SociedadeSociedade

O outro lado da guerra

Uma cidade que se levanta e dorme sob o som de bombardeamentos, as suas ruas despojadas de pessoas geram um silêncio só interrompido pelas bombas, e as lojas e edifícios em ruínas são o espelho de um cenário de guerra. A onda de refugiados atulha as fronteiras dos países vizinhos, que tentam escapar a todo custo a um destino que parece inevitável. É desta forma que nos são deixadas as impressões dos conflitos (quase que formatadas) e que nos direccionam para um juízo de valor, apresentando-nos os seus protagonistas como os ‘bons da fita’ contra os ‘maus da fita’.

Contrapondo-se a esta visão e num relato “contra a corrente”, o jornalista Stephen Starr, que viveu na Síria, de 2007 até Fevereiro de 2012, publicou um artigo na revista Foreign Policy, em que nos mostra o outro lado do conflito sírio: o do povo. Seguindo a onda de revoltas que a Primavera Árabe trouxe ao Médio Oriente, a Síria está em guerra civil desde Março de 2011, numa disputa entre os defensores do regime de Bashar al-Assad, que substituiu o pai em 2000, após a sua morte, e os “rebeldes” que se insurgiram contra o governo, reclamando mais direitos e o fim da opressão do regime da família Assad. Contudo, outra questão mais complexa contribui para a crescente tensão e torna este conflito num caso muito particular: a segmentação do povo sírio. Com uma população maioritariamente de muçulmanos sunitas, existem ainda as minorias alauitas, drusas e cristãs, que coabitam no mesmo espaço. A minoria alauita é o grupo que detém o domínio político sobre o país, desde 1960, e define as regras de coabitação para as restantes comunidades étnicas-religiosas.

Ao explicar-nos as singularidades do conflito sírio, Starr chama-nos a atenção para uma facção da população que apoia (silenciosamente) o regime alauita. Com o governo de Assad, às minorias drusas, alauitas e cristãs foi-lhes permitido viverem a sua espiritualidade sem medos de represálias, agora, o grupo de “rebeldes” que se sublevou contra a máquina politica ameaça esta convivência pacífica e tolerante, uma vez que é predominantemente constituída por muçulmanos sunitas. Caso vençam a guerra, os grupos minoritários temem que um conjunto de muçulmanos sunitas conservadores suba ao poder e forme um estado religioso.

De outros locais onde a guerra e os conflitos são mais um lugar-comum do que uma excepção chegam-nos histórias como esta, que contam uma narrativa que parece contrária ao que os media veiculam. A Guiné-Bissau é um exemplo disso. Para quem está de fora, a instabilidade social e politica vivida espelha um país onde as pessoas têm medo de estar, mas, quando se chega à Guiné, a alegria de um povo que tem orgulho na identidade que carrega quase que espanta os que passam por lá.

Ao ouvir estes relatos, das pequenas histórias à margem da guerra apercebemo-nos que, talvez, a imagem que é veiculada pelos media apenas mostra uma pequena porção do que realmente se passa. A verdade é apresentada como sendo algo preto no branco, quando, na realidade, as áreas cinzentas são bem superiores às restantes. Que o regime de Bashar al-Assad é uma máquina opressiva que atropela o direito à liberdade já é um facto consomado, mas aquilo que as várias facções do povo sírio pensam sobre a guerra civil e o futuro do país permanece uma verdade fragmentada e incerta.

Tags
Show More

Estela Tavares

Sem dúvida, que a comunicação é uma paixão inegável e que me define como pessoa, por isso, a licenciatura em jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social foi um passo natural. Poder escrever sobre o mundo, que nas suas múltiplas manifestações nos fornece a matéria-prima, que nos rodeia é um privilégio.
Quanto a mim, os vícios por porta-chaves, sapatos e o Nadal (um grande tenista) são algumas das características, que segundo os meus amigos me conferem uma loucura q.b

Related Articles

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Adblock Detected

Please consider supporting us by disabling your ad blocker
%d bloggers like this: