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O Islão a Partir de uma Perspectiva Ocidental

Com o terrível ataque terrorista que aconteceu no início de 2015, responsável pela morte de vários jornalistas da publicação Charlie Hebdo, em Paris, o sentimento geral na opinião pública ocidental é, evidentemente, de incredulidade e reprovação. Ainda que em momentos como este os extremos da opinião pública se aproximem, em épocas de menor conflito, o consenso tende a ser menor. Sendo que os conflitos entre culturas têm invariavelmente a sua base na falta de compreensão e em percepções mal concebidas, entender como as duas faces deste problema se vêem é essencial para se entender o conflito real.

Limitando a amplitude da sociedade ocidental aos Estados Unidos da América e à Europa (devido à grande concentração de atentados de extremistas islâmicos nestes territórios), podemos encontrar três formas diversas de ver o Islão. Por um lado, coincidindo com uma visão puramente liberal, temos uma atitude mais politicamente correcta, quase que desculpabilizadora e ingénua. Ainda que por detrás desta forma de ver o Islão se encontre o argumento mais forte de toda a discussão – os extremistas são apenas uma minoria e não são representativos do Islão em si -, esta perspectiva passa por cima de alguns dos factos mais repreensíveis em relação à cultura enraizada nos países islâmicos, que irei abordar mais à frente.

Por outro lado, numa visão usualmente conservadora, temos uma perspectiva completamente contrária. Os defensores desta posição argumentam que o Islão tem por base preceitos perigosos, fomentando uma cultura misógina, limitadora do acesso ao conhecimento científico, intransigente e violenta. É certo que várias destas características podem ser fácil e frequentemente encontradas nas culturas islâmicas (vários destes problemas são conhecidos e recorrentes), mas é importante perceber o perigo das generalizações. Como já argumentado, uma percepção forçada de um grupo leva invariavelmente a uma visão errada do mesmo, criado os exactos problemas com que nos deparamos actualmente.

Assim, uma terceira posição tem-se vindo a libertar das duas anteriores. Separando-se do politicamente correcto e do conservadorismo cego, esta forma de observar o Islão procura concentar-se nas suas características reais, separando-se dos argumentos emocionais enunciados pelas perspectivas já referidas. Um dos mais activos apologistas desta forma de encarar o Islão é Bill Maher. Num recente episódio do seu programa Real Time with Bill Maher, no qual é confrontado com um irascível Ben Affleck, Maher defende a sua posição.

No entanto, apesar de Bill Maher estar dentro desta terceira categoria, parte dos seus argumentos fogem para o lado mais conservador dos mesmos (chocante, eu sei!). Segundo Maher, o Islão, como religião em si, é inerentemente violento e perigoso, sendo, por isso, menor que as restantes religiões. Mesmo que, de facto, as culturas islâmicas apresentem estes problemas no seu seio e que o Cristianismo, em comparação, os tenha erradicado na sua maioria, o argumento utilizado pelo humorista político falha em perceber o real problema da situação. Ainda que não se possa retirar a responsabilidade ao Islão como instituição religiosa e base cultural, o facto é que esta religião é, como a maioria das restantes o foram, utilizada como arma de poder para subjugar as massas com o objectivo de atingir esse mesmo fim. Sem querer entrar por toda uma nova discussão que foge ao presente artigo (e ainda sem ignorar todos os benefícios que advêm das religiões), como instrumento de poder, instituições religiosas sempre permitiram que os líderes políticos tivessem oportunidade de limitar vários segmentos da população a aceder à educação, a posições de poder, ou até a diversas práticas culturais. Como aconteceu com o Cristianismo no século XVI, acontece ainda com o Islão.

Assim, é importante olhar para o Islão através de uma perspectiva realista e deixar de fora as emoções que nos atingem em momentos de caos, como o que aconteceu neste início de ano, sendo fundamental perceber que nada é inerentemente bom ou mau – falemos de pessoas, ou de conceitos – e que a principal razão para os conflitos culturais é, sem sombra para dúvidas, a falta de intercompreensão e vontade de conhecer o que é desconhecido.

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André Ferreira

"Political junkie", europeísta convicto e keynesiano por natureza. Ocupa todo o tempo que consegue com séries, filmes, música, livros, podcasts e qualquer outra fonte de entretenimento que consiga encontrar. Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas pela FLUL-UL e pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela FCSH-UNL.

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