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O Ocidente na encruzilhada

Quando se percebe que um povo está numa encruzilhada? Uma Civilização pode estar num momento de indecisão, de encontro com um grande e glorioso passado e com um futuro à vista que lhe parece poder escapar como o gelo que se derrete nas mãos?

Muitos pensadores, investigadores e autores de renome vêm declarando a decadência da Civilização Ocidental, em si mesma não assim tão fácil de definir. Barzun, no seu Da Alvorada à Decadência, deu-nos um fresco exaustivo e inteligente, com o poder do seu conhecimento e a lucidez do seu intelecto. Ian Morris, em duas obras pelo menos, O Domínio do Ocidente e As Medidas da Civilização, aprofunda a procura desse entendimento fundamental e polémico desta encruzilhada da nossa civilização. Niall Fergusson, um brilhante historiador, algo polémico, também se debruçou directamente sobre a mesma temática, em Civilização, o Ocidente e os Outros, O Declínio do Ocidente, e em Império, sobre como se construiu a hegemonia britânica.

Parece consensual que a Civilização que mais talhou o mundo como hoje o conhecemos, mais determinou formas de vida, organizações sociais, padrões de saúde e de salubridade, educativos e culturais, pode estar presentemente num ponto de viragem, uma inflexão, entre os tempos de prosperidade e uma decadência – que muitos advogam ter-se iniciado há muito – de onde pode não mais sair. A civilização árabe conseguiu prever o fim do seu apogeu e o início da sua queda? E a romana (Declínio e Queda do Império Romano, por Edward Gibon), a chinesa, as pré-colombianas? Não existe porventura um momento para o início da queda de uma Civilização. Esse declínio será feito de um conjunto de momentos, num tempo mais ou menos alargado, mas é consensual que a hegemonia se ganha e se perde, o domínio de uns sobre os outros, por formas mais ou menos violentas, física ou económico, social e culturalmente.

Provavelmente um momento de preponderância, domínio ou hegemonia de um país sobre os demais será mais fácil de se perceber, pois as resistências à decadência e a negação própria associada fazem diluir-se no tempo esse caminho descendente no grande clube das nações e na evolução para uma nova fase de domínio de uma civilização.

Uma tecnologia descoberta, ou desenvolvida e controlada por um país pode mudar o equilíbrio das preponderâncias e hegemonias e a dificuldade de assimilar ou se inserir e mais desenvolver essa tecnologia, pelos outros, significar a dado momento alguma dependência, ou submissão, por vezes, dependendo da extensão do conhecimento ou tecnologia, com consequente poder económico associado.

Normalmente, identifica-se o avanço civilizacional pelos feitos culturais, as edificações marcantes e de características arquitectónicas distintinvas, movimentos literários, organização política e social complexa e bem estruturada, comunidades científicas avançadas e adopção de tecnologias inovadoras, tudo contribuindo para um modo de vida que distingue uma civilização de outras, mas igualmente aproxima e identifica dentro de si povos e comunidades de distintas origens e desígnios nem sempre próximos.

Porém, há aspectos menos visíveis e tão importantes, ou mesmo mais do que as grandes obras culturais, socias e políticas. Uma infraestrutura de saneamento básico instalada, um sistema de saúde com pressupostos básico nunca vistos em outros locais e civilizações, um sistema educativo alicerçado em conhecimento acumulado ao longo de séculos, uma forma de constituir uma identidade nacional e, no caso, mais do que isso, ultrapassando fronteiras, criando denominadores civilizacionais comuns a muitos países.

A História humana testemunha a ascensão e a queda de antigas e fundamentais civilizações. Os chineses estabilizaram um desenvolvimento agrícola muito antes de qualquer outra região, ou cultura. Os árabes, que também enriqueceram as tecnologias agrícolas, desenvolveram conhecimentos astronómicos que os levaram a avanços nas explorações terrestes e marítimas, mais tarde aproveitados por outros povos e culturas. Já as civilizações pré-colombianas, dos quais os Maias se destacaram, mas igualmente Aztecas, Toltecas e Incas, haviam desenvolvido uma observação e registo astronómico e a sua interpretação matemática, conhecimento científico parcialmente destruído mais tarde pelos europeus, como explica Jared Diamond em Armas, Germes e Aço. O aprofundamento de todas as antigas e ricas civilizações terá sido, a dada altura, condicionado, amputado por razões diversas, por escassez de condições e meios, por limitações ambientais, ou traumas políticos e de governação, mas também, frequentemente pela, entretanto, emergente e ascendente superioridade de outras culturas. As descobertas portuguesas, o desenvolvimento do comércio a uma escala global, alterou o panorama das nações e hegemonias, dos domínios a uma escala nunca antes vista. E, entretanto, também essa contribuição decisiva dos portugueses se foi diluindo com a substituição de tecnologias e panorama económico por outras que se foram mostrando ainda mais fundamentais. Portugal foi substituído no pedestal do domínio internacional pelos povos que despertaram por uma necessidade crescente: a de crescer fora das fronteiras para permitir a sobrevivência de nações, por essa época limitadas pela escassez de alimentos e de bens comerciais transacionáveis.

Ingleses, Holandeses, Franceses e Alemães tomaram a liderança mundial, com a mudança de necessidades, paradigmas e domínio de novas tecnologias, nomeadamente na navegação, mas também na capacidade militar.

A ascensão da cultura e civilização ocidentais também se fez muito pela mudança de mentalidades que a Reforma e as novas ideias luteranas permitiram. A divulgação da religião e alguma interpretação um tanto mais individual e menos centralizada que a Reforma trouxe e a imprensa de Gutenberg permitiu, com alavanca que Lutero lhe deu, através das traduções nos vários idiomas nacionais, uma democratização da Bíblia e a expansão da religião, mas, ainda mais decisivo, a divulgação do Livro a uma nova escala, trouxeram à civilização ocidental uma possibilidade de expansão que outras culturas porventura não almejaram.

Muitas outras explicações se foram construindo para procurar entender como encontrou a Civilização dita Ocidental um caminho e uma estabilidade e posterior expansão e hegemonia, que outras, também pujantes e ricas em descobertas e inovações, não conseguiram atingir.

Estar em decadência parece ser entendimento aceite pela intelectualidade actual, quando se trata de analisar as cíclicas crises europeias e ocidentais. Provavelmente a crise, como defende Barzun, já teria começado logo após o Reforma e o movimento luterano. Ou seja, o mesmo movimento que possibilitou uma maior ascensão e deu um ímpeto maior a uma civilização, teria sido a causa do dealbar da crise da mesma e o início da queda. Porém, talvez se conclua um dia que nem sempre as civilizações têm de cair e entrar em falência social e económica. Poderá bem ser o caso de se conseguirem manter num plano de resistência teimosa, ficando um dia perante uma encruzilhada, bem mais do que num plano inclinado.

O que hoje nos parece indicar estarmos perante esta encruzilhada, se não mesmo numa fase decadente, como o defendem diversos intelectuais, são não apenas as crises económicas, as confusões e trapalhadas políticas, as indecisões, como as da actual crise migratória no espaço da eurásia. São as deslocações para as antigas civilizações dominantes, como as da Ásia, a China e Índia à cabeça, das tecnologias tipicamente ocidentais, baseadas também em descobertas científicas e processos produtivos que o Ocidente não conseguiu segurar dentro de portas, e se viu na necessidade de recorrer a paragens onde tais conhecimentos não eram de todo dominados. Uma espécie de rendição primeiro apenas laboral, depois económica e, um dia, também tecnológica.

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É este um dos sinais mais evidentes da Encruzilhada da Civilização. Um paradoxo de difícil entendimento é paradigmático desta situação, por enquanto sem solução aparente: com a abertura gradual dos países outrora presos dentro de si mesmos, o consumo de algumas matérias-primas e de fontes energéticas tipicamente ocidentais, fez disparar preços que acrescentaram a crises já incipientes pela Europa outros problemas, como a invasão de produtos a preços bem mais baixos, retirando a economias frágeis alguma subsistência já de si dolorosa e agoniante, a possibilidade de recuperação, em sectores onde os factores do custo da mão-de-obra e das matérias é crucial.

O Ocidente, numa insustentável vontade de crescimento e de competitividade, mas também de crescente capital empresarial, entregou-se nas mãos de civilizações antes deixadas para trás pelo desenvolvimento do próprio Ocidente.

A encruzilhada, a confirmar-se, sedimenta-se ainda nas crises de liderança política de uma forma nunca antes verificada. Ou, pelo menos, a lição da História é a de que nestes impasses e crises de indecisão, sempre surgiu uma crise ainda mais devastadora: uma guerra.

A encruzilhada consubstancia-se nos dias de hoje em sucessões de problemas e ciclos emergentes de confirmada incapacidade de solução. A um tempo o Euro em perigo, a outro, um conjunto de países que aderindo a uma União não conseguiram resolver os seus problemas e até acresceram outros e nunca se vislumbra o fim dos mesmos, o debelar das crises e o surgimento da prosperidade. A outro tempo, agora, a explosão migratória, ou por guerras e genocídios às portas da Europa e desta Civilização Ocidental, ou por outros fluxos, por outras razões, como a desertificação e a fome ainda crescente e ainda em fase gestacional, nomeadamente dos países subsarianos, mas também dos asiáticos, quase todos em convulsão social, em crise religiosa e política, ou em guerra. E, em convulsão, não há procura de re-equilíbrio económico e tecnológico que conduza a mitigar a miséria e a fome. Por isto, quase se pode adivinhar e antever os novos fluxos migratórios às nossas portas e mais um confronto de civilizações que, em boa verdade, nunca se conseguiram entender, ou conviver pacificamente.

As dúvidas sobre a estagnação civilizacional podem estar a ser deixadas no esquecimento, mas o tempo nos dirá se este mal entendimento dos problemas e esta gritante falta de liderança, não nos irá levar a uma triste subjugação cultural e económica. Um livro bem fundamentado, ainda que se tenha tornado um tanto polémico, como o “Civilização, o Ocidente e os Outros”, não deixando de contar uma verdade histórica, pode vir bem a ser uma quase-paródia, uma grande partida da História de nós mesmos.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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