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O Jogo

Estava um pouco cansado não sei bem do quê, acho que nem Deus saberia, se é que existe e ainda se preocupe connosco. Dava aulas de Português numa escola onde os miúdos faziam tudo menos aprender, tinha-me divorciado recentemente após a minha mulher fugir com a vizinha do quinto esquerdo, e não tinha filhos de quem cuidar. Além de que tinha chegado à meia-idade e me parecia que a minha vida não tinha, nem tinha tido, grande significado. Não era excelente nem insuficiente. Era um Satisfaz menos, algo que dá para sobreviver mas que não acrescenta surpresas nem desilusões. Um estar sem estar, um “ir indo”. Enfim, não queria admitir, mas devia estar a sofrer uma crise de meia-idade.

Nessa noite tinha saído para beber um copo, com esperança de que me acontecesse algo. Algo diferente a uma televisão a repetir uma série de programas que não me interessavam, numa sala escura e abafada que ainda cheirava à minha ex-mulher. Quando reparei, estava no Cais do Sodré, eram onze da noite e nem tinha encontrado um bar para beber um vinho tinto, nem me lembrava de como tinha ido parar àquela zona da cidade.

Uma mulher suja e com um cheiro forte a transpiração cruzou-se comigo numa esquina, amaldiçoando a sua vida num sussurro sibilante, sem sequer notar a minha presença. Tinha saído de um beco mal-cheiroso mas estranhamente iluminado. Olhei. Havia uma grande mercearia aberta, com fruta de aspecto delicioso e o nome a piscar, com luzes vermelhas e amarelas típicas de feiras com carrinhos de choque. Pensei que estava a imaginar; nenhuma frutaria estaria aberta a uma hora daquelas! O fundo do beco continuava escuro, e senti um arrepio gelado percorrer-me a espinha. Contra todos os meus instintos fui até à mercearia ver o que se passava realmente, e perguntei-me se iria descobrir um bar clandestino de criaturas mitológicas, ou um salão ilegal de strip-poker. Preferia, honestamente, o segundo.

“Boa noite” disse, com ar tímido, ao ver uma rapariga à porta. Era bonita e novita, mas com um ar cansado.

“Boa noite” sorriu-me. “Vieste para o jogo?”

O meu ar era de confusão, e, quando sorriu provocadoramente, eu soube que ela sabia que eu não tinha conhecimento de jogo nenhum. Mas, descobri depois, queria dar-me a conhecer um dos maiores segredos do Mundo.

Segui-a até ao balcão e ela serviu-me um copo de vinho tinto, para descontrair. Como é que ela sabia que eu gostava de vinho tinto? Sem saber como, vi-me a contar-lhe toda a minha história, e no oitavo copo confessei que estava a ter uma crise de meia-idade. Já tinha idade (meia-idade!) suficiente para chamar as coisas pelos nomes, mas foi a primeira vez que admiti em voz alta. Perguntei-me naquela momento se estava a tentar engatá-la recorrendo à pena e à honestidade, mas afastei rapidamente o pensamento. Quando lhe contei que estava preparado para uma mudança, por mínima que fosse – mais do que preparado; à disposição para aventuras, desesperado por novos acontecimentos, ela perguntou-me:

“Queres conhecer um dos grandes segredos?”

“Que grandes segredos?”

“Da vida. Da morte.” Encolheu os ombros, como se não fosse nada importante.

Acenei imediatamente com a cabeça, de olhos esbugalhados como uma criança. E ela olhou para a porta das traseiras, num momento típico de filme em que sabemos que a próxima acção vai mudar completamente a vida do protagonista. Em câmara lenta, apontou para a porta com o seu indicador que acabava numa unha vermelha, e em tom de desafio, de descrença provocadora, de indiferença fingida, permitiu: “Podes ir”.

Fui. E sabia que ela me seguia, talvez para ver a minha reacção. Talvez me fossem tirar órgãos, vender no mercado negro. Não; provavelmente era o tal salão de jogo ilegal ou… ou um bordel? Sentia que tudo podia acontecer. Abri a porta e entrei numa sala cheia de fumo. Tossi ao entrar. No meio, havia uma mesa. Sentado de um lado estava um homem de meia-idade com uma barba de três dias, com um cigarro na boca e um olho meio fechado devido ao fumo. Do outro lado, um rapaz de cabelo encaracolado, comprido, com um ar quase infantil. Olharam para mim por um segundo e depois ignoraram-me. Como se eu fosse uma mosca, surgindo irritantemente na sua linha de visão, mas que não merecesse mais de dois segundos de atenção. Continuaram o seu jogo de cartas, até que o velho as mandou para o chão, frustrado, e o rapaz sorriu vitorioso.

“Quem são?”

“Deus e o Diabo” respondeu-me.

“Ah sim?” duvidei. “E o que é que estão a fazer?”

“Nada. Sabes, eles também estão cansados, e cada dia escolhem um jogo para acabar com o tédio. Ontem foi o Twister, hoje cartas. O Peixinho.”

Olhei para ela incrédulo. Imaginei Deus e o Diabo a jogarem ao Twister, um com a mão no círculo amarelo e outro com o pé no vermelho, numa espécie de pino-ponte embaraçoso; Deus, em toda a sua magnificiência, debaixo do Diabo, a lutar para não ceder com o peso dos cornos da Besta.

“E qual é qual?” aguentei o riso.

Ela encolheu os ombros: “Acho que já nem eles sabem…”

“E tu és…?”

“A filha do dono da mercearia.”

E depois a minha boca abriu-se numa grande gargalhada. Não consegui evitar. Eles olharam para ela e depois para mim. Ignoraram-nos, como se nada lhes interessasse havia muito, muito tempo.

Saí da sala a rir-me, e ela veio atrás de mim. Olhou-me ofendida. Mas ela tinha de compreender o que eu tinha acabado de descobrir: Deus e o Diabo estavam cansados de tudo, meio confusos, tinham abandonado o Mundo e agora passavam o tempo confinados nas traseiras de uma mercearia a jogar, com a filha do dono como guardiã deste magnífico e terrível segredo.

Ainda com as mãos apoiadas nos joelhos e com gargalhadas no peito, abanei a cabeça. Suspirei, acabando o ataque de riso. Por momentos senti-me louco, mas imensamente vivo! Vivo! Era a melhor crise de meia-idade que alguém podia pedir. Divertida, louca, inacreditável, viva!

“Obrigada” disse-lhe, sorrindo. Olhou-me com cara de pena, talvez imaginando que eu tinha perdido toda a sanidade mental. Virei-lhe as costas e nunca mais a vi.

Não sei se acreditei no que vi (será que vi? Sonhei?), e não sei ainda hoje se acredito. Mas naquele momento louco e vivo, pensei “preciso de comprar um carro desportivo e arranjar uma miúda de 25 anos”.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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