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O Medo do Futuro

Portugal sofreu, em 2011, uma viragem de 180 graus. Após duas décadas de glória, a construir autoestradas, túneis e estádios, a classe política admite, a dez milhões de portugueses, que o país tinha chegado a uma situação insustentável. A solução passou por recorrer a ajuda externa e de imediato foram anunciadas eleições antecipadas. Sócrates foi naturalmente decapitado e substituído por Passos Coelho, que aparece como a alternativa, mas nunca como a solução. Todos nós tínhamos a consciência que os anos de folia já só faziam parte dos livros de história, o que vinha, agora, eram períodos muito difíceis. Por tudo isto, 2012 foi encarado, desde o início, como um ano temível, que toda a gente quis pular. Um ano negro, no qual constatámos casos de pessoas que perderam o seu emprego, escutámos desabafos de colegas, amigos, ou meros conhecidos formados, que não conseguiram obter estabilidade financeira e vimos milhares de jovens a dar as costas a um país, em que o próprio Primeiro-Ministro deu como alternativa a emigração. O “Medo do Futuro” instalou-se entre os portugueses, “um medo, que tem a ver com a situação actual”, argumenta o conhecido filósofo português, José Gil. Será precisamente com ajuda dos pensamentos do recém- galardoado com o Prémio Vergílio Ferreira que farei a análise de um aspecto que considero ter sido crucial para estarmos a viver o actual impasse económico-social.

Quando no dia 12 de Janeiro, o Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, questionou, durante a conferência “Made in Portugal”, promovida pelo Diário de Notícias, o porquê de não conseguirmos exportar o pastel de natal, “um dos produtos mais emblemáticos de Portugal”, Santos Pereira, chamou à atenção de um tema pouco debatido no nosso país: a ausência de inovação no empreendedorismo. Se pensarmos bem, o problema nem sequer passa pela falta de empreendedorismo, basta um breve passeio pelas ruas das cidades e vilas portuguesas para constatar a existência, a cada canto, de um cabeleireiro, de um restaurante, de um café, de uma pastelaria, ou de uma loja de roupa. As próprias estatísticas comprovam que existe muita gente, em Portugal, a trabalhar por conta própria, ou nas chamadas empresas familiares, ou seja, nada menos que 42% de activos em empresas com 9, ou menos trabalhadores. Na Alemanha, apenas 19% dos trabalhadores trabalham por conta própria, enquanto que nos Estados Unidos são 11% e na Noruega, considerado o melhor país do mundo para viver, a percentagem é de somente 8%. A situação de Portugal acaba por ser apenas comparável aos países mais pobres do planeta, como é o caso do Gana, em que o auto-emprego abrange 67% dos activos, e do Bangladesh em que são 75%.

Nos países mais ricos, a grande maioria das pessoas está empregada em organizações que agrupam centenas, ou até mesmo milhares de trabalhadores. Só uma diminuta fatia da população sonha criar um dia a sua própria empresa, o que é muito bom, uma vez que nem todos nós temos capacidade de fazê-lo. Em Portugal, qualquer um abre um negócio e, apesar de nos últimos anos se ter investido na educação e na investigação, fruto dos Fundos Comunitários que iam chegando aos cofres do país, nunca fomos capazes, como nação, de criar postos de trabalho em quantidade e qualidade, capaz de absorver a força de trabalho nacional. Deste modo, a proliferação de empresas anãs acabou por se tornar uma autêntica epidemia nacional, o que deixou transparecer a nossa improdutividade e pobreza – recorde-se que Portugal é dos países com uma das produtividades mais baixas da União Europeia.

“Para que haja mudança, é preciso que haja desejo de mudança. Nunca uma sociedade é completamente fechada, há sempre fracturas, linhas de fuga. Uma das linhas de fuga pode ser a loucura. Eis alguém que não quis ser moldado. Se há linhas de fuga, então procuremos as linhas de fuga. Elas estão sempre na nossa singularidade. O que me impressiona no Portugal normalizado de hoje é quão pouca diversidade existe na singularidade portuguesa”, afirmou José Gil, aquando a apresentação do livro  Portugal, Hoje: O Medo de Existir.

406970_481846991846621_130020135_nPara ser empreendedor não basta ter capital, é necessário, antes de mais, uma boa ideia de negócio, acreditar e ser persistente. Inovação e empreendedorismo andam inevitavelmente de mãos dadas. Um exemplo: abrir um café igual a tantos outros, é uma ideia que todos nós podemos ter e que até pode ter sucesso. Imagine uma zona fantasma de cidade X, em que os seus moradores são obrigados a percorrer dezenas de metros para tomar uma bebida, abrir um café nesse sítio significa, em princípio, sucesso garantido. Agora, imagine que dali a cinco anos, outra pessoa, face ao crescente movimento verificado naquela zona da cidade X, resolve também abrir um café, mas neste caso, um café diferente onde as pessoas têm a oportunidade de relaxar ao final do dia e de ler um dos muitos livros expostos, enquanto tomam uma bebida quente e saboreiam um crepe de chocolate, uma das muitas especialidades do estabelecimento. Por seu lado, o dono do outro café, apesar do sucesso alcançado durante os últimos anos, não arriscou mais, contentou-se e face à nova novidade perde rapidamente a clientela, sendo obrigado a fechar as portas. Anos mais tarde, o dono do café “original”, em detrimento do sucesso alcançado, arrisca mais e abre mais estabelecimentos na cidade X e por todo o país, deixando um legado considerável e com sustentabilidade às gerações vindouras.

Será que os portugueses “pensam tão pouco e de forma rotineira, geral e superficial”, como defende José Gil? Ou será antes devido a “um medo de mudar, de perder a segurança”, que funciona como “uma espécie de bloqueio de forças, de vida, em nós” e que se manifesta “na maneira como somos, não expressivos; na maneira como nos aconchegamos, como não sabemos a força do desejo”?

O empreendedorismo relevante, que gera desenvolvimento, é também um fenómeno colectivo. Se Steve Jobs não tivesse beneficiado das invenções do Centro de Palo Alto da Xerox, se não dispusesse de engenheiros formados por grandes universidades, se não existisse um mercado de milhões de pessoas cultas e qualificadas dispostas a utilizar os seus produtos e se não tivesse tido acesso a fontes de financiamento adequadas às necessidades de uma empresa “star-up”, o mais provável era nunca ter passado de um mero “biscateiro”. O empreendedorismo de maior sucesso é aquele que advém das grandes empresas, especialmente, das que cooperam umas com as outras, exemplo disso é a Microsoft. No caso português, verifica-se que as inovações mais marcantes dos últimos anos, isto é, o telemóvel pré-pago e a portagem electrónica, resultaram de grandes empresas públicas, o que dá que pensar…

Segundo José Gil, em Portugal, “a população portuguesa não forma uma comunidade, nem mesmo uma colectividade solidária”, sendo para este pensador, “o factor mais importante que impede a mudança profunda de que necessitamos”. As razões para a ausência de um conjunto social coeso são várias. Em primeiro lugar, a “ancestral sobrevalorização do estrangeiro, do lá fora que remete para um cá dentro depreciado” e que resulta numa “imagem de si sempre oscilante entre o não sou nada e sou um génio”. Em segundo lugar e em detrimento do sentimento de inferioridade, a “prática do queixume, viciada no uso do diminutivo, pois somos gente que não inscreve, medrosa de existir” reflectido na “nossa portugalidade negativada”. Por tudo isto é que impera, entre nós, portugueses, “um regime da auto-agressividade e auto-flagelação” permanente. Sentimos diversas vezes “que o Estado, os portugueses, a sociedade, a nossa essência de lusitanos não valem nada”, fazendo com que nos esqueçamos do que o nosso país tem de melhor, como por exemplo os pastéis de nata, como referiu Santos Pereira.

Terá este pensador, considerado pela revista francesa “Le Nouvel Observateur” um dos 25 grandes pensadores actuais do mundo, razão quando diz que “vivemos num país desconhecido”? Um país “cheio de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie” e que, por isso mesmo, “quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial”, não se dando importância ao que se tem? Não sei. O que realmente sei é que não necessitamos mais de empresas sem escala e sem competências, mas de melhores empresas, de melhor empreendedorismo, orientado para o desenvolvimento de ideias inovadoras e gerador de emprego qualificado para os jovens. Como diz José Gil “precisamos de respirar, o que significa criar, fazer, ver, ou seja, ter a noção de que quando nós fazemos, escrevemos, pintamos, compomos etc. Nós temos uma inscrição, afirmamos qualquer coisa que se marca no real, se transforma e cria real. O medo apenas retira energia”.

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Diana Rodrigues

Minhota de gema. Distraída. Aventureira. Gulosa. Crítica. Observadora. Anti rotina. Persistente. Sonhadora. Alguém que vê na evolução um objectivo. A escrita? É mais que uma fuga. É paixão. O jornalismo regional e a imprensa online são os intermediários.

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