser humano está a forçar uma nova época biológica, o chamado Antropoceno, que pode tornar-se numa ameaça à nossa própria espécie. No período pós Segunda Guerra Mundial, em cerca de 50 anos, a população duplicou e o consumo de petróleo mais do que triplicou, o que resultou num descomunal e nocivo aumento da concentração de gases de efeito de estufa na atmosfera do Planeta Terra – a base do reconhecido aquecimento global.

As alterações climáticas são uma definição abrangente que pretende referir-se a todos os fenómenos no clima terrestre que resultam da ação e vida humana. A diminuição do gelo no mar Ártico e consequente aumento do nível do mar implicam um recuo preocupante das zonas costeiras, sendo que já existem manifestações desta tendência – a República do Kiribati, no Pacífico, está em risco de submergir {sim, literalmente de deixar de ter território}. Além disso, está previsto um aumento drástico de fenómenos extremos, como cheias, ondas de calor, bem como do processo de desertificação já em progresso. Pelo meio, a perda de biodiversidade atingiu proporções que justificam a utilização do termo extinção em massa, o que deveria ser mais preocupante já que não é uma nomenclatura comum, mesmo se tivermos em conta 2400 milhões de anos[1]. Perante este cenário, o sobreutilizado termo “crise” é quase negligente para categorizar o maior desafio a que fomos expostos enquanto espécie.

De forma substancial, a produção científica aponta para a impossibilidade de travar as alterações climáticas na sua plenitude, o que nos deve suscitar algum alarme, mas não desmotivação ou desresponsabilização. Para responder às consequências deste processo, as nossas ações dividem-se em 3 prismas: prevenção, mitigação e adaptação. Tal como refleti, a primeira opção encontra-se ultrapassada – a prevenção teria sido uma estratégia empregue de forma paralela à construção do nosso sistema económico, com o objetivo de evitar a situação em que estamos neste momento. Assim sendo, restam-nos duas alternativas. A mitigação significa limitar ao máximo a nossa pegada ecológica, significa apostar em eficiência energética, em meios e fontes menos poluentes, significa um compromisso com a redução possível dos riscos existentes. Por outro lado, a adaptação corresponde às estratégias empregues para as consequências inevitáveis das alterações climáticas, isto é, reduzir a vulnerabilidade das nossas sociedades, preparando-as antecipadamente.

Perante este cenário, o compromisso das sociedades contemporâneas parece insuficiente, resistindo à sua transposição da retórica para o nosso quotidiano. Exemplo disso é o Acordo de Paris, celebrado em 2015 na COP21, que não é vinculativo, nem inclui mecanismos de monitorização ou penalização, o que o limita a uma declaração de boas intenções. A sustentabilidade tem de ser uma componente fundamental da vida e ação humana daqui para frente – só assim poderemos garantir um futuro onde desenvolvimento económico e qualidade de vida são compatíveis.

[1] Veja-se uma lista completa deste tipo de fenómenos.

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David Gil Gonçalves

A política é o vetor que une os meus principais interesses: economia, sustentabilidade, comunicação e filosofia. Gosto de análises imparciais, de ouvir e ler um pouco de tudo, porque não acredito em preto e branco. Nos meus tempos livres podem encontrar-me a fazer desporto, ler ou, como todos os outros humanos do século XXI, a viajar.

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