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O karma tecnológico: como a cidadania online afecta a nossa vida offline

A minha rotina mal acordo é partilhada com 2 000 pessoas, desde as que sigo e me seguem no Instagram, Facebook e Twitter até a todos os meus leitores no meu blog, Today’s Kelly.

Durante o dia, é a minha vez de participar activamente na sociedade com um estado no facebook sobre políticas ou qualquer outro debate que possa encontrar. É mais uma forma de eu passar as minhas horas de almoço com as minhas colegas, com quem tenho imenso para falar, mas que os temas se parecem evaporar com o ligar da Internet.

À noite, já na minha cama, é hora de desejar um bom final de dia a todos aqueles que me possam interessar, desde amigos até desconhecidos – aqueles que o facebook e o instagram quiserem juntar a mim -, através de likes, comentários e uma imagem inspiradora ou mais uma selfie ou foto bonita do meu dia (até pode ter corrido muito mal, mas garanto-vos que nunca notarão isso!).

Estes são momentos registados por mim mesma ao longo de 24 horas. E que se repetem dia após dia. Semana sim, semana sim. Todos os meses desde que inventaram os smartphones, computadores e afins. Anos desde que a minha necessidade de comunicar, por muita ou pouca que fosse, se metamorfoseou neste anonimato assíduo que sismo em praticar nas redes sociais. Eu e tantos outros pensando que isto nos garantirá o papel principal na nossa vida.

aqui tinha alertado para o poder, positivo e negativo, que a Internet pode ter. Para mim, sem dúvida, os benefícios são capazes de ultrapassar todos os malefícios. Para isso, basta-nos cultivar o último elemento de cidadania: sermos nós, enquanto cidadãos respeitosos, no mundo virtual. E isto pode parecer, cada vez mais, um conceito difícil de colocar em prática.

Muitas questões, a que psicólogos e antropologistas já foram chamados a responder, procuram tecer uma rede mínima de cidadania. Desde se “será indicado não ser “amigo” nas redes sociais de quem conhecemos na vida real?” até o “quão incorrecto será não responder a uma mensagem ou videochamada?” de tantos outros conhecidos que fazemos, diariamente, através dos nossos perfis que disponibilizamos na Internet? Bem, questões difíceis e, na minha opinião, que depende da essência e conforto de cada um de nós. Se por um lado é rude não responder/atender, por outro, eu tenho de respeitar o facto de não me apetecer estar sempre, 24h sobre 24h, em contacto com outras pessoas. E, aqui, chegamos à minha questão fulcral: no meio de tanto anonimato, em que todos podem ver, comentar e partilhar a minha vida que exponho, livremente, onde há lugar para a minha protecção e intimidade?

No fundo, falar com outras pessoas, ver e partilhar imagens bonitas e que me divertem é algo que eu adoro fazer. Mas há momentos que são só meus. Momentos que não quero partilhar, contar ou que me sinto mais vulnerável. Momentos que são íntimos e não merecem ser tratados como mero entretenimento por outras pessoas. Mas serão “pessoas” aqueles que partilham a desgraça alheia, que fazem comentários maldosos sobre a minha vida partilhada e exposta? Ou serei eu a culpada por partilhar as minhas paixões, desafios e medos?

Para mim, hoje, ser cidadão online vai mais longe e abrange tudo isto.

Ser cidadão na Internet é deixar as vestes de anonimato, que tantos actos de cobardia sentimos que pode esconder, e expor quem somos verdadeiramente. Porque senão vamos acrescentar nada ao mundo, nem nada iremos melhorar com o nosso comentário, like ou partilha, então para que nos servem as comunidades online? Serão meras colónias de vespas venenosas à espera de um alvo para atacar. E a audiência? Uma comunidade de parasitas que não vivem verdadeiramente, simplesmente alimentando a sua vida de boatos e dramas mesquinhos. E, um dia, a pessoa de quem se alimentam por meio de conflitos expostos irá seguir em frente e encontrar novos momentos de felicidade, que não mais poderão satisfazer e agradar todos os parasitas que o “seguiram”, “partilharam” os seus momentos ou “gostaram” da sua infelicidade.

Na verdade, este é o verdadeiro teste de cidadania no século XXI: ver quem “partilha” a tua dor vs quem “gosta” do teu sorriso! Hoje, vive intensamente e partilha a tua alegria. Os parasitas irão morrer por sua conta e risco, afinal, já a minha avó dizia “Cada um se deita na cama que fez!”. O karma será o derradeiro transformador da cidadania online na realidade vivida!

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Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo!
Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos.
Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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