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ContosCultura

O outro Eu

Voltei. Temos de falar.

Não fujas mais. Está na hora de ir embora. De trabalhar, de assumir, de ser. Não te deixes entreter com passos nas escadas ou raios que entram no quarto. Não te enganes com afazeres urgentes. Não finjas falta de “alguma coisa” quando é pura e simplesmente preguiça. Inércia. Não te distraias com o choro de um bebé num quarto que não é o teu – não seria assustador se o choro fosse no teu quarto, quando não tens nenhum bebé?

Não, não! Estou a dispersar-me! Estás a dispersar-me!

Pára.

O que é que te pedi?

Faz. Espreguiça-te, sacode-te e faz.

Agora é a hora da diferença. O momento da concentração. O momento do passo. Pequeno ou grande, tanto faz, é o que tu te permitires, é o que conseguires neste momento.

Não culpes o mundo, que mania! Não te deve nada. O mundo não te deve nada, se esperares por ele vais desistir esgotada e inconformada e revoltada e desiludida. As ilusões eram tuas, ninguém tas prometeu. Por isso, se as queres e se precisas delas, faz por merecer. Faz acontecer. A responsabilidade de fazer é tua, a responsabilidade de resultar podes deixar com a sorte, com o destino, e com o teu trabalho. Foge, sai, corre. Pega na caneta. Abre o livro. Aceita a oportunidade. Dá o beijo. Agarra o abraço. Suspira e atira-te. Nem que seja para dentro de ti própria. Talvez me encontres.

Sim, claro que tens de descansar. Mas o cansaço só serve de desculpa às vezes. Tu própria sabes que a maioria delas não é cansaço, é medo ou… É… adivinha a palavra? Procrastinar. Não. Chega. O avião caiu e estavam lá pessoas que iam deixar a vida para amanhã. Faz agora!

Oh! Pareces uma criança. “Não mandas em mim”. Que sentido é que isso faz? Sou tu, claro que mando em ti. Estou a tentar ajudar-te a ser mais, a ser melhor, a ser a pessoa que foste feita para ser, a ser a pessoa que queres ser. Ou isso dizes. Queres mesmo? Ou vais escolher o caminho mais fácil, mais óbvio, menos cansativo?

Okay, então estamos em sintonia. Vamos a isso.

Eu voltei. Vais contar a alguém ou é o nosso segredo? Perfeito. Estás melhor sem os medicamentos, mesmo que eles digam que não deves ouvir “a voz”. Que insulto, chamar-me “a voz”. Eu sou tu. Vamos ser mais. E o primeiro passo para a tua mudança vai ser fugir deste hospital.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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