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ContosCultura

O limite do nada – Parte I (o Agora)

Aquele já deve ser o quarto mês de nevão. Não se lembra de um Inverno tão longo. Ela entra em casa e tranca o frio lá fora. Na roupa traz pendurados flocos de gelo que morrem quando se senta em frente à lareira. Põe mais duas achas no fogo e agita-o um pouco. A neve cobre de silêncio a casa, a vila, o mundo. Só se ouve o crepitar das chamas. Ela evita encarar a menina sentada de pernas cruzadas, em cima de uma manta no chão, com as bochechas vermelhas e algumas gotas de suor ao pé do cabelo apanhado. Mas não consegue fugir durante muito tempo; do canto do olho, percebe-lhe a expressão adulta, as sobrancelhas juntas, rugas na testa.

“Ainda sou culpada?” pergunta, os olhos vidrados na fogueira. O tom baixo e cansado. Era como se aquela pergunta lhe tivesse custado todas as forças.

Ela não responde à menina. O que é que poderia responder?

Nenhuma das duas olha para o saco vazio.

Antes de entrar em casa, tinha ficado uns minutos à porta a observar a ponte. Esperando que também cuspisse respostas e não só desgraças. De pedra escura, larga, com duas estátuas a vigiar, parecia ameaçadora e eterna. Não se lembrava de quando tinha sido a última vez que a tinha atravessado, quiçá quando ainda era garota. Nem se lembrava de mais ninguém que se tivesse atrevido a atravessá-la. A seguir à ponte, a floresta. A seguir à floresta, a casa velha. Arrepiou-se. Todos sabiam que a casa velha era a fronteira para o vazio, o limite do nada, um portal para o incompreensível. Para lá da ponte existiam histórias que ninguém se permitia pisar, havia passados que precisavam de ficar esquecidos.

Só que, de repente, tinha aparecido aquela menina. Uma menina que corria pela vida, olhos gigantes de quem vê demais, medo no corpo, a cruzar a ponte em direcção a ela, a neve quase até aos joelhos, arrastando alguma coisa. Como era possível? Se ninguém tinha ido para o outro lado da ponte, como era possível que de lá voltasse? Aquela menina. Aquelas duas meninas. Embora naquele momento só tivesse visto uma. Embora depois fosse descobrir que eram duas. Embora só demasiado tarde percebesse que apenas uma delas estava viva.

Raios a partissem, se ela sabia o que tinha acontecido.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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