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O medo do fim do mundo

A reacção que as ditas profecias maias provocaram na população, mais não seja como brincadeiras com imagens de meteoritos a caírem na paisagem australiana, Tyrannosaurus Rex no Japão partilhadas pelas redes sociais, levantam no entanto algumas questões, nomeadamente como os nossos antepassados reagiram a semelhante antecipação de acontecimentos apocalípticos que, afinal, não se verificaram. De facto, se pensarmos acerca deste assunto, somos levados a questionarmo-nos sobretudo acerca da aproximação do fim do milénio, perto do ano mil.

Todavia, segundo o historiador medievalista Georges Duby, o medo do fim do mundo originado pela mudança de milénio não passou de uma lenda romântica, fabricada e defendida pelos historiadores de século XIX. Apaixonados pela Idade Média – veja-se o caso português de Alexandre Herculano – defenderam que a suposta aproximação do fim do mundo teria suscitado um terror colectivo, levando as pessoas a desfazerem-se dos seus bens. No entanto, o único testemunho nesse sentido é descrito por um monge da abadia de Saint-Benoît-sur-Loire: “Contaram-me que no ano de 994 andavam padres em Paris a anunciar o fim do mundo”. O monge, que relata o acontecimento volvidos quatro ou cinco anos depois, acrescenta: “São loucos. Basta abrir o texto sagrado, a Bíblia, para ver, Jesus disse que nunca saberemos o dia nem a hora. Prever o futuro, pretender que esse acontecimento terrível que toda a gente espera vai dar-se em determinado momento, é ir contra a fé”.

Georges Duby acrescenta, no entanto, que por esta altura poderia sim, existir uma expectativa acerca do fim do mundo, por o Evangelho anunciar o regresso de Jesus Cristo para julgar vivos e mortos, bem como Apocalipse, quando o Demónio seria libertado e viria o Anticristo. Porém, apesar destas visões aterradoras suscitarem o pânico, provocavam também a esperança. Numa época em que a luta pela sobrevivência face à pobreza, à fome e à doença era uma realidade, a crença de que após a vinda do Anticristo viria Cristo e a terra mergulharia num longo período de abundância, reinando a paz, a igualdade e a felicidade, renovava a confiança no futuro.

A explicação adiantada por Duby fará ainda mais sentido, se pensarmos igualmente no ambiente de final de século vivido nas últimas décadas do século XIX, onde o sentido de decadência, de mudança inevitável e radical e a caminhada para o fim eram noções características desse período, reflectindo-se não só na literatura e na arte, mas também em todas as formas culturais, implicando um pessimismo por antecipação de um século que as pessoas desse tempo ainda não conheciam, mas lhe trariam duas guerras mundiais.

Não receie; neste final de ano, comemore a passagem de um ano para o outro; saia e divirta-se com os seus familiares e amigos, brindando a um futuro que lhe trará certamente muitas horas felizes. Pelo menos são estes os meus votos e de toda a Redacção do Repórter Sombra. Ainda faltam longos anos para o novo milénio.

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Pedro Urbano

Nasceu em Lisboa em 1979, tendo frequentado o antigo Liceu de Setúbal. Licenciou-se em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e é actualmente doutorado em História pela mesma Universidade, onde também concluiu o mestrado em História Contemporânea.

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