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ArtesCultura

O jogo

Li por estes dias que uma universitária holandesa, Zilla van den Born, forjou no Facebook, a sua ida para um destino tropical, durante um par de semanas, enganando mesmo os seus familiares mais próximos. Desde fotos em restaurantes asiáticos da sua cidade natal, até à decoração exótica do seu quarto, ou um Photoshop com peixes de água quente. Tantas foram as artimanhas utilizadas que todos acreditaram. O seu projecto de tese, que apontava para a manipulação da realidade, reflectia sobre o exagero do uso da rede que fazemos diariamente. Quem não gosta de parecer melhor, mais bonito, mais inteligente, mais viajado, mais bem sucedido perante os outros? Toda a gente. As vantagens e as desvantagens desta rede já foram muitas vezes discutidas, mas no fundo todos nos servimos dela e muitas vezes publicamos mais por influência do nosso amigo Ego, do que na nossa irmã Consciência. Nada que não tivéssemos feito durante toda a nossa existência enquanto humanos.  Contudo, o uso desta plataforma é muito curioso, pois esta parece potenciar algo intrínseco, mas talvez seja mesmo catalisador de uma alteração de personalidade, pelo menos daquela que é a pública, a que se manifesta fora da rede.

Como diz o ditado, “De médico e de louco, todos temos um pouco”, também aqui na rede podemos tipificar alguns comportamentos. Vamos aos extremos primeiros. 1)Os Egocêntricos e os 2) Outsiders. Os primeiros aparecem sempre em primeiro plano e a fazer coisas fantásticas – ora as férias numa ilha ora um vestido que daquele ângulo assenta que nem uma luva . Os segundos quando não se esquecem da existência da rede, recebem as mensagens atrasadas e uma catrefada de notificações. Seguimos… 3) Os Mestre da culinária. Quem é que nunca publicou aquele magnífico primeiro risotto, que de magnífico não tinha nada a não ser o amor com que foi feito? Há sempre quem publique inúmeros pratos de comida, e “entorne” para a rede o gastrónomo, chefe ou comensal que há em si. 4) Os Amigos para sempre. Podemos identificar tudo o que fazemos e com quem fazemos. Quem nunca sentiu ciúmes de não estar naquela foto, ou um enorme conforto de ser lembrado passado alguns anos, numa imagem, que deveria ser banida, ostentando um penteado dos anos 90? 5) Os azedos. Ora se há coisa que de vez em quando fazemos é enviar uns recados, que quem não se sente, não é filho de boa gente. Há quem diga que alivia! E para isso há inúmeras imagens que podemos colocar no nosso perfil esperando que o amigo que nos deixou ficar mal se sinta culpado e proceda de modo diferente quando ler algo como “(…) vai para a Índia que as vacas lá são sagradas”. Mas diria que sem frontalidade estas imagens poderão ter alguma piada, mas pouco efeito.  6) Os politiqueiros. Quem nunca disse mal do governo? Justa ou injustamente é um sítio bom para desabafar pois não temos de continuar a esgrimir argumentos e podemos fechar o computador quando quisermos. E para rematar em beleza 7) Os puros. Se não publicaram, foram decerto agraciados por uma mensagem de paz e esperança ou por um vídeo que puxou a lágrima. Há que ter arte para nos por a chorar. Confessem lá que já choraram com um vídeo que de repente vos apareceu partilhado por alguém insuspeito, e que não querendo visionaram.

É a diversidade da vida virtual, mais confortável  e amena mas nem sempre real.

RS Setembro 12_9

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Ricardo Jorge

Lisboa, 1978. Licenciado e mestre em Arquitectura pela Universidade de Lisboa, estudou também Design e Ensino das Artes. Paralelamente a estas áreas desenvolve trabalho em Ilustração e Desenho com exposições regulares em Portugal.

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