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O melhor do mundo

O Governo Português incumbiu Joaquim Azevedo, professor da Universidade Católica, de liderar um grupo de trabalho para criar formas de travar a queda e, de seguida, aumentar a natalidade em Portugal. As primeiras conclusões que vieram a público foram aquelas que qualquer pessoa que trabalhe, ou tenha trabalhado no sector privado conhece há muitos e muitos anos, a de que existem empresas a coagir de forma contratual, através da assinatura de declarações, as suas trabalhadoras a não engravidarem durante 5, ou 6 anos. Joaquim Azevedo afirma até que tem conhecimento de casos concretos onde isto está a acontecer.

Esta é a ponta do iceberg de algo que é muito comum, infelizmente, há vários anos. Esta situação não é de todo nova e mostra uma sociedade com um problema muito mais profundo do que a natalidade e que envolve não só a discriminação de mulheres no mercado de trabalho, como também a chantagem emocional e psicológica que elas são vítima, as ameaças que lhes são feitas quer directa, quer indirectamente, mas, acima de tudo, demonstra que Portugal é um país com uma crise muito superior à económico-financeira. Uma crise social profunda de uma sociedade cujos valores estão afectados e onde coisas tão simples como ter filhos constitui, na mente de muitos, um problema.

O Instituto Nacional de Estatística, há bem pouco tempo, publicou um estudo onde se destaca a estimativa de que, mantendo-se os níveis de tendência de natalidade nos níveis em que estão, em 2060 seremos menos 4 milhões de habitantes. Algo que pode ser verdadeiramente preocupante do ponto de vista de sustentabilidade de todo o país no médio, longo prazo.

Há muitos anos que é necessária uma política de natalidade global, pensada, não num curto, mas num longo prazo, que seja envolvente a todos os vectores da sociedade, criando não só condições mais propícias a ter filhos, mas também trazendo soluções para eventuais situações que possam criar eventuais problemas no crescimento populacional. As empresas destacam automaticamente um problema, o da ausência da trabalhadora durante largos meses, mas as próprias famílias destacam problemas, como o custo de um filho que, por si só, já constituem um problema muito mais vasto do que o custo das fraldas.

A população, ao não se renovar, vai, com a esperança média de vida a aumentar, tornar-se muito envelhecida e não activa, o que vai trazer encargos em termos de impostos muitíssimo mais elevados para a população activa, impedindo-a de poder criar mais riqueza e, logo, dissuadindo-a de ter mais filhos e, assim, amplifica a bola de neve que já vai bem grande.

Mais do que simples estudos e conclusões, é preciso reflectir sobre a base de tudo, a noção de família, o papel da mãe e do pai, como se dá o crescimento e desenvolvimento das crianças e a sua sustentabilidade. Todo o sistema é pernicioso, pois está baseado na projecção profissional e no sucesso material, fazendo com que as pessoas se dediquem mais às suas carreiras e não criem famílias. Hoje, as escolas e os ATL’s estão cheias de crianças que pouco vêem os pais, durante a semana, e que, ao fim-de-semana, esses mesmos pais pouco se dedicam aos filhos. Infelizmente, é a realidade e todas as questões que estamos a viver hoje já são reflexo duma filosofia de vida muito baseada nisto, desde há muitos anos.

Não existem fórmulas mágicas, sem dúvida nenhuma, mas é necessário pensar globalmente sobre a sociedade duma forma proactiva e directa, actuando desde já e não procrastinando. Não acredito que criar subsídios e incentivos seja a solução, pois isso vai apenas resolver o problema num curto prazo, é preciso esclarecer as pessoas a todos os níveis, mudar mentalidades e a forma de estar da própria sociedade portuguesa. Quanto mais a sociedade estiver focada no ter e menos no ser, mais problemas como este vão-se evidenciar.

Todos os grandes caminhos são feitos começando por passos pequenos. Então é, sem dúvida, também por aí que devemos começar. Pense-se, apenas como tópico para exemplo, na questão dos livros escolares, que todos sabemos ser fruto de interesses entre Estado e editoras e sobre os quais não se justifica mudanças tão frequentes.

Se “o melhor do mundo são as crianças”, como dizia Pessoa, então algo de errado se passa, sem dúvida, neste nosso cantinho à beira-mar plantado.

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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