Oops! It appears that you have disabled your Javascript. In order for you to see this page as it is meant to appear, we ask that you please re-enable your Javascript!
SociedadeSociedade

O Outro lado da Moeda

Normalmente, os meus textos, para quem me conhece, sabe que são por norma levianos e nostálgicos, mas hoje não. Hoje quero-vos de falar de um tema sério. Esquecido diariamente. Quero-vos falar de um tema que me é particularmente chegado e que, na minha opinião, merece toda a nossa atenção. A vossa atenção.

Hoje, quero-vos falar da segurança que vocês sentem todos os dias. Ou melhor, das pessoas que todos os dias fazem por isso. Quero-vos falar dos policias, dos guardas prisionais, daqueles que todos os dias dão o corpo à bala e que ninguém lhes conhece o rosto, apenas a farda. Essas pessoas,são mais que uma farda, mais que um crachá, mais do que uma arma à cintura. São seres humanos, com sentimentos, com problemas como toda a gente, mas, enquanto que muitos de nós podem-se dar ao luxo de desabafar com o colega de secretária, ir um dia mais tristonho e dizer “sim, hoje não estou muito bem”, aquelas pessoas de farda não o podem fazer. Porquê? Porque colocam a vida em risco. Basta muitas vezes um deslize desses.

Vamos falar dos guardas prisionais. Vamos falar do outro lado da moeda.

As cadeias, como toda a gente sabe, são um assunto polémico, criticado. As cadeias, são sítios que nunca desejamos conhecer, seja de que maneira for. São sítios, que na nossa mente, são frios, escuros, tristes, solitários. Um cenário horripilante, não é? Preferimos continuar a ver esses cenários nos filmes de terror. Nós preferimos ver as cadeias como no magnifico filme “À Espera de um Milagre” de 1999, com o Tom Hanks, em que choramos baba e ranho e depois acabou, o nosso drama de ver aquilo acaba ali e vamos beber uma cervejinha como se nada fosse. Ou então ver o Michael todo giro no “Prision Break” em que damos uns suspiros, acaba a série e nunca mais voltamos a ver aquilo. Pensamos “olha mais uma séria porreira.”

Contudo, agora vamos ver o outro lado. E quem lá trabalha todos os dias? Quem dorme lá?

Aquelas pessoas que ao fim de um turno não podem esquecer? Porque dali a umas horas estão de farda vestida novamente. Muitas vezes, nem chegam sequer a tirar a farda, é fechar apenas os olhos por uns segundos, só para avisar o corpo de que ainda sabem como se dorme.

Todos nós gostamos no nosso trabalhinho das 9h às 18h, de segunda à sexta, sem chatices, com tempo de ir a uma esplanada beber uma cervejinha (eu pelo menos adoro o meu trabalho e acredito que vocês também). No entanto, ainda assim, passamos os dias a criticar, que o trabalho é uma porcaria e fartamos-nos de reclamar daquele colega manipulador que nos tira do sério.

Vamos, então, agora falar do trabalho e da segurança de quem trabalha na prisão:

Vamos falar de guardas que lidam todos os dias com pessoas perigosas e manipuladoras. Aquelas pessoas, a quem apenas lhes conhecemos as fardas, lidam com pessoas que muito facilmente tentam manipular os guardas e tentam fazê-los entrar no jogo deles. Jogo esse que muitas vezes lhes pode custar a carreira, ou até mesmo a vida. Não estamos a falar de pessoas que roubaram uma garrafa de Wiskey da mercearia do bairro. Não. Estamos a falar de pessoas que mataram, violaram e a percentagem de remorsos é zero. Pessoas para o qual a vida dos outros, pouco lhes importa. Agora imaginem o que é trabalhar todos os dias neste sítio.

A segurança no trabalho é um dos motivos pelos quais os guardas prisionais voltaram novamente a fazer greve. Sim, aquela greve, que todos vimos nas televisões e criticámos porque não têm mais nada que fazer? Essa mesmo. A única forma de eles poderem expressar as condições em que trabalham todos os dias. “Eles trabalham numa cadeia, mais seguros de que eles não há”. Aí é que está o erro. Julgamos, a partir de um pressuposto, mas não pensamos realmente nas coisas como elas são. Eles não têm segurança, eles são expostos todos os dias a perigos que não nos passa pela cabeça.

Um exemplo rápido: viram a notícia de que um recluso deitou fogo à cela e morreu queimado? Os que viram a notícia devem ter dito, como qualquer pessoa, “que horror”, esperaram para saber se o recluso sobreviveu e logo de seguida mudaram de canal para fazerem aquele zapping relaxante a seguir ao jantar. E os guardas que estiveram lá? Que viram, que sentiram? São criticados, porque deviam ter feito mais. “Estão lá para isso, são pagos para isso”. Pois são, são pagos para manter a segurança na cadeia, para controlar os desacatos, mas não são pagos para correrem os riscos que correm. Não são pagos para serem aqueles, a quem os reclusos se viram e agridem, quando as coisas correm mal.  Não são pagos para serem sacos de boxe.

Por isso, quando voltarem a ver os guardas em greve, lembrem-se do que vos disse. Lembrem-se que estas pessoas, desconhecidas de rosto, são esquecidos ao longo do ano. Apenas são lembrados, quando aparecem nas notícias, onde são sempre tidos como culpados. Lembrem-se que ninguém pensa na segurança deles, nas condições de trabalho a que estão sujeitos todos os dias, aos turnos de 16 horas que fazem e às camaratas onde dormem. Sim, a maior parte deles dorme lá. E não, não são colchões da Molaflex nem da Chateau d’Ax. Lembrem-se que eles dormem, se for possível, 2h ou 3h por noite. Quando podem dormir. E agora pergunto-vos, imaginam o que é fazer turnos de 16 horas seguidas?

Lembrem-se de que estas pessoas são postas em segundo plano. Sabem quem está em primeiro? Os reclusos. São os que reclamam, porque não têm visitas, porque não podem sair da cela, porque não têm o que querem. E claro, ficamos extremamente indignados, quando vemos isso nas notícias.

No entanto, alguma vez pararam para pensar por que é que isso acontece?

Lembrem-se que esses guardas lutam para poderem ter horários de trabalho decentes, de forma a que consigam ter aquilo a que se chama “vida pessoal e familiar”. Sabem que essas pessoas também têm mulheres, filhos, namoradas? É bom chegar a casa e termos o “Sr. que mora lá em casa” todos os dias connosco a jantar, termos a possibilidade de irmos passear ao fim-de-semana ou, então, reclamar com ele, porque transformou o quarto na feira do calçado de Guimarães. Sim é bom, muito bom.  Contudo, sabem que muitas dessas esposas, dessas namoradas, não têm essa opção? Porque os horários que fazem são tão cansativos, que eles dormem nas camaratas umas horinhas, para logo a seguir fazerem mais um turno de horas infinitas.  Lembrem-se disto que vos disse, quando os virem a fazer greve novamente por pedirem horários de gente normal. Lembrem-se da capacidade psicológica que essas pessoas, de rosto anónimo, têm de ter para enfrentar um dia normal de trabalho… na cadeia. Lembrem-se das coisas com que eles lidam, com os reclusos, com as situações, com a pressão.

Essas esposas, essas namoradas, ficam com o coração apertado, quando eles saem de casa, porque não sabem se vai correr tudo bem. Se vai ou não ser um “dia normal”. Esperem! Esqueci-me desta parte: Quando eles conseguem ir dormir a casa! Porque a maior parte das vezes nem sentem o cheiro do “lar doce lar”.

E sabem o que custa mais? É ouvir os desabafos e não poder fazer mais. Sentirmos-nos de braços e pernas atadas, sem saber o que podemos dizer para reconfortar. É saber que um abraço pode ser tudo e não ser nada. É sermos o maior apoio emocional que podem ter.

Por isso, lembrem-se quando virem os guardas prisionais a fazerem greve, por estarem a pedir um ordenado melhor, por estarem a pedir horários decentes, por estarem a pedir condições dignas de trabalho.  Lembrem-se que a segurança deles é posta em risco todos os dias. Lembrem-se que as condições de trabalho deles são péssimas para quem a função é dar o corpo à bala. Lembrem-se que eles não têm a mesma vida familiar que vocês e que não trabalham das 9h às 18h. Lembrem-se que as carreiras deles são congeladas e ninguém quer saber. Lembrem-se que eles são esquecidos o ano inteiro e que até nos feriados trabalham, mas ninguém quer saber. Lembrem-se que eles são criticados, porque os reclusos não têm as visitas que querem, mas ninguém pensa neles.  Lembrem-se que quem deve ser julgado são os reclusos e não os guardas prisionais. São os reclusos que estão ali para pagarem pelos crimes cometidos e não os guardas prisionais, que apenas vestem a camisola e sujeitam-se a tudo e mais alguma coisa, mas ninguém quer saber.

Lembrem-se que eles são aquelas pessoas, que ninguém lhes conhece o rosto, apenas a farda. No entanto, eu conheço o rosto. E sei o que vivem. E acreditem, tenho o maior orgulhos neles.

Tags

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Back to top button
Close

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: