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ContosCultura

O Pai

Era muito pequena quando a mãe se foi embora e não deixou morada. Nem me lembro da cara dela e muito menos da sua voz ou cheiro. Também não a critico por ter ido apesar de ter sido uma atitude difícil de entender. Mãe é quem cria e não me faltou o apoio que precisava. Quem não tem mãe tem pai e o meu nunca me faltou.

Quando fui para o colégio, foi o meu pai que me levou. Era muito pequena, mas lembro-me da cor do vestido e dos sapatos. É uma imagem que guardarei para sempre. Entregou-me a uma educadora que me disse que ia gostar de estar com ela e acertou. Foi sempre muito bom. A escola tinha um grande lago, cheio de peixes e eu queria agarrá-los. Resultado: caí lá dentro, de nariz e fui de urgência para o hospital.

Quando acordei da cirurgia o primeiro rosto que vi foi o do pai, preocupado, mas aliviado por estar bem. Não me ralhou. Agarrou na minha mão e disse-me que gostava muito de mim. Parti o nariz, fiquei horrível e o meu pai diz que gosta de mim? Ele é o máximo. A recuperação foi longa e ele esteve quase sempre ao meu lado, trabalhando a partir de casa. Nem a minha avó era tão competente quanto ele.

Calhou que eu gostava de escola e de aprender. Tinha boas notas e só pensava em dizer-lhe para ele ficar orgulhoso. Ele ou me levava a comer um gelado ou me oferecia um livro. Não era uma recompensa, como ele dizia, era um incentivo. Foi assim que consegui uma boa biblioteca e conheci os clássicos, logo em miúda.

Uma vez, sem querer, deixei a torneira aberta e provoquei uma inundação. Eu tinha idade para ser responsável, mas não o fui. O aparato foi enorme, com bombeiros e a vizinhança toda a inventar histórias. Claro que tinha que acontecer uma desgraça. Onde é que já se viu um homem sem mulher a criar uma rapariga? Também me lembro de outras “pérolas” do mesmo teor. Fiquei de castigo e obrigou-me a fazer fichas de leitura dos livros que já tinha lido.

A escola do 2º ciclo era um pouco mais longe de casa. Ensinou-me a andar de metro e a chegar sempre a horas. Um ponto de honra para ele e passou a ser, também, para mim. Apesar de ter só dez anos, movimentava-me para todo o lado com desenvoltura e facilidade. Ainda gostei mais desta escola do que a outra. Isto não quer dizer que me portasse como um anjinho.

Como estava mais atrevida envolvi-me em lutas. O pai foi chamado à escola e eu passei uma enorme vergonha. Tinha os joelhos cheios de sangue, o nariz outra vez partido e a roupa toda rasgada. Ele, com a sua calma do costume, perguntou-me o que se tinha passado. Contei tudo como foi e ele obrigou-me a pedir desculpa ao rapaz a quem bati. Ele estava um pouco pior que eu. Senti-me tão mal, engoli o orgulho e pedi-lhe desculpa, mas tomei-o de ponta.

Nessa noite tive uma febre tão grande que obriguei o pai a ficar de pé a noite inteira. De manhã, como não estava melhor, levou-me ao hospital. Não tinha nada de mais, simplesmente me tinha aparecido o período e eram as manifestações típicas. Ele, como homem, não me tinha preparado para o assunto e sentiu-se muito mal. Tivemos uma conversa muito adulta e eu percebi como ele sofria com toda aquela situação.

Não queria falar no assunto, mas intrigava-me a ideia de a mãe não querer saber de mim. Tornei-me um pouco rebelde. Ele, para me acalmar, levava-me ao cinema, a passear, ao Jardim Zoológico, a todos os locais possíveis e imaginários. Nunca lhe conheci namorada ou algo do género e estou-lhe extremamente grata pela sua dedicação. Nunca me falhou e éramos o suporte um do outro.

A vida prega tantas partidas e acabei por ter uma paixoneta por aquele rapaz que me tinha partido o nariz. Ele não me ligava nenhuma e eu tentava, a todo o custo, que ele reparasse em mim. Nada resultou. O pai, ao me ver tão triste e desanimada, veio falar comigo. Penso que até foi melhor ter aquela conversa com ele, em vez da mãe, porque fiquei a ver o lado masculino da questão. Mudei o meu comportamento. Ele continuou a não me ligar nenhuma e a “paixão” evaporou-se.

Tive uma fase estúpida, de cabelo em pé e roupas escuras. Ele não me proibiu, somente me dizia que existiam outras cores e outros cortes de cabelo. Passou-me rápido. Entretanto já me tinha interessado pela cozinha. Ele fazia uma comidinha muito boa e eu aprendi os seus truques. Passei a ser a cozinheira de serviço e foi uma carga pesada que lhe saiu dos ombros. Nem sempre ficava tão bom como o dele, mas nunca se queixou.

Quando tinha quinze anos decidiu ter a “tal” conversa comigo. Agora foi mesmo a sério com detalhes e pormenores que tinha desejado não ouvir. Não sei como é ter uma mãe, como se conversa com ela sobre sexo e crescimento. O pai deixou bem claro que eu era responsável pelos meus actos e devia assumir todas as minhas responsabilidades. Na semana seguinte levou-me ao ginecologista e foi-me receitada a pílula. Não sei que ideia dei de mim, mas eu era uma simples totó só que armada em estúpida.

Não tenho saudades de uma mãe, porque não sei como funciona. Não sei se vão ao cabeleireiro ou à manicure juntas, se fazem ou não depilação, se fazem compras em conjunto, não faço ideia. O pai deu-me sempre liberdade para fazer o que entendesse, mas de modo racional. O certo é que me tornei uma pessoa muito determinada e decidida. Claro que gostava muito do colinho dele, das nossas conversas, das parvoeiras que fazíamos. Só que cresci e agora nada disso faz sentido. Com uma mãe seria igual, tenho a certeza.

O cupido acertou-me e fiquei desorientada. Ele percebeu logo, mas não me disse nada. Um dia apresentei-lhe o meu amor e penso que ele estava à espera, muito tranquilo, que esse dia chegasse. Recebeu-o muito bem e deixou-o confortável. Não proibiu as idas lá a casa nem me impediu de ir dormir a casa dele. Queria era juízo e sentido de orientação, como dizia sempre.

Acabei o curso e comprei uma casa, mas tive muita relutância em o deixar sozinho. Prolonguei a minha estadia para não o desamparar. Ela sabia que eu queria ir, mas estava amarrada a ele, no bom sentido. Perguntou-se se queria um casamento convencional. Fui apanhada de surpresa. Aconselhou-me a viver com ele, a primeiro experimentar para saber se nos iríamos dar bem. Que sábio o meu pai!

Enxotou-me de casa com elegância e eu ainda lhe fiquei agradecida. Continuo com o mesmo amor, desde sempre e as coisas correm bem. Todos os dias telefono ao pai e visito-o todas as semanas. O nosso cordão umbilical ainda é forte. Voltou a perguntar se queria um casamento clássico. Disse-lhe que não, que nem queria casar. A casa é minha e sou independente o suficiente. E devo tudo isto a ele, que me soube orientar.

Um dia fui lá casa e tive uma enorme surpresa. O meu pai tem uma namorada! Já não era sem tempo! Cá para mim eles já se entendiam há muito, mas ele nunca a quis levar para casa enquanto eu lá estivesse. Respeitou-me sempre tanto! Ela é amorosa e o pai anda tão contente! Eu quero que ele seja feliz e que aproveite a vida ao máximo. Ele merece tudo e mais alguma coisa!

Quando soube que estava grávida desejei, secretamente, que fosse um rapaz. A ecografia confirmou os meus mais profundos desejos. Estou radiante e está tudo a correr bem, dentro da normalidade. Tenho uma notícia para dar ao pai e sei que vai ficar contente. Decidimos que havia de ter o mesmo nome que ele. É uma homenagem singela. Não sei como lhe hei-de agradecer tudo o que fez por mim: as horas sem dormir, as ralações, as parvoíces que me aturou, as birras e sobretudo as minhas manias.

Tenho plena consciência de que não é eterno, que um dia deixarei de o ver, que não mais existirá. Vai-me doer tanto e não quero pensar nisso agora. Por enquanto penso no gaiato que vai nascer e que vai ser, também, educado por aquele homem maravilhoso. Eu sei que os tempos são outros e que a vida agora é bastante diferente. Não quero saber. Para mim ele é e será sempre “aquele que estava sempre lá”.

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Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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