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O melhor segredo do mundo

Caminho para o comboio. Acabo de sair de um jantar com amigos; as conversas, a comida, os risos ainda fazem eco na minha mente. Agora estou sozinha, estou comigo própria. A noite de Dezembro está estranhamente amena, nem uma brisa fria me arrepia. A lua no céu está brilhante e eu sinto um conforto de perfeição no peito, sinto que as peças do puzzle encaixam todas, e, de repente, descubro-me maravilhada.

Olho para o céu. Olho para a noite, para o escuro. Olho para o chão molhado, para as pedras da calçada sujas e brilhantes da chuva, e sou inteira, ridícula e completamente feliz. Feliz a ponto de não reconhecer a tristeza, de não conseguir compreender como é que existe outro estado de espírito que não seja essa completa felicidade que nos enche o peito e nos sufoca a alma de riso. Brinco com a noção de que nunca voltarei a ser infeliz, de que aquele estado é eterno e infinito.

Num breve momento de lucidez penso que deve ser da sangria que bebi. Mas não me importa. Fui estranhamente abençoada naquela noite escura e estou agradecida pela vida e pelas pessoas que tenho na minha vida. Pelas pessoas que fazem parte de mim, que para as perder teria de arrancar um pedaço de alma e não conseguiria voltar a ser eu. Pelas pessoas que são eu e que eu sou elas, seja qual for a distância – as distâncias, que podem ser tantas! – entre nós. Agradecida pelas tatuagens que essas pessoas especiais da minha vida me deixaram na alma, com arabescos e palavras que só a nós nos dizem respeito e nos fazem sentido; cicatrizes boas, cicatrizes de guerra, de orgulho, cada uma com uma forma, com uma dor, com uma sensação, com um nome. Felicidade pura. Quero tatuar os amigos, o amor, a felicidade, a paz, a família e os dias. Quero tatuar a vida.

Caminho para o comboio. Sinto que estou perto de entender o segredo do Universo, que estou a tocar levemente o segredo da vida e que me está a escorrer pelos dedos, que não consigo agarrá-lo, mas que consigo senti-lo, quase compreendê-lo, que me roça a pele e queima, sem me deixar uma marca, sem me agarrar o braço. Deixo-o ir porque o sorriso não me sai dos lábios e não preciso desse segredo, porque já sei. Não o consigo distinguir de todos os segredos da vida e de todos os segredos do Universo que tenho encerrados no meu ser, mas sei que está lá. E que envolve a lua, e envolve relógios, e envolve palavras sem sentido, letras verdadeiras, dores distintas. Que te envolve a ti, e a mim, e ao vento, e à árvore que chora e aos cães que ladram. Não sei o que é, mas é intensamente imenso e está dentro de mim.

Sento-me no comboio. Estou feliz, estou descansada e nada me pesa. Penso em quem gosto e estou reconfortada. Sento-me na minha própria felicidade. Repouso a sorrir nesse segredo que não descubro, que não toco, que não atinjo. É o melhor segredo do mundo.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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