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O Momento do PSD

Em tempo de negociação de Orçamento do Estado e vésperas de apresentação na Assembleia da República, as atenções noticiosas e políticas recaem mais sobre o momento do PSD. E o Momento do PSD pode vir a tornar-se, se bem conduzido, com sentido de Estado, por parte dos actores políticos daquele Partido, num tempo de viragem da política nacional.

O Partido Social Democrata foi constituído como Partido Popular Democrático, por Sá Carneiro e os seus companheiros de ideologia e visão para Portugal, como uma organização de muito relevo com inspiração social-democrata. Nunca pretendeu o PSD ser um Partido socialista, ainda que socialista democrático (o que não é propriamente o mesmo que social-democrata, como manipuladores e oportunistas no PS pretenderam ou ainda pretendem). Até Cavaco Silva, no PSD recusava a etiqueta de ser de “Direita” e muito menos “de Esquerda”, mas antes um Partido com ênfase ideológico e praxis com respeito pela Economia e pela Iniciativa Privada, mas com nunca menosprezadas, mas antes marcantes, preocupações sociais.

Passando por tempo de pouca afirmação, ou clarificação, ideológica, o PSD veio recentemente, durantes os anos de ajustamento, a ser conotado com o Liberalismo, na vertente económica e social. Mas, verdadeiramente, nunca o foi em toda a extensão, antes tendo adoptado, mais por receios de perda de investidores e de esperança no reinvestimento dos mesmos na Economia, fruto de algumas saídas em anos anteriores de grandes empresas de Portugal, deslocando sedes para países de mais favorável fiscalidade, medidas de maior fragilização do tecido laboral, e de penalização de estratos da população economicamente menos capacitados, conduzindo a um recuo acentuado da classe média.

A classe média é sempre a grande força social tampão, entre os que muito mais dificilmente conseguirão mobilidade, leia-se ascensão social, e os que possuem a fatia grande do poder económico. Essa classe tampão é a base natural de implantação de um Partido social-democrata. Após Cavaco Silva, com Passos Coelho, o PSD arquivou a sua vocação social-democrata e, em tempo coincidente, o PS aproveitou essa opção, que se deu por pressão europeia e por iniciativa, também dos dirigentes do actual PSD, ocupando um espaço político que nem sabe utilizar, por fortes tendências marxistas e estado-dependentes, mas que serviu para destruir a confiança do eleitorado no anteriormente partido da social-democracia.

Nada disto seria de relevo, não fosse Portugal um país que necessita desse equilíbrio, que as políticas sociais e económicas, que uma ideologia posicionada no Centro-esquerda, nem na Esquerda, nem da Direita, pode trazer. Temos lido ultimamente que a Social-democracia só consegue impor-se e ser bem-sucedida em economias fortes e países ricos. E não deixa de ser verdade. Contudo, a alternativa liberal, desprotegendo os menos favorecidos e capacitados, e não permitindo a ascensão social (mobilidade social) de famílias com passado de maior pobreza ou acentuadas dificuldades, não parece ser solução. A orientação tendencialmente marxistas, com forte queda e preferência pelo que é do Estado e beneficiando os tecidos laborais do mesmo, também não permite fazer crescer em número os membros da desejada Classe Média, verdadeira promessa de futuro de uma economia que urge que cresça.

Este descurar da força e ampliação da Classe Média é o erro histórico do PSD dos últimos anos. Os anos de ajustamento não deviam ter martirizado ou mesmo aniquilado uma Classe que podia ser responsável pela inversão de declínio de Portugal, em plano económico, social, científico, cultural e em geral, centrasse em si o progresso e prosperidade, ainda adiados.

Portugal tem sido alvo de erradas políticas nacionais e europeias. A atenção excessiva a um défice do Estado e do País, em paralelo com o descurar do agigantar da Dívida do estado e Dívida geral, a carga da austeridade sobre a classe média, os ciclos alternados de contenção e de esbanjamento, com pouco ou nenhum controlo, a falta de combate transparente à corrupção, o recuo na Educação com factores de avaliação de progresso da mesma, deturpados, não deixam antever um futuro próximo muito promissor.

O carácter reformador de um PSD do passado também se desvaneceu ou perdeu pujança, perante as preocupações com um cumprimento de objetivos europeus e o sacrifício de políticas corajosas a um clientelismo, antes quase marca exclusiva do PS.

O Momento do PSD precisa de ser o do retorno a algumas origens fundacionais e a recuperação de valores genuinamente social-democratas, os valores do equilíbrio entre o respeito e incentivo da Iniciativa Privada, e as preocupações socias, também genuínas (e a denúncia da demagogia actual). O Momento do PSD devia recuperar algum intelecto natural e genuíno nos seus militantes, algumas reconhecidas personalidades, outros que sejam forças vivas e renovadoras.

Portugal precisa de um equilíbrio político que, se não o recuperar o PSD, terá uma outra força partidária de o trazer. O actual PS não irá querer desviar-se da linha que vem seguindo, onde conta apenas uma franja social de um quinto da população, o funcionalismo público e os serviços do Estado, com os quais, nunca Portugal verá futuro de prosperidade.

Portugal precisa de revitalizar a Classe Média e recriar a ascensão social. Para isso a Escola, a Educação, mas ainda mais a disponibilidade de recursos nacionais para o apoio à Economia, que nunca estão disponíveis em políticas estatizantes e que favorecem apenas grupos em obscuros negócios com o Estado.

É o Momento de contrariar o contrato do País com o Estado e de por este último a servir todo um país, uma economia e deixar crescer uma classe que antes havia sido promessa de prosperidade, a Classe Média. Porém, sempre com a difícil justiça social, a atenção a menos favorecidos e controlo de agentes económicos que usam da força e poder negocial para controlar a grande parte dos recursos financeiros e humanos até, e actuar em ambiente de oligopólio ou de cartel.

Não sei se restam dúvidas sobre o perfil de líder que este Momento PSD evoca ou exige. No entanto, podem subsistir dúvidas sobre a capacidade do mesmo Partido em fazer ascender um líder que assuma corajosamente a denúncia da decadência agora camuflada ou adiada, e saiba impor uma nova tendência de Esperança política alternativa a esta miragem de paz progressos podres.

Será importante que o PSD volte a tirar do bolso do casaco a sua natureza, como força de equilíbrio e sensatez, ou o momento pode vir a ser uma última oportunidade perdida. E perderá mais o País.

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Alexandre Bazenga

Licenciado em Agronomia e com uma pós-graduação em Gestão. Leitor adicto, a escrita é uma inevitabilidade. Música, Literatura, Pintura, Fotografia, Culinária e a demanda do Conhecimento, são outros dos meus trajectos.

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