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HistóriaSociedade

O Palácio da Comenda

A família Kennedy sempre se pautou por uma maneira própria de estar na vida. Os que se lhe juntaram foram tão ou mais fortes que os originais e as suas vidas passaram a ser páginas de História Mundial. Jackie Kennedy começou por ser uma destemida mulher que se fez valer pelo seu trabalho. Escrevia uma coluna no Washington Times-Herald e foi deste modo que entrevistou um jovem senador. Conheceram-se, encantaram-se, apaixonaram-se e casaram. Entre 10 de Maio de 1952 e 12 de Setembro de 1953 decorreu o namoro que levou a uma união somente terminada por circunstâncias exógenas.

No mês de Outubro de 1962, vivia-se a crise dos mísseis cubanos. As mulheres dos políticos e dos generais norte-americanos foram aconselhadas a afastarem-se dos maridos como forma de protecção e segurança. Pensando nas suas famílias e em si, aceitaram sem pestanejar. Contudo, uma se destacou: Jacqueline Kennedy recusou a sugestão e permaneceu com os filhos junto do marido. Se lhes acontecesse alguma coisa de negativo, estariam juntos.

Palavras que se cumpriram, fatalmente, pois ele morreu no dia 22 de Novembro de 1963 sentado ao seu lado. Um tiro certeiro acabou com a sua vida e ela não mais deixou de se culpar por esse momento. Se ao menos tivesse percebido o que se passava, podia ter evitado a tragédia. Tal não foi possível. Por muito organizada que a pessoa seja, há sempre fugas na planificação.

Nesse mesmo ano, Jackie chega ao Palácio da Comenda, na zona de Setúbal. É uma mulher fragilizada e de luto profundo que está a digerir o assassinato do seu marido. Os dois filhos acompanham-na. Crianças assustadas e confusas viveram dias mais tranquilos naquela casa junto à água. Esta propriedade, dos condes D`Armand, tinha uma localização perfeita para sarar algumas feridas profundas.

No Verão de 1965 Lee Radziwill, irmã de Jacqueline Kenney e o escritor Truman Capote passaram uma temporada naquela casa que era descrita como estando debruçada sobre uma das melhores costas mediterrâneas sem os ajuntamentos que estes locais plácidos conseguem atrair. Desde 1872 que era propriedade do conde Abel Armand, diplomata e antigo ministro francês, que a havia comprado pela quantia de “cinco contos de reis”

Dotada de característica únicas e projectada pela mão de Raul Lino, a casa foi construída com materiais inovadores e desenhada com uma particular volumetria, que se inclinava sobre o rio. Um refúgio de veraneio que se enquadrada numa paisagem de beleza singular. De anterior ocupação romana, havendo ainda vestígios de setárias que a comprovam, foi igualmente o local escolhido para uma torre de vigia, do período medieval, devido à sua posição estratégica.

Esta mansão, no topo de um pequeno monte e banhada pelo rio Sado, mostra-se como um exemplo de comunhão entre o natural e o humano. O que outrora foi imponente, apresenta-se como um destroço e ruína que incomoda quem a vê. O edifício está abandonado desde a morte do último proprietário, em 2009. No entanto, a beleza ainda se percebe e continua a atrair muitos curiosos.

A propriedade, de 600 hectares, raramente está em completo abandono. Grupos de amigos usam o local para fazer patuscadas ou até famílias inteiras se juntam para maiores comemorações. É frequente verem-se casais jovens que buscam um cenário que posso complementar o seu estado de alma. Esses procuram os recantos e vivem o seu amor como se o mundo fosse só deles.

Outrora uma espécie de fortaleza, aquele casarão, agora, pode ser devassado e percorrido como se o requinte e o bom gosto nunca por lá tivessem habitado. Os cinco pisos estão em completa destruição e vandalizados até à exaustão. Janelas partidas, azulejos arrancados ou danificados, escadas prestes a cair e o telhado há muito que o deixou de ser. O graffiti ganhou o lugar de destaque mesmo que não seja de grande qualidade.

Isolada, como a célebre aldeia dos irredutíveis gauleses, resiste uma sala que ainda consegue manter o esplendor dos tempos dourados. Um painel de azulejos com a imagem de dois marqueses é a ex-libris e a marca de água que se afirma. Somos imediatamente transportados para aqueles tempos em que os bailes eram frequentes e a música e o convívio animavam aquele ambiente e lhe davam a magia que já perdeu.

Agora lembra um despojo de guerra surda, sem marcas de balas nem de outros projecteis que possam ferir ou matar. As pilhagens de que foi alvo deram frutos ainda maiores que talvez não tenham retorno. Dos vários azulejos ainda existem registos fotográficos, mas dos físicos, poucos resistem nas paredes que já foram de luxo e ostentação.

A Câmara Municipal de Setúbal aguarda que o edifício seja classificado como imóvel de interesse municipal para que se avancem com as necessárias obras de remodelação e reabilitação. Enquanto tal não acontece aquela mansão, repleta de histórias fantásticas e de antigo fausto, encontra-se à mercê de quem se quiser aventurar pela propriedade. De portões abertos e sem defesa alguma, lembra uma pobre e miserável donzela que foi remetida à dor e ao esquecimento num fim de mundo qualquer.

Para os mais afoitos, será mais uma aventura percorrer aqueles pisos, que não oferecem segurança, mas que terão todo o sabor das memórias que se entranharam nas paredes firmes e que foram testemunhas de momentos únicos de confidência e de alegrias. Um privilégio!

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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