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O jogo da felicidade

No passado fim-de-semana o Benfica sagrou-se campeão nacional de futebol e, como habitual, um povo saiu à rua para comemorar, enchendo a Praça Marquês de Pombal com as festividades. Ouvindo as notícias, via-se o entusiasmo daqueles que celebravam o facto do “seu” clube ter ganho, eles “eram” os campeões e, em alguns casos mais drásticos, demonstravam o “amor” pelo seu clube. Nada tenho contra a manifestação de apoio e de celebração em relação à vitória de um clube que seguimos, que admiramos, com que nos identificamos, seja ele qual for, e escreveria o mesmo caso fosse outro clube, mas entristece-me ver que mais facilmente se vai para a rua por causa de um campeonato de futebol, mais facilmente se unem em prol de um jogo onde os protagonistas ganham mais por mês do que, arriscaria, 99% dos que se manifestam, ganham num ano de trabalho, do que para defenderem os seus direitos.

O tempo em que vivemos ainda é desta vivência colectiva que marcou o século XX, dum seguidismo cego, pleno de treinadores de bancada, onde há uns contra os outros, onde a vitória ainda se comemora pelo rebaixamento dos adversários. O tempo que vivemos, embora já em tradição, ainda é aquele em que se vibra por um jogo de 90 minutos, se discute fervorosamente tácticas e escolhas, lê-se um jornal desportivo de fio a pavio, mas assina-se um contrato, seja ele de que natureza for, sem sequer ler as suas linhas. O tempo em que vivemos, felizmente, é aquele em que, cada vez mais, as pessoas começam a ter consciência desta dicotomia, desta anulação e deste apagamento da individualidade, seja por questões desportivas, religiosas ou, até mesmo, políticas.

O desporto foi uma forma de congregar massas e de deitar abaixo hierarquias, fazendo com que ricos e pobres estejam ao mesmo nível, unidos por um propósito comum. No entanto, da mesma forma que a religião o fez durante séculos, o desporto, nomeadamente o futebol, tornou essa congregação numa anulação da individualidade, ainda que, a forma de o fazer seja amplificando os egos individuais. As pessoas amam os clubes, choram quando perdem, celebram e gritam quando ganham. No entanto, em relação a questões da sua própria identidade e individualidade, o caso é bem diferente.

Era bom ver o mesmo entusiasmo que é gerado em prol da vitória de um jogo ou de um campeonato ser dirigido para os sonhos de cada um, para os objectivos de vida, para o seu propósito maior. Era bom ver as mesmas pessoas que acreditam na vitória do seu clube, sem qualquer dúvida ou questão, que sentem o seu sangue fervilhar quando pensam nisso, acreditarem também, da mesma forma, nas suas vitórias pessoais, na mudança das suas vidas, no ultrapassarem dos seus obstáculos. As mesmas pessoas que baixam os braços e engolem os desaforos de um chefe que se recusa a pagar-lhes mais, porque a sua vivenda e o seu carro topo de gama são mais importantes que aqueles que trabalham para ele, são aquelas que, quando alguém lhes diz que o seu clube pode perder, ou que os jogadores ganham fortunas injustificáveis, defendem-nos com unhas e dentes, revoltam-se e disparam em todos os sentidos.

Estranho este mundo em que um jogo, uma religião, um partido se torna mais importante que o próprio indivíduo. Estranho este mundo onde os sonhos de jovens e de menos jovens são facilmente substituídos pelo objectivo de ver um clube campeão. Estranho este mundo em que se vestem camisolas de uma cor e sai-se à rua para celebrar um campeonato, de sorriso nos lábios e alegria no coração, mas em que para sair à rua para votar e decidir o futuro do seu país é considerado perda de tempo.

Não quero ser mal interpretado e que pensem que não me alegro por ver a celebração nas ruas, a alegria de um povo, a felicidade de milhões, claro que sim! Contudo, gostaria de ver menos egos e mais personalidade, menos anulação e mais força de vida, gostaria de ver o mesmo entusiasmo que se vive de um lado, ser vivido para o outro. Os mesmos de sempre vão dizer que eu não entendo o futebol, a paixão, a entrega, talvez não entenda mesmo, mas a esses digo, e onde está a paixão e a entrega em lutar pelos próprios sonhos, pela sua vida, pela sua felicidade?

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Leonardo Mansinhos

Nasci em Lisboa em 1980 sob o signo de Virgem e com Ascendente Capricórnio. Quando era pequeno descobri uma paixão por música, livros e por escrever. Licenciei-me em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE e trabalhei durante quase uma década nas áreas de comércio, gestão e, principalmente, Marketing, mas desde muito cedo interessei-me pelo desenvolvimento espiritual. Comecei como autodidacta há mais de uma década em diversos temas esotéricos, nomeadamente em Astrologia, e, mais tarde, descobri no Tarot uma verdadeira paixão. Hoje dedico-me a esta paixão através das consultas de Tarot e Astrologia, assim como de formação, palestras e artigos nas mesmas áreas. Em 2009 co-fundei a Sopro d’Alma, um espaço de terapias holísticas e complementares, dedicado ao ser humano e onde dou as minhas consultas, cursos e palestras. Procuro, acima de tudo, ser um Ser todos os dias melhor, pondo-me ao serviço da sociedade através de tudo o que sou.

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