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O Nosso Filme

No mais aborrecido dos dias, o teu livro fez questão de saltar para os meus olhos. As tuas linhas trouxeram esperanças e as palavras sorrisos. Ler-te foi uma viagem à adrenalina do mundo dos sonhos. Ler-te foi criar imagens, cores, sons, cheiros e sabores. Quando tudo parecia nublado, o teu livro mostrou sol, a tua história fez brilhar a luz de Agosto e a tua capa as estrelas numa noite de verão.

Na monotonia dos dias, o teu livro pegou nos meus olhos e fê-los quebrar a rotina. As tuas páginas criaram sensações adormecidas e as folhas foram tendenciosas e fizeram acreditar que eram verdadeiras como as de outono.

Ler tem dessas coisas. Por mais que a narrativa dos sentimentos seja fiel à realidade dos pensamentos, ler transforma-nos por dentro e isso muda-nos também por fora. Essa capacidade de voar mais alto consoante o tamanho da alma de cada um não é substituível, não está escrita nas entrelinhas. Foi isso que nos impediu de fechar a história sem protagonistas.

Tudo mudou, quando vi o teu filme. Tudo muda, quando a mesma história é vista de outro ângulo. O realizador já não és tu. Quando te li, eu fazia parte da história. Quando te vi, outras personagens tomaram o meu lugar. A minha imaginação permitiu criar as nossas cenas. As tuas imagens impediram o seu desenvolvimento. O que li perdeu cor e ganhou um plano que não nos pertence. É, por isso, que sempre te disse para guardares as imagens na tua memória tal e qual como as viste assim que lemos o teu conto. Foi por isso que te contei que essas memórias eram só tuas e que não são para partilhar. Afinal, há palavras que, quando ditas, são menos doces e imagens que, depois de expostas, perdem o sentido que dá vida às emoções.  Afinal, o teu filme definiu as fragilidades e limitações da vida real, que ironicamente a ficção teima em encobrir. Ficção, ou não, tudo era para ser perfeito. Tudo ficou por ser perfeito.

Os segredos que eram só nossos são agora fitas copiadas e gastas pelos olhos dos outros. As letras são salpicos de água salgada e as vírgulas os grãos de areia onde se vão perder.

O teu livro tem um final feliz. O nosso filme foi o nosso fim.

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Filipe G.

Jornalista de formação, apaixonado pela Rádio. Sociedade, Cultura e Social Media despertam a minha curiosidade. Gosto de pessoas, de palavras e de silêncio. As linhas que aqui escrevo são pequenos pedaços de pensamentos que reflectem o que me rodeia.

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