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O Modernismo ditou o fim da arte?

Ao conceber uma obra onde redesenhava a Marilyn Monroe, em vários padrões cromáticos, ou uma lata de um refrigerante em vários formatos, qual era o objectivo de Andy Warhol? Trata-se dos artistas mais marcantes do Modernismo, século XX, movimento de ampla escala que se caracterizou por um conjunto de transformações culturais ligadas à modernização artística, à era da Idade Moderna, à era de grandes transformações tecnológicas, sociais e, fortemente, estruturais.

A explosão de formas de ver a arte, nos seus mais diversos meios, foi um ponto de referência na História. A pintura ligada à perfeição do detalhe, à concepção da perspectiva, ao delineamento figural dá lugar a uma mescla infindável de cores, formatos, olhares. Basta ver como o abstraccionismo fez a diferença em obras de pintura desenvolvidas por Kandinsky ou como o surrealismo faz sonhar em obras de Dali. Daqui, atinge-se uma possível ideia de expansionismo artístico, em que a arte sai de um cubículo meramente representativo passando para um “céu aberto” interpretativo.

Porque é que vários autores falam numa espécie de esgotamento da arte?

Vários filósofos falam em estados da arte. Um deles é o alemão Hegel, que explica, na sua obra ‘Lectures on Ascethics’, a existência de três estados de arte: o Simbólico, o Clássico e o Romântico. De acordo com o autor, o último corresponde ao Modernismo, dada a perspectiva que mostra que os estados seguem do mais objectivo ao mais subjectivo.

Daquele raciocínio, tente-se compreender o sentimento sobre o Modernismo.

Reparando na essência de cada movimento modernista e de cada florescer dos seus trabalhos, a característica psíquica, diga-se, passível de encontrar neles é o sentimento de evasão. Mergulhados num contexto bélico, a arte era vista como um refúgio, como um abrir de consciências claro mas, ao mesmo tempo, escuro, superficial, mas, ao mesmo tempo, profundo. Porquê estes paradoxos? Trata-se de um movimento artístico diversificado em si mesmo, com muitas raízes e muitas ramificações, ao nível da vertente afectiva. Criam-se relações de afecto entre a visão do autor e a visão do apreciador da obra artística.

Arte recuperativa? Por exemplo, de acordo com alguns depoimentos, Mondrian e Kandinsky, com um seguimento abstraccionista, revelavam interesse sobre uma reintegração na crença espiritual, retirada pela ascensão do materialismo, a todos os níveis, do mundo contemporâneo. Trata-se de uma forma de trazer de volta essências de outros tempos, tanto do domínio técnico (exemplo: técnicas da Grécia Antiga e Roma Antiga ou do Renascimento) como do domínio social (exemplo: a valorização do espírito, da aspiração comunitária, dos ideais de união social).

Retomando a questão do carácter representativo vs. interpretativo, considere-se a força do segundo no âmbito modernista da arte. Passando para uma função interpretativa, a arte liberta-se do seu lado vertical, rígido e expositivo, começando a apresentar-se mais crítica, dinâmica e interactiva. Deste modo, a aproximação do espectador cresce, permitindo-lhe apreciar a obra de arte de forma mais profunda, promovendo-se a ideia da arte acessível a todos os indivíduos. Sem esquecer o contexto sócio-cultural de progresso social da época, mais patente no panorama ocidental, pode mencionar-se a influência dos processos de democratização e de pacificação dos estados, que promove a liberdade de racionalizar, mas também de produzir.

Num apontamento final, será que a arte esgotar-se-á? Penso que, com a interpretabilidade, ou seja, a capacidade da arte conceber peças que permitam uma maior interpretação, desenvolvimento de pensamentos e reflexões sobre elas, haverá lugar para uma propensão de novos géneros e manifestações artísticas fortes. Nos dias que correm, segundo uma visão pessoal, a Arte Contemporânea encontra-se misturada com ambos os domínios, tanto o representativo como o interpretativo, porém, será dessa dinâmica que outras dinâmicas gerar-se-ão. Além disso, tendo em conta a potenciação das estruturas tecnológicas e electrónicas, a promoção das artes será maior, fazendo com que mais artistas concebam novas formas de pensar o mundo, estatuto que o mundo artístico adquiriu.

Em suma, refira-se: o Modernismo não ditou o fim da arte. Antes pelo contrário, potenciou-a, deu-lhe um novo nexo lógico, capaz de fazer emergir, por sua vez, outros novos nexos lógicos.

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Pedro Ribeiro

Nascido em 1996, por terras vimaranenses, tem como principal ocupação os estudos na licenciatura de Ciências da Comunicação. Apreciador das relações Media e Sociedade e Sociedade e Cultura, o seu objetivo passará por se especializar na área do jornalismo. Nesse sentido, conta com várias colaborações, a desenvolver atualmente, de forma simultânea: para o jornal ‘ComUM’, no qual é redator nas secções de Cultura e de Sociedade, para o jornal ‘Académico’, juntamente com a sua participação semanal no ‘Repórter Sombra’, onde opina nas áreas de Sociedade, Cultura e Política. No seguimento desta última área, milita na Juventude Socialista, tendo-se revelado publicamente ativista da candidatura de António José Seguro. Além disso, desenvolve um certo carinho pela sociologia, a que se junta a filosofia e, ainda, uma enorme paixão por viagens.

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