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ContosCultura

O olhar selvagem de quem foi ferido

Tinha um olhar selvagem. Entre a confusão, a dor e o ódio. O olhar selvagem de quem foi ferido.

“Pára” pediu-lhe ela. Numa voz que suplicava, um fio de voz que era como um fio de água. A insistência para parar a dor, num momento em que se sabe que não há como voltar atrás, mesmo que nos calemos.

“Acabou.”

Enquanto ele dizia aquelas palavras cortantes e via o quanto ela o amava, não conseguia deixar de se sentir mais orgulhoso que piedoso. Não era capaz de querer agarrar nas mãos trémulas dela e protegê-la, de apagar o passado, de a abraçar contra o seu corpo e beijar-lhe o cabelo. Sentia um orgulho enorme. Controlo. Contentamento em sabê-la dele, em poder atirar-lhe tantas letras feias e mesmo assim ver que ela só queria que ele retirasse tudo o que tinha acabado de dizer. Claro que ainda a amava; iam ter um filho. Claro que ainda se amavam. “Não, minha querida, estás enganada. Já não te amo. Já te traí várias vezes, não tenho interesse em ti. Há um mundo para descobrir. Fartei-me.”

Palavras que doíam. Crueldade. Sentia-se livre naquela ruindade que acabava de escolher mostrar. A ela, justamente a ela. Podia ter dito mil e uma coisas que justificassem, que não magoassem, que a ajudassem a aceitar a partida dele. Mas escolheu ver nela aqueles olhos de dor selvagem, sentir nas veias o controlo que tinha sobre ela.

“Pára” os lábios dela formaram a palavra. Incrédula.

O fio de voz tinha chegado ao fim, como que cortado. Os olhos brilharam. Ele sabia o que vinha aí. Sentiu nojo. No meio daquela satisfação, sentiu nojo por ela se rebaixar, por não ser forte. Afastou as mãos, tirando da mesa todas as hipóteses de lhe tocar e de poder voltar atrás, de pedir desculpa, de alegar que era um de Abril, que tudo não passava de uma partida de mau gosto. Retirou todas as hipóteses de fazer o caminho de volta.

Ele era como um Deus. Mas na ânsia de ficar bem aos seus próprios olhos – e aos dos outros – escondia o sorriso que queria invadi-lo.

Ela baixou a cara, envergonhada. Depois, levantou-a. Como se estivesse indecisa entre mendigar o amor dele ou mostrar-se superior. Ele olhou-a. Ela encarou-o.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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