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O Olhar da Pobreza

O conceito de pobreza na visão tradicional que remete para a ausência ou nível baixo de riqueza é uma perspectiva quantitativa, económica e financeira baseada em valores monetários. A própria palavra “Pobre” reflecte e tem inerente uma serie de visões e preconceitos.

O Dicionário compacto da Língua Portuguesa diz que pobre é “alguém desprovido ou mal provido do necessário, estéril sem recursos, que vive com poucas posses.” Também diz que pode ser “mal-dotado, pouco favorecido, infeliz, desprotegido, digno de lástima ou de compaixão, que inspira dó, triste, mísero, aquele que mendiga, Homem de importância medíocre sob o aspecto social ou intelectual.”

A pobreza nesta visão significa falta ou carência do necessário à vida, penúria, escassez, estreiteza de posses ou haveres.

Outro termo importante para desconstruir este conceito é o diminutivo pobrezinho que no dicionário diz que os pobrezinhos merecem mais ternura e piedade.

A pobreza tem de ser encarada como fenómeno multidimensional e não algo meramente ligado a indicadores económicos e números. A pobreza é um fenómeno de natureza económica, mas também é social, educativo, habitacional, cultural, entre outros.

A pobreza manifesta-se por privações, mas é, sobretudo, um problema de não acesso a recursos e algo que é estrutural. A pobreza não é uma expressão meramente colectiva, também é individual. Ou seja, uma acção eficaz contra a pobreza, sobretudo pelas mudanças sociais que implica, requer a aceitação, ou pelo menos o consentimento, da sociedade.

Combater a pobreza é também combater as generalizações como “os pobres não querem trabalhar”, “os sem-abrigo são todos toxicodependentes e alcoólicos”, “os habitantes dos bairros sociais são todos criminosos”, etc. São este tipo de barreiras que também limitam o trabalho social e as próprias políticas públicas, porque, se a pessoa se capacita e tenta mudar, mas a sociedade não muda, ela acaba por continuar presa aos antigos estigmas. Infelizmente, trabalhar apenas a pessoa muitas vezes não resulta, há que trabalhar a sociedade.

Julgar e condenar alguém, partindo do princípio que existe uma norma padrão que generaliza todos os casos, faz com que as respostas à pobreza e à exclusão social sejam genéricas e desprovidas de mecanismos que individualizem os casos e as suas respostas. A pobreza não se resolve só com dinheiro e é com este princípio que se tem de construir estratégias de enraizamento comunitário, envolvimento cívico e desenvolvimento local.

Embora existam muitos dados e estatísticas que contrariam os preconceitos e as generalizações, verifica-se que a percepção da pobreza pela sociedade portuguesa revela uma compreensão “pré-científica” das causas da pobreza pela maioria das pessoas, na medida em que atribui a pobreza a factores tais como a sorte, a inevitabilidade, o fatalismo, ou faltas imputáveis aos pobres.

Os campos de expressão da pobreza passam também por as relações intersociais precárias, a falta de solidariedade intergeracional e por causa do isolamento social.

A transformação de crenças e preconceitos que estão estabelecidos e fixos na memória, nos costumes e na cultura de uma sociedade, de um povo ou de um indivíduo é um dos desafios mais complexos de campanhas de mudança social.

A pobreza é indispensável à riqueza, a riqueza é necessária à pobreza. Esses dois males engendram-se um ao outro e sustentam-se um ao outro. O que é preciso não é melhorar a condição dos pobres, mas acabar com ela.

– Anatole France

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