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O mundo de Norah

Norah Jones é um nome de culto na indústria musical. Mal ou bem, todos conhecem o seu nome, todos têm uma ideia de quem ela é e do que ela faz. Só quem não acompanha a sua carreira pode não idealizar Norah como uma mulher jovem, de uma elegância extrema, aliando uma vertente clássica acentuada a um lado contemporâneo suave, mas vincado. Sem se expor demasiado às bocas e interpretações do senso comum, Jones detém uma contenção artística e pessoal que chega a ser, por momentos, perfeita. É essa a aura apregoada por Walter Benjamin que a torna ainda mais ímpar e que ajuda a colocá-la indubitavelmente no topo da música Jazz, Folk, Soul e, até, Pop.

Foi em 1979 que Nova Iorque – mais propriamente Brooklyn – viu nascer Geethali Norah Jones Shankar, filha de Ravi Shankar, um conhecido cantor tradicional indiano. A relação com o pai nunca foi fácil, nem muito próxima, já que Norah passou grande parte da infância no Texas ao lado da mãe, Sue Jones. Talvez por isso tenha adoptado, aos 16 anos, o nome artístico que conhecemos hoje, apenas e só: Norah Jones. Foi também no Texas que ingressou no ensino superior, na Universidade de North Texas, numa formação em Jazz e piano.

Apesar da experiência na universidade, foi muito antes disso que a veia musical e as influências Jazz se fizeram sentir. Foi a ouvir Billie Holiday que tudo começou, graças à coleção de vinis que a sua mãe detinha daquela diva do Jazz. Além disso, também desde pequena que os seus dedos se acostumaram ao toque frio do piano, a sensibilidade da sua composição encetava os primeiros esboços, ainda que tímidos, ainda que camuflados na inocência de uma criança que apenas apreciava e ouvia os grandes clássicos.

Não é, então, surpresa que, na primeira vez que cantou em público, Norah Jones tenha optado por uma interpretação de um tema da sua grande influência, Billie Holiday. I’ll Be Seeing You foi a música escolhida e, mesmo sendo num pequeno café, foi nessa ocasião que uma voz inconfundível se entregou ao mundo. O público que a ouviu, sem saber muito bem o que esperar, não se pode considerar menos do que… privilegiado.

O primeiro esboço do aclamado álbum Come Away With Me chegou-nos através do EP First Sessions. Seis músicas e dez mil cópias foram suficientes para convencer em definitivo a Blue Note Records – editora com quem tinha feito um contrato preliminar para a produção e distribuição do projecto. Agora, Norah estava entregue a si e ao mundo. 2002 trouxe-nos um dos melhores álbuns do século XXI, eis que tinha chegado Come Away With Me. Foi com esse “pedido” que Norah Jones levou muitos fãs com ela, cativando-os e deslumbrando-os. No fundo, aconchegou-se, repentinamente, no coração de quem ouvia aquela voz cristalina, suave, arrojada e, sobretudo, tão particular. Desde a primeira música do álbum – Don’t Know Why, sabemos bem o porquê de se gostar de Norah, ela é… diferente e esbelta, sem precisar de ser provocante, sem precisar de vestir a pele de uma personagem irreal.

Na produção do trabalho de estreia, estiveram envolvidos alguns dos maiores produtores e especialistas de Jazz. Entre eles, Arif Mardin, senhor bem conhecido destas lides, por já ter trabalhado com nomes como Aretha Franklin e Willie Nelson. Todos os ingredientes resultaram numa mescla de elevado calibre entre Folk, Soul e, claro, Jazz. Se não acreditam apenas em palavras, eis que existem oito Grammy’s que erguem Norah Jones para patamares onde só chega quem está, de facto, num nível de culto na indústria da música mundial: revelação do ano, música do ano, melhor performance vocal feminina, gravação do ano, melhor álbum Pop, melhor engenharia de som, melhor produção e, como é óbvio, álbum do ano.

Foi preciso esperar dois anos – até 2004 – para que Feels Like Home surgisse no mercado. A expectativa era grande, mas Norah Jones não desiludiu, nem um pouco. O álbum trouxe-nos uma sonoridade mais orientada para o Country, provavelmente transportando memórias da infância da cantora em terras texanas, e a música Sunrise tornou-se num fenómeno global de popularidade. Em termos de galardões, o ano de 2004 também foi simpático para a artista: a revista Time elegeu-a como uma das personalidades mais influentes do ano e a sua contagem de prémios Grammy subiu para onze, com a conquista da melhor colaboração Pop, melhor performance vocal Pop e da melhor gravação.

Not Too Late chega-nos em 2007 com a confirmação do que já era uma verdade absoluta: Norah Jones imortalizou a sua voz na história da música. Só no velho continente, o álbum vendeu mais de um milhão de cópias. Músicas como Wish I Could, Thinking About You e Sinkin Moon destacam-se entre treze músicas originais de puro Folk/Jazz.

The Fall saiu em 2009 e junta um ingrediente novo à receita deliciosa de Jones: uma ligeira pitada de Rock. Contudo, não se enganem, o estilo Soul continua intacto. Aliás, toda a fusão terminada em “ante” que resulta no sucesso de Norah Jones continua ilesa de falhas: composição brilhante, voz deslumbrante. Basta ouvir Chasing Pirates para percebermos que ouvir este álbum é começar uma viagem que nunca mais queremos que acabe. Se, por algum motivo, isso não chegar, Light As A Feather tem Bryan Adams como acompanhamento e It’s Gonna Be é uma música, para bom fã da série How I Met Your Mother entender: “legendary!”

2012 é o ano que marca a data do seu mais recente trabalho em termos individuais. …Little Broken Hearts é o único álbum que não arrecadou nenhum Grammy, mas, nem por isso, tem uma qualidade inferior. A sonoridade rompe com a restante discografia, Norah Jones apresenta nas letras uma carga mais contemplativa, apresenta na tonalidade da sua voz um timbre mais triste e melancólico. De acorco com a revista Rolling Stone, é “algo meio suspenso num lugar enevoado da década de 70, entre o campo e a cidade”. Apesar disso, é difícil ficar indiferente a Happy Pills, primeiro single do álbum.

Ficou, assim, registado um pouco do mundo de Norah Jones. Um lugar imenso, onde o piano, a voz e a paz da perfeição melódica confluem numa voz inconfundível. Numa voz que tem e, terá sempre, um lugar eterno no coração de quem a ouve e de quem a consome, quer seja num dia triste e de chuva, ou num dia de sol no campo, porque Norah Jones é compatível com todos os estados de alma.

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Filipe Pardal

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. É assim que o meu currículo académico se define. Quanto às origens: 90% alentejano e 10% algarvio, ambas com um orgulho desmedido ainda que por motivos diferentes. As minhas temáticas preferidas vão desde a política ao desporto, com passagem pela música e literatura. A mistura parece abrangente mas a paixão é bem concreta: escrever e investigar.

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10 thoughts on “O mundo de Norah”

  1. Boa malha!
    Curiosamente ouço Norah Jones há algum tempo mas não sabia alguns destes pormenores.
    E ler o artigo ao mesmo tempo que se ouvem as canções é muito bem pensado.

  2. Adorei o seu artigo, muito bom, sútil, delicado e elegante como a própria Norah Jones. Gostei tanto que também me atrevi e fiz meu próprio comentário no facebook.
    Parabéns Felipe, você fez um excelente trabalho.

  3. Óptima reportagem. Óptima escrita. Investigação a fundo sobre a cantora. Óptimo jornalista. Como poucos em Portugal. Está no início de carreira, imaginem daqui a uns anos.
    A Norah só podia ficar bem vista nas mãos deste profissionalismo.

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